Escritas

em torno do meu país

AurelioAquino
na favela

as balas vão
aquelas do coração
e as da guerra
 
na favela

chora-se em dobro
as lágrimas de pedra
e as do choro
 
líquidas

as últimas
são mares

em que se afoga
a vida e seus pesares
 
sólidas

as de pedra

são os gritos de quem luta
melhor dizê-las verbos
pela rua suja
 
na favela

o poema se escreve

com o sangue e a vontade
de quem deve
 
poema em dobro
retroativo

que teima em ser de pedra
apesar dos sentidos
 
na favela

a palavra medra

como o sacrifício
semente que não plantada
pergunta que nem se diga
 
na favela

a morte habita

uma intimidade
comedida
parente que nem seja íntima
da vida.
93 Visualizações

Comentários (0)

Iniciar sessão para publicar um comentário.