Escritas

Lista de Poemas

itinerário avante

ao riso

dê-se a fala

de quem habita inteiro
sua alma
 
ao povo

dê-se a palavra
de quem cogita
todas as praças
 
ao mundo

dê-se a vontade
de habitar impune
a liberdade
 
 
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memento

Nem mais uma excelência
entre no paraíso

sem antes que provar se tenha
que haja combatido
 
nem mais uma excelência
entre no paraíso

sem antes que provar se tenha
que exerça os sentidos
 
nem mais uma excelência
se preste ao exercício

de fabricar da pele alheia
as premissas do seu riso
 
e que assim seja

pela noite resumida

por todos os dias que o povo perca
do vão de suas vidas.
 
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Menção a Frederika

assim como Frederika
cerzida ao coração holandes
Filipéia quase se estanca
com seu destino de rês
 
nem porque Frederika

se ousasse menos urbana
mas que se quisesse alegre
no exercício do drama
 
porque galões encestados
no seu ombro mais rural l
he ditassem um ritmo lento
qual vento em canavial
 
e Filipéia quer-se rápida

na sua viagem sagaz

que empreende como bolandeira
nos engenhos do nunca mais.
 
pois mesmo sendo cidades
em contrafortes definidos
Filipéia nunca é Frederika
apesar de todos os indícios
 
assim partida Filipéia

em Frederika amordaçada
nunca que uma palavra
pesasse mais que um fardo
 
já quase Filipéia

ainda tão Frederika

o tempo lhe dita ordens
como chefe de polícia
 
revolvida sua terra

por pés tão passageiros

onde os índios que amanhavam
seu jeito de verdadeira?
 
é que lhes sobram os suores
dos homens que lhes atiçam
construindo uma história
envoltos em seus ofícios
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modernidade

como moderno

o aparelho móvel

é o tamanho exato

do homem e seu interno

o verbo que transmite

é claro e desconexo

nada do que ele é

está interno

antes se transmite

alheio a seu ego

nos programas em que a telefônica
lhe externa
 
avançado

o homem vira acessório
do nada

cada celular

é um trânsito infecundo
das palavras perdidas
pelo mundo
 
cai-lhe a vida

em programas

que tecem um sonho

e estabelecem o drama:

o homem é sempre menor
que aquele que o chama

a iniciativa da chamada

é o aval da dominância
 
apenso ao aparelho

o homem alinha

passos que nem são seus
pelos caminhos

falta-lhe pensar uma razão
por que caminha

guardada a desproporção
da inumana companhia
 
de resto

pela cidade

o homem acompanha a solidão
em direção a nada  
 
 
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Frevo II

assim no frevo desatado
das amarras todas da vida
quem poderá não descobrir
o rumo tanto da avenida
 que se alarga pelo peito
como um imenso grito
que sonha todos os mares
e afoga todos os sentidos
 
é que ao frevo compete

um dançar tão renitente

que chega a molhar a liberdade
dos ossos todos da gente

como se fora rebelião

de tudo que se consente
 
não lhe cabe a desfaçatez
de parecer-se inanimado
pois antes fora um pendão
pela avenida desfraldado
juntando todo perdão
terçando todo pecado
 
assim se faça compostura
de quem lhe traz pelos pés
como uma escrita inventada
em que lhe caiba o viés

de parecer-se deflagrado
nas costas de quem lhe usa
como uma bomba-relógio
dos tempos que se procura
 
urdido em todos os cantos
cantado em todos os ócios
caiba-lhe a contrafação

a tudo que seja o ódio
por lhe restar a candura

das humanas composturas
como se fora bandeira

de tremular em quem lhe cuida
 
o som seja o indício

de que a vida vaga e prossegue
rompendo todas as cercas
cercando todos os medos
construindo um quê de sonho
no meio dos seus segredos
 
o frevo assim desatado

é uma forma indefinida

na rua tanta do nada

de construir todas as vidas
como se o passo fosse razão
 pra derramar-se tão frequente
como um caminho aberto
no peito todo da gente
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dos tempos e das vidas com parcimônia e gestos

o relógio de pulso

marca, descompassado

as diferenças do peito

as distâncias que não trago
 
em seu mister itinerante
de fundamentar o passado
nem lhe sobra um futuro
no meio dos meus passos
 
é que lhe move um tempo

em que não estou enquadrado
porque nas horas a que me apresto
nem sempre me desabraço
 
é que o futuro nada mais é

que um passado invertido

e que não cabe em qualquer ponteiro
dos minutos de cada vida
 
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Dos sonhos rápida instância

dá-se a ilusão

tão facilmente:
sonhos são tentáculos
tão a destempo

que escavam o futuro
de repente
 
nunca lhes cabe
ordenar o presente

há um passado sonhado
impreteritamente
 
dá-se a ilusão

tão de repente:

o sonho que montamos
nos cavalga impunemente.
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Excertos da trajetória

os olhos

laçam a manhã
e pela pátria
resta no cérebro
a sensação exata
de que é pouco

o que lhe falta
 
os olhos

laçam a manhã

e pela lógica

há ainda um tempo do povo
navegando a história
 
os olhos

laçam a manhã

e pelo futuro

caminha o passado
desobrigado dos muros
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dos usos da verdade e seus modos

a verdade

nunca trai o gesto
de absolutizar a vida
em seu interno
 
a verdade

é tática

sempre lhe cabe um futuro
por inexata
 
a verdade, amiúde,

tem estratégias

é que lhe parece jovem
ser velha.
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dos viveres das gentes

quando se vive
humanamente

a vida sempre inventa

de inventar a gente

é que lhe invade um jeito
de ser completamente.
 
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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino
2026-01-17

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques
2025-12-04

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto
2025-02-27

Abração !