Lista de Poemas
Nascimento
com a mesma urdidura da vida
nada do que é interno
mais me externa em contradita
voo rastejando
como uma pipa inconstante
que teima em ser ave
de um mar ainda distante
vivo e já me combato
como um infnito medido
na constância exata da pauta
que coordena meus sentidos.
Ode eclesial
na nave
deus
é barco
de tanger a vida.
o homem
em ondas
é mar que não se teve
e que apenas transita
entre um rasgo de esperança
e aquilo que nem se cogita.
deus e homem
apenas se contemplam
um esculpido em perdas
o outro em paciência
II
em oração
impune e mansamente
o homem constrói andaimes
pela alma das gentes
deus em si
constrói-se e se constata
como um verbo intransitivo
de estranha matemática
e deixa-se mínimo
nessa íntima sintaxe
que lhe conjuga tão incerto
em verbos que nem prolata.
III
na nave
a salvação é uma bandeira
de espalhar pretextos
pela noite brasileira
conforma-se à norma
decretada a priori
de que a paz é apenas um susto
que se reteve na memória.
homem,
deus é tanto
que teima em ser altar
imune à confiança.
na nave, entretanto,
deus e o homem escondem de si
qualquer desesperança.
ode em tudo
decreta em sua instância
melhor distribuir-se em tudo
que ter da vida apenas a esperança
a primeira noite
é jazida avara
resto de manhã
numa tarde rasa
o princípio da vida
é quase, sobretudo,
um riso amanhecido
atravessado no mundo
Ode florestal
da mata
não concluo
um indivíduo planta
absurdo
madeira
que nem esteja
para cobrir um vão que seja
o cedro
desacata
o quê de pusilânime
na mata
e lavra o verde
do seu colo
com a concisão
desse seu ódio.
o baobá
nem se merece
das larguras que não traz
porque se esquece
que basta no seu peito
um quê definitivo
e as maçãs que nunca deu
tão dividido.
pau d’arco
já se mostre
na franja da manhã
em que explode
roxo lençol
da ventania
na luta dessas pedras
contra o dia.
cerejeira
tão incerta
em ser madeira
que se apresta
a moldar-se em mãos
de outras terras.
cipó
nem se desculpe
por ser mais vário que a terra
que ocupe
pois se perde dos caminhos
com a mesma compostura
de quem traz o destino
esculpido em sua culpa
cacto
sabe a cordilheira
apontando seu grito
como bandeira
e se não é árvore
antes se acha
sangrando o peito do vento
e sua mata.
pinheiro
é grande continência
resumo de si mesmo
em urgência
e escava o dia
sem intimidade
porque melhor
seria ser a tarde.
vento
já se basta
em ser espada sem gume
dessa mata
e corta a si mesmo
engolindo a madrugada
num gesto de tão conforto
da paisagem
folha
apesar de pouca
é uma concisa floresta
que se culpa
pois tem a compleição
de estandarte coletivo
do batalhão dessas árvores
em desabrigo
a mata
mesmo que não queira
é um quê definitivo
da saga brasileira.
ode desenfreada de amor ao povo
constata a exatidão
de que não há por povo
o que se queira não
todo povo é resultado
de uma razão diferente
que não se encontra nos genes
nem nos corpos das gentes
mas transita quase sempre
na simples compleição
do espaço pouco amestrado
das fibras do coração
porque senti-lo no peito
é quase rebelião
por compreendê-lo a jeito
de cada revolução
que se amanha nos gestos
palavras do coração
e nem importa que o ritmo
de suas mágoas viceje
como uma flauta invertida
em música que nunca teve
a não ser o som avaro
de sua tanta alegria
que ri do peso das horas
e das curvas da agonia
povo se sabe a povo
em cada um comprimido
e mesmo que seja uno
é um pequeno infinito
que a duras penas se vive
com a força de um grito
povo grita no sangue
como uma mansa corredeira
que sobe o caminho das horas
inventando um tempo à meias
e que deságua de repente
como uma nave inconseqüente
na imensidão das estrelas
povo grita na carne
como uma onda guerrilheira
que emboscasse no peito
a razão porque se queira
navegar nos mares tantos
de todas as suas veias
povo sabe a suor
derramado impunemente
nas maravilhas do ofício
de se saber tão urgente
coisa de um quê construído
pelos andaimes da gente
povo sabe a alegria
um riso desordenado
que começa pelos olhos
e se espalha pela face
é como sentir a ilusão
de estar encantado
povo é tudo que a gente
por mais que não se diga
guarda no gesto inteiro
traz no bolso da camisa
escondido pelo peito
como bandeira da vida
povo sabe a intimidade
coisa de não se sentir baldio
nos metros de solidão
que se costura a fio
cosendo as coisas da vida
nesse imenso navio
que trafega em mares não ditos
como um grande desafio
povo sabe a usina
de construir novos tempos
e de viver pelas horas
consumindo o momento
como uma grande bolandeira
dos destinos da gente
povo enfim é tanto
que nem se diga a razão
de não ser por muito pouco
todo nosso coração
trançado à força da hora
que não se vive em vão.
Ode ao não-ser
que meu horizonte seja um dia
posto em cabides
minha paixão não admite
que o inverso de mim
seja somente o que não tive
minha paixão não se permite
ser um amor em tese
impunemente indeciso
minha paixão não se omite
em ser da revolução
até que deixe de ser triste.
Ode a Marie Carida Roman (sobrevivente do Haiti)
nem sempre é estrangeira
há que cantá-la sempre
com a intimidade tanta
daqueles que fazem do riso
a essência da esperança
dize-la assim avara
sem jeito de caminho
é não compreende-la
em todos os seus vãos
porque há de sabe-la
qualquer um que a exercite
pois cantos há que a encantam
e os há mesmo quando triste
basta dizer as palavras
das vidas a que se permite
a vida
quando em riste
jeitos há de compreendê-la crise
a inventar-se como tanto
coisa de trazê-la em revoluções
por caminhos inatos e bastantes
Ode de infância em passo
era um sonho encabrestado
tudo que era de mim
voava tanto
que meus olhos projetavam
os futuros todos da vida
embrulhados num jeito de passado.
Eu voava tanto
que meu tempo
criou asas.
Ode definitiva a Reich
preside
a assembléia geral
do que eu não tive
minha razão
assume
todo e qualquer futuro
que me pune
hei de andar assim
incontinente
como se a vida não coubesse
naquilo que se sente
e sempre me permito
ainda insolvente
cobrar o que da vida
gasto assim impunemente.
meu corpo
é o esforço
que minha alma
apresenta
odes animais e variados informes
a raposa
pulsa o pânico
e engatilha o mêdo
em trânsito
ergue a vida
em decúbito
e alinhava a paisagem
quase em susto
II
de ser elefante
saiba-se escândalo
de carnes, paciência
e espanto
anônima tonelada
sonhe nos quilos já leve
os átomos frugais
de paquiderme
e arquitete a tromba
como andaime inato
de construir a paciência
no meu olho raso
III
garça já não seja
apenas tanto pássaro
mais um pedaço urgente
de beleza
lírica não esteja
gravada apenas lúdicamente
nas costas da natureza
IV
albatroz
não se infinite
como um verbo desgarrado
da laringe
teça seu vôo
em pauta mais unânime
e reverta meu sonho em desalinho
do tamanho exato do meu sangue
V
formiga
ninguém se obriga
a subir a vida
em descida
minúscula
ninguém escuta
nos trovões do peito
a maciez da luta
VI
quando tigre
raie a madrugada
no limite mais incauto
de toda sua plástica
e flua fartamente
qualquer sonho exausto
nos dias que se arquivam
nas paredes do seu salto
VII
mesmo leão
não me disponha
a permitir que me perca
em tudo que é sonho
e cultive o rugido
com pertinácia e conseqüência
em cada e qualquer grito
que parta da consciência
VIII
se tão corcel
palmilhe a estrada
com a vasta sofreguidão
da madrugada
e revolva caminhos
por quem andara
renhida a solidão
de quem não para
IX
assim rinoceronte
me custe a carapaça
em me cobrir de passos
amarrotados nos sapatos
e me construa lídimo
apesar de gasto
e que me seja tanto
apesar de parco
X
e adredemente humano
me rascunhe no horizonte
com os traços que a luta
escreva no meu sangue
Comentários (10)
É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
abraço
Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.
Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.
Abração !
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Español
Honrado<br />
Obrigado<br />
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.<br />
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.