Lista de Poemas
Ode ao Cometa Halley
o incrível absurdo
de refletir na tua cauda
a palidez de nossos muros
seguirás urgente em tanto espaço
constrangido no brilho que discursas
por ver os homens ainda consumidos
na lavratura intensa do futuro
cometa, não comentas,
nessa tua caminhada,
os sóis que brilham no tempo
nos passos dessa estrada.
Ode aos 54
nada me convoca
a não me sentir ausente
da discórdia
fluo impunemente
pelos vincos da idade
como um barco que ousasse
todos os mares.
aos 54
permito-me a simplicidade
de militar na vida
com certa intimidade
nada que não seja nunca
e que só seja sempre
quando tarde.
aos 54
desaviso-me das vaidades
ainda que me seja franca
a inexatidão da verdade
e que navegue pelo peito
a imensidão e a filosofia
de todas as vontades.
aos 54
meço as minha réguas
com a tranqüilidade
de quem sabe
todos as léguas
em que se cabe.
aos 54
transijo com a vida
ainda que não a compreenda
como liça
mas como um grande acordo
que a natureza fez consigo
aos 54
palavras são um rito
a não ser que o verbo
seja pouco e tão restrito
que nem o grito sobre
nos ombros dos sentidos
Ode ao carnaval de Olinda
o bloco nem tem enredo
é um punhado de sonhos
que caminha sem segredo
na doce flauta do frevo
no frevo incauto que vem
rasgando assim a ladeira
daquilo que não se tem
e que se escreve nos passos
e nos jeitos do coração
como uma música infinita
que coubesse na própria mão
não tem o sabor distante
das coisas mais coerentes
porque lhe falta ser rosa
no peito desses viventes
por condição de ser flor
desapartada das gentes
e que se queira mais povo
de fervor mais consequente
por se escrever pelas ruas
com a história na frente
às vezes nem se pressente
que o frevo é quase manhã
é condição de ser nada
é mansidão de ser tudo
é urbe descompassada
é Olinda passageira
atravessada no mundo
as ruas tremem na canção
com a coerência de um grito
e aninham a multidão
como um colo irrestrito
é como se cada corpo
com a intimidade precisa
se entranhasse pelas ruas
em todas as desmedidas
o povo dançando o tempo
desgarra lá da Ribeira
com a mesma força da vida
que se compara à certeza
de uma vida tão alegre
apesar das correntezas
dos rios que tangem todos
no rumo exato do medo
e cada um quase encontra
uma felicidade embutida
nos quatro cantos que o mundo
teimou em ser de Olinda
e até parece que o frevo
se engancha no coração
e os pés escrevem nas ruas
um quê de rebelião
como se criasse a vida
nas vidas que não se tem
e permitisse que o homem
deixasse de ser ninguém
e as ondas desse compasso
na praça do jacaré
são os bemóis desatados
de tudo quanto se quer
é o povo rompendo a rua
com a força da sua dança
como se fosse passeata
em favor da esperança
e os que escutam Olinda
tangidos por seu sorriso
inventam uma verdade
do tamanho desse grito
que vige assim nas ladeiras
e nos desvãos da cidade
como se a vida fosse enfim
um jeito da liberdade.
Ode às ovelhas da pátria
a ovelha se anuncia
e quase humana
bebe a mídia
é que lhe falta pensar
no meio da notícia.
Adrede
a mídia espalha
aquilo que a ovelha
diz navalha
e corta seu coração
numa pretensa batalha.
sem saber que não sabe
a ovelha raciocina
com o neurônio alheio
de sua sina.
Ode circunstancial e palestina
balas apenas descrevem
a indignidade.
balas não são balas
apenas indicam
uma morte desnecessária.
o menino
envolto em balas
é um dedo em riste
na cara dos canalhas
o menino
envolto em medos
é um tempo
de segredos.
o menino
envolto em morte
é a descontrução
de sua sorte.
Exercícios
quase não sirvo
os restos da vida
que admito
pedreiro
já não sento
os tijolos da alma
que aguento
magarefe
não me atrevo
a matar as reses
do meu medo
motorista
não insisto
em guiar os passos
do meu grito
caseiro
já não guardo
as casas que em meu peito
trago
engenheiro
não construo
as pontes
dos meus usos
Ile Ifé
quem te dirá
de te dizeres tanto
como há
cabeças que nem sejam outras
das bandas de Ajalá
inventos de outros destinos
nas andanças de Ifá
Obatalá
que deitas em branco
como brancas há
as esperanças de todos
em algum lugar
em todas as giras do mundo
coisas de um bem que virá
Obatalá
que melhor não sejas
nessa energia
que trança a vida dos povos
nessa agonia
porque serás a solução
de todas as vigílias
Obatalá
que tens o mundo
em branco
de brancas as nuvens
que contentas
estendendo o teu alá
por todas as conveniências
Obatalá
que atrasas o tempo
nas desoras da vida
e que inventas os minutos
de todas as minhas lidas
Obatalá
que já redizes
o que não dito
e que perduras
alinhavado
nas entranhas do infinito
Obatalá
que viges
com a mesma complacência
com que teus filhos
soletram
as nesgas da paciência
Obatalá
que me predizes
antes de dito
e que me pões a salvo
do meu próprio grito
memória
não preside
apenas auxilia
as dores que não tive
é que vivê-la
pode ser um jeito
de trazer o fato
pra dentro do peito
e tê-la como assente
no cartório da vida
coisa de ser quase falsa
mesmo objetiva
pois tange a franja da alma
como uma tristeza
que apenas deixou de ser alegre
por desnatureza.
A memória
não existe
é apenas um navio
que teima em trafegar no fato
dos mares que nem vivo.
É que em suas ondas
não navegam propriamente
antes inventam águas
em que nem se está presente.
A memória
é um cabide
em que toda a paciência
está em riste
cabe apenas trazê-la
muito amiúde
e consumi-la adredemente
naquilo tudo que eu pude.
A memória
não se anuncia
antes é propaganda
do que não vigia
e esse seu jeito de fato
é apenas alegoria
que as sinapses jogam
pelo vão dos dias.
A memória
é sempre intacta
basta não tê-la
como matemática
é preciso cabê-la
sempre avulsa
e em números
em que se caiba.
A memória
é uma gestão pacata
nada lhe gerencia
mais que a alma
porque é de tê-la própria
assim aos borbotões
que se distingue quando em paz
que se atinge quando não
é maneira de viver morrendo
inventando vivas as razões.
A memória enfim
é quase um não
que nem chega a ser exata
quando próxima da razão.
Indagação II
a vida e as mãos
apenas sobrevivem
onde nunca estão
pois por mais que no corpo estejam
envoltas no tempo e nas luvas
ninguém consegue entendê-las
no espaço exato em que as usa.
índios sentidos
indígena
quase me permito
trazer a vida
no que digo
palavras
tão a destempo
que melhor vivê-las avulsas
na felicidade do que penso
indígena
transmito
-me
com a mesma compreensão
do que nem grito
humano
quero-me indígena
nú de todos os obstáculos
do que sinto
Comentários (10)
É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
abraço
Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.
Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.
Abração !
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Español
Honrado<br />
Obrigado<br />
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.<br />
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.