Escritas

Ode florestal

AurelioAquino

da mata

não concluo

um indivíduo planta 
absurdo

madeira 
que nem esteja

para cobrir um vão que seja
 
o cedro

desacata

o quê de pusilânime 
na mata

e lavra o verde

do seu colo

com a concisão 
desse seu ódio.
 
o baobá

nem se merece

das larguras que não traz
 porque se esquece

que basta no seu peito 
um quê definitivo

e as maçãs que nunca deu 
tão dividido.
 
pau d’arco

já se mostre

na franja da manhã 
em que explode

roxo lençol

da ventania

na luta dessas pedras 
contra o dia.
 
 cerejeira

tão incerta

em ser madeira

que se apresta

a moldar-se em mãos

de outras terras.

 
cipó

nem se desculpe

por ser mais vário que a terra 
que ocupe
pois se perde dos caminhos 
com a mesma compostura 
de quem traz o destino 
esculpido em sua culpa
 
cacto

sabe a cordilheira 
apontando seu grito

como bandeira

e se não é árvore

antes se acha

sangrando o peito do vento 
e sua mata.
 
pinheiro

é grande continência 
resumo de si mesmo 
em urgência

e escava o dia

sem intimidade 
porque melhor 
seria ser a tarde.
 
vento

já se basta

em ser espada sem gume 
dessa mata

e corta a si mesmo 
engolindo a madrugada 
num gesto de tão conforto 
da paisagem
 
folha

apesar de pouca

é uma concisa floresta

que se culpa

pois tem a compleição

de estandarte coletivo

do batalhão dessas árvores 
em desabrigo
 
a mata

mesmo que não queira 
é um quê definitivo

da saga brasileira. 
 

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