Escritas

Lista de Poemas

das indivíduas razões presentes

fica assim assente
ninguém há de consumir
a solidão da gente

pois de querê-la tal
como imberbe exercício
melhor seria te-la solta
como pássara notícia

fica assim assente
ninguém há de carpir
o pranto da gente

pois de te-lo avaro
no útero dos olhos
melhor compreende-lo
como ineficácia do ócio

fica assim assente
a gente é sempre tudo
quando nada é melhor
que ser presente
👁️ 60

Das avenças vitais em grave solilóquio

hei de querer assim
o quanto me caiba
dos contrários que tenho
nas esquinas da alma

é que assim inconcluso
completo a sentença
de parecer-me humano
com grave insistência

a vida é só um plano
de construir o que se pensa
👁️ 108

Rondó de verbos em palavras e vertentes

palavras não são entes
palavras são, de repente,
os barcos e portos da gente
num mar que já se pressente
e que se teima em atravessar

palavras são fatos diferentes
resvalam nas almas e, geralmente,
escorrem da garganta impunemente
como se fossem cachoeiras displicentes
que jorram nas costas desse mar

palavras são fardos inconsequentes
que jazem na língua adredemente
como um destino que se consente
aos verbos que queiram voar

palavras têm da memória
a mesma compreensão
de um esquecimento compassado
nas curvas do ser em vão

palavras têm vida
quando postas em cabides
quando teimam em ficar nas línguas
onde nunca se admitem

palavras são roçados
de um aceiro incontrolado
que se limitam com céus
e mares desgovernados
👁️ 112

Da jurídica ação das ruas

pelas regras do processo
maternamente autuado
deixo meus autos no mundo
para todos os despachos

tramito pelas ruas
nos urgentes mandados
em que cobro meus sonhos
e as tutelas de serem fatos

e ouso despachar-me
das ações intempestivas
que teimam em alimentar
os agravos contra a vida
embargando o cumprimento
das manhãs não coletivas

as ruas apenas cobram
sua adimplência intempestiva
👁️ 85

Do pátrio desconforto

a pátria
é quase sempre
um vago e efêmero
desconforto

e se contrange
a quem lhe ama
é que a pátria nem sente
aquilo que proclama

apenas resta no peito
como medalha indevida
desgovernada solução
das vielas da vida

no vão da rua
a pátria existe
como ícone

no vão do peito
a pátria insiste
em dizer-se norma
do que é triste

a pátria é só a certeza
dos futuros em que não esteja
👁️ 91

Dueto botânico em humano relato

encontras o horizonte
com a mesma qualidade
com que explode o riso
pelo vão da tarde

ainda ssim
usina de ti mesma
nem adivinhas a razão
por que estejas

se já repousas
em noites que não vivas
o vento lavra meus sonhos
no ritmo em que deslizas

e quero-me planta
como se humana fosses
para caber num horizonte
com toda tua pose
👁️ 101

ode central de amor ao povo

de ser composto assim
como uma grande semelhança
não lhe sobre porque vário
qualquer resquício de inconstância

flua como um rio caudaloso
e que tão calmo, e grave, e forte
diga-se mais estrada do futuro
e que tanto caminho lhe comporte

junte em cada esgar e cada riso
as nesgas do humano que lhe importem
e medre como medra qualquer culpa
que se escapa de um grito de revolta

seja no seu peito e sua norma
um quê de pássaro, um tanto de resposta
e voe sua lida em voo raso
enviesado albatroz de nossa história 

queira-se lídimo apesar de inconstante
que mesmo legal seu estatuto
subverta a razão por que se invoque
a extrema tarefa de ser puro

e que seja lama de boa amolgadura
e lâmina frequente de seu susto
e que se construa numa mesma forma
guardada a compreensão de quem a usa

que osso e carne
seja pouco
como invólucro formal
do meu esforço

que carne e sonho
não contente
a exata medida
de quem sente

que eu e a consciência
convenhamos
o vasto estatuto
que nós somos

diz que o homem
é um prazer absoluto
desde que não mantenha
as medidas do seu susto 


 

👁️ 84

Das avenças do tempo em célere movimento

há um tempo
de rever as empreitadas
e consumir como tudo
o que é quase nada

há um tempo
de recrutar a vida
e merecê-la plena
pelas avenidas

e há de haver um tempo
para pentear os cabelos
com o mesmo desfastio
com que os velhos canoeiros
fingem dominar os rios

há um tempo
de sonhar as madrugadas
como um dia inexato
pelas calçadas

e haverá um tempo
de rever os risos
não apenas como músculos
distraídos

e há de haver um tempo
no peito dos homens
em que a paz apenas seja
e adredemente se conforme

e haverá um tempo
a desoras
no mais íntimo grito
de quem chora

há de haver um tempo
que assim não medre
como as dessemelhanças
do que apenas deve
👁️ 80

Das usinas da vida no fragor do tempo

usineiro da vida
quem se engane
a dizer do homem
o que lhe tange

porque de rês assim caiba
a magra intransigência
de consumir-se avaro
num mar de opulência

usineiro da morte
quem assim garante
uma vida engastada
num desvão do horizonte

dão-se como bastantes
usineiros do futuro
nas vidas que amontoam
derrubando todos os muros
👁️ 78

a necessária contrafação do querer

a necessidade
nem é necessidade
quando posta apenas
no invólucro da vontade

assim indisposta
é mais vau de descaminho
resposta de cada compleição
de cada desatino

a necessidade
nem constrange
nem punge e nem tange
a quem de tê-la, assim, urgente
exploda a razão inteira
do que ainda surge 
nas encostas do presente
👁️ 79

Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino
2026-01-17

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques
2025-12-04

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto
2025-02-27

Abração !