Lista de Poemas
Balada aos pátrios meninos da miséria
quando boiavas
eras um decreto
de que, um dia, forro
nascerias pleno
e nem te ousaram
nas alegrias
porquanto a miséria
era teu dia
quando em ventre
te morrias
como se a miséria fosse
invólucro do dia
e contivesse na abundância
uma qualidade inata
de inventar-se como vida
pelo peito da pátria
e nem mentias
quando morrias
tuas células mais caras
tuas veias, tuas vias
e nem sonhavas
como mãe efetiva
mas as que te coubessem
na barriga
e te quiseram choro
quando sorrias
magras as sem razões
do que sentias
eras um decreto
de que, um dia, forro
nascerias pleno
e nem te ousaram
nas alegrias
porquanto a miséria
era teu dia
quando em ventre
te morrias
como se a miséria fosse
invólucro do dia
e contivesse na abundância
uma qualidade inata
de inventar-se como vida
pelo peito da pátria
e nem mentias
quando morrias
tuas células mais caras
tuas veias, tuas vias
e nem sonhavas
como mãe efetiva
mas as que te coubessem
na barriga
e te quiseram choro
quando sorrias
magras as sem razões
do que sentias
👁️ 71
ode ao retirante
o coração do retirante
é um sol falido
na concordata geral
dos seus sentidos
não se crava no peito
como uma âncora de sangue
é muito mais uma medalha
que teima em ser do homem
e se ainda tramita
pelos passos da vida
é porque teima em ser carne
de armazenar alegria
é um sol falido
na concordata geral
dos seus sentidos
não se crava no peito
como uma âncora de sangue
é muito mais uma medalha
que teima em ser do homem
e se ainda tramita
pelos passos da vida
é porque teima em ser carne
de armazenar alegria
👁️ 110
Ao meu filho André
a vida
companheiro André
é de uma alegria exata
não tão gasta
que não se faça triste
e que não seja alegre
por não ser tão vasta
contém no nosso peito
a latitude necessária
de fluir pela boca
quando se luta
de engasgar-se com a morte
quando se cala
construir o seu discurso
é o ofício de quem a guarda
companheiro André
é de uma alegria exata
não tão gasta
que não se faça triste
e que não seja alegre
por não ser tão vasta
contém no nosso peito
a latitude necessária
de fluir pela boca
quando se luta
de engasgar-se com a morte
quando se cala
construir o seu discurso
é o ofício de quem a guarda
👁️ 99
Ode aos 31 anos
numa tarde precoce
dessas que se embainham no peito
bebi um gole de mim mesmo
e me entrancei com a vida
trouxe-me mais ao mundo
do que mesmo para comigo
(vã a tentativa de me morrer mais vário
na singularidade coletiva do exercício)
e me vivi tres vezes
em cada músculo que compunha
dedos e ócios
e os ossos do ofício da alegria
e fingi-me solerte
franzindo o juízo
na similitude inequívoca
das grandes sanguessugas
e rompi as manchas da vida
com meu punhal de risos
e amanheci todas as vezes
em que me tive
suicidei minha agonia
com o manejo intacto
dos menores vaticínios
rasas as dessemelhanças
no meu peito de assassino
e enchi-me de mim
nas noites mais plásticas
em que a cabeça tenta um salto
e o sonho nem desmaia
dessas que se embainham no peito
bebi um gole de mim mesmo
e me entrancei com a vida
trouxe-me mais ao mundo
do que mesmo para comigo
(vã a tentativa de me morrer mais vário
na singularidade coletiva do exercício)
e me vivi tres vezes
em cada músculo que compunha
dedos e ócios
e os ossos do ofício da alegria
e fingi-me solerte
franzindo o juízo
na similitude inequívoca
das grandes sanguessugas
e rompi as manchas da vida
com meu punhal de risos
e amanheci todas as vezes
em que me tive
suicidei minha agonia
com o manejo intacto
dos menores vaticínios
rasas as dessemelhanças
no meu peito de assassino
e enchi-me de mim
nas noites mais plásticas
em que a cabeça tenta um salto
e o sonho nem desmaia
👁️ 99
Poema à transeunte
a mulher tinha nos olhos
punhados de felicidade
e poucas eram as sentinelas
que punha em seus olhares
e assim, a pouco e pouco,
eu a vi derramar-se pela avenida
como uma bandeira escancarada
do tamanho largo de toda sua vida
punhados de felicidade
e poucas eram as sentinelas
que punha em seus olhares
e assim, a pouco e pouco,
eu a vi derramar-se pela avenida
como uma bandeira escancarada
do tamanho largo de toda sua vida
👁️ 110
Do comprimento dos mortos
os mortos de minha vida
tem léguas de sentimento
que é difícil arrumá-los todos
no exíguo espaço do peito
tem léguas de sentimento
que é difícil arrumá-los todos
no exíguo espaço do peito
👁️ 104
das vertentes coronárias da dor
ah! esse meu peito
que balança
e que sente mais
do que é preciso
a esperança
e que porque sinta
deixe-me assim desavisado
de que a vida é só um tempo
que nem sempre é tarde
e nunca me perceba
como se recebe
essa mania inata
de sofrer em tese
que balança
e que sente mais
do que é preciso
a esperança
e que porque sinta
deixe-me assim desavisado
de que a vida é só um tempo
que nem sempre é tarde
e nunca me perceba
como se recebe
essa mania inata
de sofrer em tese
👁️ 121
De Nínive em mísseis e história
o míssil arquiteta
por sobre Nínive
uma reta
ângulo tenaz e reticente
como se fora esquina
do coração da gente
e lança-se fulvo
em eletrônica voragem
e nem se pergunta da vida
como há de
Nínive, assim deitada,
é, no deserto de si,
uma quase paisagem
rouca arquitetura
de ingente norma
Nínive não comenta
apenas informa
e na cabeça do míssil
afoga-se
como uma rosa que explodisse súbito
no rio da história.
por sobre Nínive
uma reta
ângulo tenaz e reticente
como se fora esquina
do coração da gente
e lança-se fulvo
em eletrônica voragem
e nem se pergunta da vida
como há de
Nínive, assim deitada,
é, no deserto de si,
uma quase paisagem
rouca arquitetura
de ingente norma
Nínive não comenta
apenas informa
e na cabeça do míssil
afoga-se
como uma rosa que explodisse súbito
no rio da história.
👁️ 92
À Camarada Antônia
à Camarada Selma Bandeira, in memoriam
nem mais teu verbo
ressurgirá tão ávido
que recomponha tua carne
na pouquidão da tarde
ainda que as praças de Recife
guardem no seu átomo mais largo
os pedaços de rosa dos teus pulmões
esculpidos à pulso em palavras
ainda que nos olhos da gente
repouse teu retrato mais amargo
nem mesmo o fim conseguirá reter
o início lógico da madrugada
teus músculos
dilacerados em vão
pulsarão nos sonhos
que ainda trazemos nas mãos
nem mais teu verbo
ressurgirá tão ávido
que recomponha tua carne
na pouquidão da tarde
ainda que as praças de Recife
guardem no seu átomo mais largo
os pedaços de rosa dos teus pulmões
esculpidos à pulso em palavras
ainda que nos olhos da gente
repouse teu retrato mais amargo
nem mesmo o fim conseguirá reter
o início lógico da madrugada
teus músculos
dilacerados em vão
pulsarão nos sonhos
que ainda trazemos nas mãos
👁️ 82
em direções e laços
a bússola
é incoerente
pois nunca aponta o norte
que se traz dentro da gente
o sentido que aponta
é empre tão exato
que não cabe dentro do peito
ou na sola dos sapatos
e nesse conselho que traça
como irremediável ofício
não tem ainda a precisa candura
dos humanos exercícios
é incoerente
pois nunca aponta o norte
que se traz dentro da gente
o sentido que aponta
é empre tão exato
que não cabe dentro do peito
ou na sola dos sapatos
e nesse conselho que traça
como irremediável ofício
não tem ainda a precisa candura
dos humanos exercícios
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Comentários (10)
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Ademir D.Zanotelli *Poeta*
2026-01-31
É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
AurelioAquino
2026-01-17
abraço
Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.
Carlos Marques
2025-12-04
Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.
Pinto
2025-02-27
Abração !
nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.
Português
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Español
Honrado<br />
Obrigado<br />
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.<br />
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.