Escritas

Lista de Poemas

das datações impacientes da espera

1o de julho
já estava
cravado no espaço
que eu me dava

e de repente
fez continência
e já nem era julho
na paciência

tinhas mais de abril
um jeito atrasado
de um presente em que eu me fiz
com o futuro atravessado
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Da insônia em transversa pose

o sono raso
escorrega do olho
e escuta a cidade
como desconforto

o sonho
nem se apercebe
que a realidade
é uma pálpebra inerte

e o tempo
monta a madrugada
como um quebra cabeça
dos  cochilos de quem tarda
👁️ 47

dos barcos em mar com fingimento

assim noturnos
barcos são bandeiras
de tremular a esperança
pela noite brasileira

assim dançando
pela noite imensa
escrevem no peito
os mares que se queira

e nem a lua
no mar se arrime
para conter qualquer soluço
daquilo que se finge

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Ode à catarata

meio cego
o poeta exalta
o que da luz escapa
em sua alma

é-lhe estranho
o que divisa
o palmo que vê
e multiplica

meio cego
o poeta estanca
nas esquinas do olho
as esperanças

e não lhe agride a norma
de estar entre neblinas
o que o vento discursa
em tempos e adrenalinas
como resta no peito
uma vida embranquecida 
mas que estertora de luz
nas lembranças que avisa
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Digressão sobre a culatra

talvez nem a bala
como pássaro conciso
compreenda tua lógica
paciente e contida

assim avessa
à precisão e ao tato
tens mais de impulsão
do que é exato

pois se revelas o mister
em que te tens inata
permites aos autores
o constrangimento das balas

a vida nem adivinha
o quanto tem de culatra
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da inconstância das fugas em mares próprios

por que fugir
quando ainda a hora
é pouca para ser tarde
e muita para tanto cedo
se ainda nem cabe no peito
o artifício do mêdo?

fugir é admitir os rios
que os mares da gente fingem
como se fossem artérias gastas
em praças impossíveis

fugir é só um atalho
que o medo da gente exige
quando a vontade no peito
naufraga os barcos possíveis
👁️ 95

Ode aos 40 anos, retirante da mágoa

a vida
é um trânsito enorme
e nem é preciso
que o corpo lhe informe

sou aos borbotões
meus gestos mais próprios
e um verbo que teima
em dizer-se lógico

apanho
as 15000 madrugadas
que lavraram o tempo
em minha face
e as empilho largas
numa eventual felicidade

e consumo as horas
já tardio
emborar rebentem indícios
de que ardo
apesar do frio
👁️ 60

em braços de almas baldias

algum dia
eu tinha uma alma
e não sabia

não dessas que se soletram
em verbos continentes
e que se prosternam aos ventos
como dormentes

não dessas instituídas
na solerte noite da insapiência
e que transitam inócuas
no exercício da consciência

não dessas imerecidas
pelo que de humano se sinta
e que não traspasse o vau
dos rios que não se pressinta

algum dia
eu tinha uma alma
e nem sabia
alma histórica
definida
do tamanho das emoções
que alinhavo na vida

alma país
desenfreada
nas geografias que o peito
às vezes há de

alma manhã
atemporal
basta como a cabeleira
do canavial

alma usina
adrede armadura
de conjugar os risos
e a amargura

algum dia
não terei uma alma
apenas uma porta
por onde escapará a noite
como ineficiente gaivota
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Das demarches do rito vivente

a vida
é uma crise lógica
distribuída nas ruas
pelo vão das portas

inexata
nem lhe chega ao exercício
a mesma compleição
de um grande comício

torta
vige a prumo
em ruas que não dita
em todos os seus rumos

a vida
é uma crise lógica
que se finge vasta
em limitada posse

incauta
não se presta ao rito
de desmanchar-se isenta
pelo infinito

urgente
nem se admite
como coisa temporária
e sempre em riste

a vida
é uma crise lógica
e, quase sempre,
só desagua em ombros
de quem sente

talvez a vida seja só uma serpente
que vige em moratória
e enrosca-se na gente
como pose da história
👁️ 41

dos quantos josés nas avenidas

quem agora José
por não se-lo há muito
resta no vão da vida
de sentimento em punho?

quem agora José
por não se-lo tanto
tinge os ombros da alma
em desencanto?

quem agora José
por sempre te-lo sido
é maior que qualquer dor
de todo e qualquer sentido?
👁️ 80

Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino
2026-01-17

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques
2025-12-04

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto
2025-02-27

Abração !