Escritas

Lista de Poemas

da intrínseca paixão dispersa

no vão dos teus cabelos
eu ouço o Dnieper vagindo
a sua líquida e sincera
profissão de peregrino
eu vejo os ares da Ucrânia
acobertando o horizonte
com a ânsia irresoluta
das grandes saudades
e, no meio do mundo, 
repleto do teu cheiro
eu me completo impunemente
na maciez inata do teu verbo
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do versejar e suas lâminas

versos
os escrevo
como quem maneja a alma
na caneta
e de tudo é tanto
que não se perceba
o músculo apenas retórico
que seja

versos
os prolato
como uma grávida sentença
de qualquer tarde
guardada a proporção
do que nunca há de

versos
os constato
na franja íntima da noite
em que me ardo
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Ode ao amanhecer de Coxixola

nem és manhã
quando aportas crua
no vão mais impotente
de quem apenas sua
essas mágoas mais pungentes
das usinas e das ruas

nem és tarde
nos olhos mais avaros
que enquadram o horizonte
com um gosto amargo

nem és noite
guardada a proporção
de que nem usas o tempo
para fomentar a ilusão

Coxixola
deitada em manhãs
nem adivinha a lassidão
de quem vive em suas costas
como um tremendo não

antes compactua
com esse jeito informe
de quem apenas cumpre a vida
com parcimônia e lógica

e vige desmesurada
na sua pouquidão
engolindo quilos de fome
rasgando a prática em vão
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poema à vagina de minha bisavó

nem só na carne
há de viver em mim
o jeito mais urgente
que, em súbita descida,
pousou irremediavelmente
nos ombros da minha vida

minha bisavó
de vagina em punho
guardou todas as felicidades
e uma ternura incauta
de jogar sua carne pelo mundo
e, mulher, dizer-se operária
a construir estranhos edifícios
nos andaimes da alma

minha bisavó
talvez por desfastio
era um mar enviesado
fantasiado de rio

nada do que lhe nadasse
deixava de ser sentido
a delação de si ao mundo
era recado do infinito

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Das letras em manchetes avaras

Pravda já não és
na tua página
salvo o futuro
em que caibas

jornal e gesto
já nem anuncias
a grandeza humana
que há no chão de cada dia

morta, tua letra
é ainda persistência
de que habitas ainda, e tanto
o escancarado vão da consciência
👁️ 91

do ofício da distância

estes pés
que tem por ofício a distância
e que se largam no mundo
enquadrando a natureza
tem a compreensão exata
dos passos engolidos a muque
pelos pés de qualquer raça

a cada gesto
como comprimento da vida
tentam lavrar o corpo
no rumo da vontade
mas se por vezes vacilam
e não completam o movimento
engolem um passo em si mesmos
e explodem a consciência

no seu mister viajante
encontram mágoas e pontes
e um sol que, lá no fundo,
espera que avancem

👁️ 80

Auto da Vila Regina

no prumo da alvenaria
nem dizias
que um dia foras suor
de amarga serventia

e palmilhas os olhares
dos viventes que te cabem
com a desfaçatez e a culpa
de quem já não há de

e te acocoras na montanha
com a intimidade das alturas
como um monte mor reunido
que nem mesmo se atura
👁️ 53

No calor de tuas abcissas

no calor de tuas abcissas
meu corpo é uma grande norma
que me lavra no tempo
e que me informa
que o prazer é quase exato
e estranhamente desconforme
resvala pelos infinitos
como uma saudade enorme
👁️ 50

Da taba geral da vida

e haverá um dia
em que assim como indígenas
habitaremos unidos
a taba geral da vida

haverá um tempo
de todas as tribos
um genérico mar
sem possessivos

e a horda humana
enfim composta
tocará o mundo
em todas suas cordas
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pequena intrusão nos tempos

o passado só arde
quando invade
aquilo que já não se quis
porque é tarde

o futuro
só não há de
quando a manhã é pouca
para ser tarde

futuro e passado
são tempos à deriva
esperando que o coração
urgentemente os viva
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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino
2026-01-17

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques
2025-12-04

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto
2025-02-27

Abração !