Lista de Poemas
da MORTE, cantata em odes mínimas
3.
O meu tempo agora é teu... e há muito dura!
Ama-me com a fome que tens de mim
em fazer da minha carne - ânsia que te consome -
o teu leite prometido, a tua carnadura
___ o diamante puro para o teu altar.
Já não me atormenta o teu nome!
Porque tu, Morte, és a Vida-semente da minha vida
amor que em ti se prolonga indefinidamente.
Escurecem os teus olhos que por mim brilham
por alimentar o teu ventre esfaimado,
de mim sequioso e tardio
quando por fim descer à terra escura.
OPUS, selecta de poesia em Língua Portuges, Temas originais, Coimbra, 2018
O meu tempo agora é teu... e há muito dura!
Ama-me com a fome que tens de mim
em fazer da minha carne - ânsia que te consome -
o teu leite prometido, a tua carnadura
___ o diamante puro para o teu altar.
Já não me atormenta o teu nome!
Porque tu, Morte, és a Vida-semente da minha vida
amor que em ti se prolonga indefinidamente.
Escurecem os teus olhos que por mim brilham
por alimentar o teu ventre esfaimado,
de mim sequioso e tardio
quando por fim descer à terra escura.
OPUS, selecta de poesia em Língua Portuges, Temas originais, Coimbra, 2018
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TRANSCENDÊNCIAS
Na floresta do Sonho a noite em vão...
Assim tal me vagueia o pensamento,
entre o Ser e o Querer e a Ilusão
entre o transcendental e o esquecimento.
Cai a noite. Consigo adormecer
o meu estro na tua paz protectora.
Neste livro abstracto do meu Ser,
impassível folheio o qu' era outrora.
A minh' alma de desejos me crescia
batalhando por mil regiões austeras;
Visionário o meu estro se erguia
por entre a fulgidez de mil quimeras.
Muito mais te valera oh! coração
não bateres do que teres sonhado em vão.
Soneto inglês
"decassíabo" em "Martelo" com as tónicas nas posições 3, 6 e 10
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da MORTE, cantata em odes mínimas
I
Apoderas-te do meu ser, quando? Agora?
Quando unirás a tua boca à minha,
___ à boca dum poeta, nesse estreito laço?
Que vontade calada de te unires a mim tens
tu, amantíssima Morte, que por mim
esperando em silêncio, vens minando o meu
corpo que junto ao teu repousará um dia
nesse longo e apertado-abraço!
Oh! como almejas o teu corpo colado ao meu
debaixo daquela pedra fria, onde
a tua fome de mim em fogo arde.
in OPUS, selecta de poesia em Língua Portuguesa, Temas Originais, 2018
Apoderas-te do meu ser, quando? Agora?
Quando unirás a tua boca à minha,
___ à boca dum poeta, nesse estreito laço?
Que vontade calada de te unires a mim tens
tu, amantíssima Morte, que por mim
esperando em silêncio, vens minando o meu
corpo que junto ao teu repousará um dia
nesse longo e apertado-abraço!
Oh! como almejas o teu corpo colado ao meu
debaixo daquela pedra fria, onde
a tua fome de mim em fogo arde.
in OPUS, selecta de poesia em Língua Portuguesa, Temas Originais, 2018
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da MORTE, cantata em odes mínimas
2.
Desafio-te:
___ vem, hoje, sereníssima e negra
antes que seja tarde; vem, sem medo,
amantíssima vem não sejas cobarde...
desafio-te, oh Morte, antes que sejas tu,
nesse beijo frio que tanto desejas, a impores-me
a minha própria sorte ___ vem, nesta hora.
Aqui de mim, para ti, firmo a minha escritura:
___ assim te imponho eu, agora
que venhas serena mas rudemente te quero
e ao mesmo tempo austera, nesta agonia
ácida, escura e amargamente terrena.
Assim te desafio - vem, não esperes
pelo abraço final que nos há de selar a sepultura.
OPUS, selecta de poesia em Língua Portuges, Temas originais, Coimbra, 2018
Desafio-te:
___ vem, hoje, sereníssima e negra
antes que seja tarde; vem, sem medo,
amantíssima vem não sejas cobarde...
desafio-te, oh Morte, antes que sejas tu,
nesse beijo frio que tanto desejas, a impores-me
a minha própria sorte ___ vem, nesta hora.
Aqui de mim, para ti, firmo a minha escritura:
___ assim te imponho eu, agora
que venhas serena mas rudemente te quero
e ao mesmo tempo austera, nesta agonia
ácida, escura e amargamente terrena.
Assim te desafio - vem, não esperes
pelo abraço final que nos há de selar a sepultura.
OPUS, selecta de poesia em Língua Portuges, Temas originais, Coimbra, 2018
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da MORTE, cantata em odes mínimas
4.
Alimenta o teu ventre, esse amor que há tanto dura
pelo meu ser, faminto e doentio. Sim, tu, oh Morte
que tão demasiados anos da minha vida
trouxeste o teu dentro arredado e fugidio.
Hás-me urdir nesse denso e frígido amor
em tempo teu, sobre mim a tua teia.
O tempo virá em que à tua se há de unir
a minha carne ___ vida da tua vida.
Como a trovoada que sobre a terra áspera
e dura, derrama o cíclico raio quando nunca chove
e o rochedo seca e abre brechas em sua cíclica
textura, assim escorra tardiamente sobre mim
e a minha vida, o teu amor pela minha sorte,
___ e tarde o tempo
em fazer da tua vida a minha morte.
OPUS, selecta de poesia em Língua Portuguesa, Temas Originais, Coimbra 2018
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da MORTE, cantata em odes mínimas
Com estes versos quebrados propositadamente para romper com uma leitura da literatura tradicional - que bem poderiam ser heróicos elevando, se tal fossem, o poema a um lugar sublime e astral -, a mostrar o carácter transgressor e libertador da escrita, neste imaginário poético, enquanto poeta irreverente e contrário a certa linha poética que, sem desvios, canta quase invariavelmente o mesmo motivo e sob uma única variável, permito-me versar temas que, por aquilo que perturbam, são, pela maioria dos poetas, evitados. Assim, ouso tratar, também, o amor no percurso Vida-Morte - uma linha dialéctica já publicada, antes, na minha obra "O Retorno ao Princípio" - no sentido de fazer dele o elemento aglutinador de duas forças opostas, mas que se completam, dando-se continuidade uma à outra.
Dessacralizando aquela que causa tanto pavor - a Morte - para que ela vá perdendo o horror que inspira, a versei nestas odes mínimas de que aqui fica o embrião de possível obra a editar. Busco compreender a morte no entendimento que em primeiro lugar faço da vida, quando encaro com apreensão e preocupado esta sociedade de alienação, dominada pela obsessão do prazer e do dinheiro, uma sociedade do não sujeito e da violência, uma sociedade rumo ao vazio onde a morte a persegue e em muitos casos a domina, transformando-a, nesta via de pensamento, numa quase não sociedade.
Texto e poemas seguintes publicados a pag. 9 a 13, em "OPUS - selecta de poesia em Língua Portuguesa", Temas Originais, 2018, Coimbra
ISBN 978-989-688-294-5
Dessacralizando aquela que causa tanto pavor - a Morte - para que ela vá perdendo o horror que inspira, a versei nestas odes mínimas de que aqui fica o embrião de possível obra a editar. Busco compreender a morte no entendimento que em primeiro lugar faço da vida, quando encaro com apreensão e preocupado esta sociedade de alienação, dominada pela obsessão do prazer e do dinheiro, uma sociedade do não sujeito e da violência, uma sociedade rumo ao vazio onde a morte a persegue e em muitos casos a domina, transformando-a, nesta via de pensamento, numa quase não sociedade.
Texto e poemas seguintes publicados a pag. 9 a 13, em "OPUS - selecta de poesia em Língua Portuguesa", Temas Originais, 2018, Coimbra
ISBN 978-989-688-294-5
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TRAÇOS DA MINHA POÉTICA
O filósofo francês Jean-Luc Nancy, no ensaio "Resistência da Poesia", dizia que a poesia tem esta qualidade: - não aceita ser circunscrita a um género de discurso. As palavras dele são estas: "Poesia, é fazer tudo falar".
Sou absolutamente de acordo - a poesia é transversal a todas as artes, a todos os comportamentos e gestos quotidianos, e só isso explica a sua resistência. Quando tal deixar de acontecer, quando a poesia verter a sua nobre acção apenas sobre um conceito específico, ela deixa de ser - morre. Porque, poesia é a arte mais nobre da escrita.
O poema, como Eduardo Lourenço nos diz, representará "um lugar de luta", ele será sempre, como nos refere Maria Irene Ramalho uma "reflexão sobre as possibilidades e os limites da linguagem.
A poesia é a ausência sem fronteiras com a presença - ela é a sede e o excesso, o silêncio e o fulgor, o êxtase e o desencanto, o amor e o ódio. A poesia não se centra, apenas, num único vértice - ela é o amor pela palavra, pelas coisas, pelo ser, pelo todo.
O caminho da poesia neste tempo da interrogação, neste tempo desabitado, é o lugar da ausência e do desassossego, da inquietação e da procura, da descrença e da tentativa de resposta, do medo e da revolta - conceitos hoje muito esquecidos pelos poetas que só cantam um único objecto poético: o amor pelo feminino, quiçá o mais fácil de se dar à palavra poética.
O poeta José Tolentino de Mendonça, teólogo e grande humanista, adverte-nos para esta poesia da ausência na poesia de hoje - o vazio de Deus e dos Homens.
Muitas vezes pedem-me um poema significativo da minha poesia - coisa impossível de demonstrar, porque a minha poesia debruça-se, também, sobre estes temas do desassossego. Já muitos terão reparado - se ela é, por um lado, a força irradiante e clara da palavra, pelo outro é, também, a turbulência das águas, causada pelas irregularidades do leito, a lâmina da navalha que rasga as sombras, mas também a força da raíz que penetra no solo e se enraíza firme entre as pedras.
A minha poesia é isto: o poder da palavra. E o que é a poesia senão "o poder de se transcender, de se negar e se afirmar através da negação", como nos diz Ramos Rosa em "Poesia, Liberdade Livre".
Sou absolutamente de acordo - a poesia é transversal a todas as artes, a todos os comportamentos e gestos quotidianos, e só isso explica a sua resistência. Quando tal deixar de acontecer, quando a poesia verter a sua nobre acção apenas sobre um conceito específico, ela deixa de ser - morre. Porque, poesia é a arte mais nobre da escrita.
O poema, como Eduardo Lourenço nos diz, representará "um lugar de luta", ele será sempre, como nos refere Maria Irene Ramalho uma "reflexão sobre as possibilidades e os limites da linguagem.
A poesia é a ausência sem fronteiras com a presença - ela é a sede e o excesso, o silêncio e o fulgor, o êxtase e o desencanto, o amor e o ódio. A poesia não se centra, apenas, num único vértice - ela é o amor pela palavra, pelas coisas, pelo ser, pelo todo.
O caminho da poesia neste tempo da interrogação, neste tempo desabitado, é o lugar da ausência e do desassossego, da inquietação e da procura, da descrença e da tentativa de resposta, do medo e da revolta - conceitos hoje muito esquecidos pelos poetas que só cantam um único objecto poético: o amor pelo feminino, quiçá o mais fácil de se dar à palavra poética.
O poeta José Tolentino de Mendonça, teólogo e grande humanista, adverte-nos para esta poesia da ausência na poesia de hoje - o vazio de Deus e dos Homens.
Muitas vezes pedem-me um poema significativo da minha poesia - coisa impossível de demonstrar, porque a minha poesia debruça-se, também, sobre estes temas do desassossego. Já muitos terão reparado - se ela é, por um lado, a força irradiante e clara da palavra, pelo outro é, também, a turbulência das águas, causada pelas irregularidades do leito, a lâmina da navalha que rasga as sombras, mas também a força da raíz que penetra no solo e se enraíza firme entre as pedras.
A minha poesia é isto: o poder da palavra. E o que é a poesia senão "o poder de se transcender, de se negar e se afirmar através da negação", como nos diz Ramos Rosa em "Poesia, Liberdade Livre".
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UM MUNDO IMAGINÁRIO
outra criança,
daquelas com quem brinca no recreio
às guerras inventadas,
sem vitórias nem derrotas;
"dá-se-lhe um lápis e um papel"
branco, todo feito de pureza...
a medo
traça as primeiras linhas subtis,
mal definidas
de traços imprecisos:
___um círculo grande,
o seu mundo imaginário de criança.
depois, pede-se-lhe que desenhe os olhos,
e a criança desenha no seu mundo
imaginário
outros dois mundos mais pequenos;
os mundos que distribui por todas as crianças
deste mundo.
são os olhos com que vê o seu mundo
pelos olhos das outras crianças
como ela.
depois, pede-se que desenhe os braços:
___abertos os desenha.
assim, os braços são o seu mundo
que abarca inteiro os outros mundos
no abraço dos seus braços abertos
de esperança.
e desenha, por fim, as mãos,
___as mãos cheias de sonhos
os seus sonhos de criança.
___________
(reservados todos os direitos autorais nos termos da lei)
autor do desenho: Henrique Reis Carrilho (o meu neto de quase 4 anos
Nota: entre "comas" as palavras de Almada Negreiros
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HÚMUS (poema I)
eis o sol do poeta:
___ o seu sol é esta concavidade azul
em que se abriga e se aquece
no percurso sinuoso do fascínio das palavras
é todo este espaço do horizonte
é o incêndio das imagens
é o corpo que repousa no vazio e dele cria
a própria forma
no tempo do irreversível silêncio das nascentes
é toda a liberdade dos espelhos
sem véus nem sombras ___ é esta lonjura azul
onde a inquieta voz rompe o silêncio
com flores de sonho e segredos nupciais
é o amanhecer
com palavras de verdade e de esperança
___ todo este sol que o anima
é quante basta ao poeta para respirar
e nada mais
HÚMUS (prémio literário de poesia Manuel Neto dos Santos, 4.ª edição, 2018)
___ o seu sol é esta concavidade azul
em que se abriga e se aquece
no percurso sinuoso do fascínio das palavras
é todo este espaço do horizonte
é o incêndio das imagens
é o corpo que repousa no vazio e dele cria
a própria forma
no tempo do irreversível silêncio das nascentes
é toda a liberdade dos espelhos
sem véus nem sombras ___ é esta lonjura azul
onde a inquieta voz rompe o silêncio
com flores de sonho e segredos nupciais
é o amanhecer
com palavras de verdade e de esperança
___ todo este sol que o anima
é quante basta ao poeta para respirar
e nada mais
HÚMUS (prémio literário de poesia Manuel Neto dos Santos, 4.ª edição, 2018)
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LOGOS
Tu, que em mim reinas sem te ver e sem me veres
que me persegues, te pressinto todo em mim,
que em mim és e serás - princípio, meio e fim -
e mesmo que em mim não te queira tu me queres.
Tu, como serás? De ti sou sem prometeres
afectos, mesmo sem eles te quero assim!
Estranho ser eu sou pois tão denso és em mim!
Sou teu escravo sem de ti colher mereceres.
Serás tu ser ou sequer és estados de alma
que arrebatam a toda a força este meu ser?
Talvez sejam só ilusões na minha ideia
o teu estado - princípio, meio e fim - lua cheia
que paira em mim, sequer de ti nada saber
se és tormento, se és doce enlevo que a alma acalma.
in O Sereno Fluir das Coisas, 2018, In-Finita Lisboa
que me persegues, te pressinto todo em mim,
que em mim és e serás - princípio, meio e fim -
e mesmo que em mim não te queira tu me queres.
Tu, como serás? De ti sou sem prometeres
afectos, mesmo sem eles te quero assim!
Estranho ser eu sou pois tão denso és em mim!
Sou teu escravo sem de ti colher mereceres.
Serás tu ser ou sequer és estados de alma
que arrebatam a toda a força este meu ser?
Talvez sejam só ilusões na minha ideia
o teu estado - princípio, meio e fim - lua cheia
que paira em mim, sequer de ti nada saber
se és tormento, se és doce enlevo que a alma acalma.
in O Sereno Fluir das Coisas, 2018, In-Finita Lisboa
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Alvaro Giesta é nome literário, (Foz Côa, 1950). Escreve poesia, ficção e ensaio. É editor e coordenador literário. É membro do PEN Clube Português, Académico da ALA, em Portugal, Académico da ALTM, em Trás-os-Montes, sócio da Associação Portuguesa de Escritores e sócio do CEMD (Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora). Viveu em Angola entre duas guerras – a colonial e a civil – entre 61 e 75. Autodidata, por definição, é a partir do ano 2000 que desenvolve uma maior actividade literária em vários sítios da internet. Premiado em 2018 com o prémio de poesia Manuel Neto dos Santos, com o original da obra poética HÚMUS. Tem obras traduzidas em castelhano, galego, chileno e romeno.
– Livros publicados: 12 de poesia e 1 de contos; – Livros a publicar PASCOAES e a SAUDADE, ensaio.
– Coautor em mais de 40 antologias de poesia e conto em Portugal, Brasil e Roménia.
– Concebeu e fundou em 2013 a revista literária impressa A Chama de que foi editor e director até 2015. Concebeu sob a égide desta revista, a Colectânea Literária de Autores IDEÁRIOS que coordenou e editou, no seu 1.º número com 29 autores, publicada em 2019.
– Colaboração Literária e Jornalística independente em vários jornais e revistas literárias, no país e no estrangeiro, em poesia, ensaio e narrativa, nomeadamente na BIRD, revista literária online nascida sob a égide da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, onde durante 2 anos escreveu uma coluna semanal sobre ensaio e crónica.
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