Escritas

Lista de Poemas

sobre o poema - O CORPO

Reconheço a dificuldade (de entendimento) do poema - até para mim que o escrevi - se não estivermos por dentro da simbologia do Ponto de Bauhüte, coisa difícil de entender mesmo quando só aplicado no ponto central do círculo que se interacciona com o triângulo equilátero e o quadrado. É a perfeição deste ponto que faz nascer o pentagrama - símbolo pagão formado por uma estrela de cinco pontas em cada uma delas presentes os elementos: AR, TERRA, ÁGUA, FOGO e mais um 5.º elemento - o da perfeição, a quinta essência, o ESPÍRITO, que coordena os outros elementos.
Se o pentagrama for perfeito, vemos o símbolo tradicional do conhecimento fundamentado no número 5 que expressa a união dos desiguais - é a união fecunda, o casamento, a realização unindo o masculino (o 3) ao feminino (o 2).
Ao longo do tempo o Pentagrama foi usado por diversos estudiosos e filósofos como Pitágoras que usou o pentagrama como símbolo da primeira faculdade no mundo dos homens, a Escola Pitagórica. Ele é, não só um símbolo aristotélico mas, sobretudo, hermético, na boa tradição da "oculta philosophia" compendiada por Agrippa (António Macedo).
Foi com base nesta filosofia alquímica, que me parece um tanto "maçónica" que eu estruturei o poema. Baseei-me em tal teoria não funcionando tal teoria ou o pentagrama como fonte inspiradora - como se fosse musa ou muso porque isso de musas e musos é coisa em que não acredito e, como tal, para mim não existe. Agarrar-se a musas e musos para escrever poesia é próprio dos fracos poetas que atribuem a divindades aquilo que fazem mal ou fazem bem feito; é desvincular-se do que foi criado por si atribuindo-o a intervenção de inexistente divindade. Antes, baseio-me, apoio-me, assistem-me ao uso da palavra para fazer o poema, certos ensinamentos colhidos de muitas leituras que entendo, pelo seu conteúdo, úteis ao conhecimento; para fazer o poema, sirvo-me também daquilo que sinto com os olhos - é com eles que penso, é através deles que busco aquilo a que chamais inspiração.
Voltando a este poema para a escrita de tão longa nota, foi depois de ter aprendido qualquer coisa (um quase nada) das leituras que fiz de Almada Negreiros e Lima de Freitas - coisa pequenina que isto do exotérico é só para crentes, coisa que eu não sou - sobre a secreta origem e o simbolismo do Ponto de Bauhüte, pensei: e por que não agarrar no corpo da mulher, enrolado em círculo sobre o quadrado alvo do lençol e procurar o referido ponto no triângulo púbico? - coisas de devaneio poético, claro, e ao poeta é permitido estes devaneios...
É evidente que tudo isto são divagações poético-filosóficas deste lunático poeta que estão a ler. Nada do que escrevi, no poema, tem a ver com o que ensina o livro "Almada e o Número" de Lima de Freitas e, menos ainda, com o "A ideia - o Ponto de Bauhüte e o mistério do Sexto Estigma" de António de Macedo. O que deixei aqui são apenas meras divagações poéticas. 
Perguntarão: então, se no poema há "ar, terra, água, fogo" onde está a quinta essência? Eu digo: poeticamente, no meu poema assim estruturado, está no interior oculto do corpo feminino - a altíssima perfeição (o nascimento), logo evidenciado na 2.ª estrofe. E, aqui, "nascimento", seja um corpo novo, significando renovação, conhecimento, sabedoria, ou seja a poesia,  evidenciada na 7.ª estrofe - o misticismo cabalístico do n.º 7 -, tão presente em nós, poetas: "quando os lábios / na sede de se darem / se entregam / ergue-se o gesto que faz a poesia". 


________ A Alquimia do Verbo (Alvaro Giesta)
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HÚMUS (extractos)

Erguem-se
da sábia fluidez morna do húmus,
os braços das árvores harmoniosas
que escrevem no espaço do silêncio
profundo da terra
a força do rumo e do caminho

Raízes de solidez desbravam das pedras
silenciosas e humildes

e correm sobre a página em branco
onde se firmam em colina
com a força do fogo e da água

A tempestade nasce
no vazio da página e do silêncio,

a palavra rompe e ganha o próprio corpo
que esplende o seu nascer
na dança da luz e do ar

HÚMUS (prémio literário de poesia Manuel Neto dos Santos, 4.ª edição, 2018)
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HÚMUS (extractos)


(...)

entrecruzam-se os caminhos
de sombra e luz

por dentro da imobilidade das horas
este tempo deixa sempre lugar aberto
para a invenção criativa dos mortos

As horas verdes
escorrem lágrimas por dentro
do tempo
__correm o espaço do silêncio
revivem esta dor que não se quer morte.

espaço a espaço
as gotas de água vão carpindo
a dor
no subterrâneo da consciência
adormecida.

(...)

HÚMUS (prémio literário de poesia Manuel Neto dos Santos, 4.ª edição, 2018)
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INSUBMISSAS SÃO AS ÁGUAS


caía a tarde sobre o mar;
e o poeta, na muralha erguida, entre
a vida e a morte, vivia
este gesto ávido de um ao outro se darem.

o vento na sua voz
agreste
pousava-lhe no rosto
os salpicos sobrantes das ondas
que batiam na rocha___

___a rocha que submissa
se abria inteira e sedenta
às mãos insaciáveis da fúria do mar;
ambos amantes ávidos
um do outro:

o mar na fúria de beijar a rocha,
a rocha
na sua servil missão
de se sentir castigada neste gesto feliz
de amar.

e o poeta, na amurada ___erguida
qual muralha entre a vida e a morte___
debruçado nela com a tarde em despedida,
observando estes dois amantes
que sob o seu olhar se beijavam
sofregamente___

___sofregamente se beijavam vivendo
a grandiosidade do amor:

sabor único com sabor
a mar
sem lugar nem trono,
apenas este gesto masculino
de ao feminino se dar.

escorria-lhe pelo corpo molhado
uma sensação enorme de liberdade,

___liberdade vinda nas asas sedentas
da gaivota que na rocha poisava,
liberdade que partia para o longínquo
no eco feliz da voz do mar.

____________________:
insubmissas são as águas
[todos os direitos reservados nos termos da lei]
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Onde a VIDA urge, a MORTE está! (extractos)

"Onde a VIDA urge, a MORTE está!"

poema 14. 
perco-me cada dia num patamar
finito
onde a finitude
é infinita.

atravesso este chão que piso
como a árvore atravessa
o ciclo da vida,
e o sol no seu eterno queimar
se aproxima da noite fria
para se fazer de novo
dia.

poema 15. 
o pó das coisas aquieta-se,
afunda-se e morre
tão escuramente dentro do meu ser
que se arrasta como verme
para a cova escura donde vai outra vez
nascer.

poema 16. 
a dormir ou acordados debaixo das mesmas fragas
e cruzando o mesmo céu,
por teimosia vivemos
respirando afogados no fundo
das mesmas águas.

juntos, como as aves
em dias tardios de invernia,
partimos
como duas naves
cruzando infinitos céus
em busca de outro paraíso e de outro deus.

poema 17. 
demora-te,
tarda em vir sobre mim
nessa última hora.

antes de me levares contigo
demora...
percorre-me no teu eterno percorrer
demora sobre mim teu halo,
conhece por dentro este ser terreno
antes do eterno me dares a saber.

poema 18. 
tu e eu somos duas partes
da mesma parte deste ser,

eu, enquanto VIDA 
amada
e sofrida, tanta vez calada
quantas vezes neste mundo injusto
que até me assusto
quando penso em ti, MORTE
que um dia me vais lamber
de alto a baixo
como o cão que lambe o dono por amor
e o deixa depois ao abandono e à sua sorte.

poema 19. 
VIDA, que foste amada, vivida
quantas vezes maltratada te maltrataste...

até te tornaste torpe!

foste esquiva, indesejada
vilipendiaste, quantas vezes até mataste!...

...que agora dás por bem vinda
a MORTE.

___________
Alvaro Giesta in O Retorno ao Princípio (numa dialéctica Vida-Morte), Calçada das Letras, 2014
- 66 poemas
- 94 páginas
ISBN: 978-989-8352-51-4
Depósito Legal: 376447/14
Preço 10,00 €
A obra pode ser comprada pela net na WOOK (livraria online da Porto Editora), com desconto de 10% em cartão.
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A MINHA RUA É FLORESTA DE CASAS PARDACENTAS

a minha rua é floresta de casas pardacentas
ou (o céu indescritível da minha rua)
[com passagens de Álvaro de Campos]

________

à noite
naquelas noites em que o silêncio mexe comigo,
aproximo-me da minha janela
e olho o céu...

___como Álvaro de Campos, em suas divagações,
"Olho para todo o indefinido!"

a minha rua
quase sempre depois das duas ou três da manhã
é uma rua deserta, de casas plantadas
num mar de asfalto negro; é floresta de casas
pardacentas, plantadas ao alto prontas a perfurar
o todo espaço do meu céu,

a esventrar, na sua cor pardacenta, quase negra
ao lusco-fusco da manhã quando o medo foge,
o meu indescritível céu;
em muitas destas casas ainda mora o sonho
coabitando, lado a lado, com a pobreza!

até aí, o acelerar apressado dos carros
na sua rotina apressada de chegar primeiro
a todo o lugar de lugar nenhum, 
não me deixa olhar o céu
com a tranquilidade necessária ao pensamento.

só depois das três da manhã quando os ruídos
todos adormecem, é que eu olho o céu
___olho, não, observo!
observo os céus do meu espaço porque
o céu do meu espaço visto da minha rua,
tem vários céus:

___tem o céu daqueles que vivem sonhos
alucinados, numa mistura de cores azuis
matizadas a pardo e negro:
é o céu da opiácea ilusão;
___e o daqueles que se ocultam, ilusoriamente,
dos olhos justiceiros da lei:
o céu em sobressalto;
___tem ainda o céu da luxúria que se oculta
nas sombras difusas da noite: 
o céu sem profissão;
___finalmente o céu onde a boa gente (ainda)
pensa que um dia terá paz para viver:
é o céu do imenso vazio do sonho.

e eu, vou idealizando outros tantos sonhos,
olhando estes edifícios verticais que crescem
rumo ao todo indefinido dum lugar sem nome,
apontado para lugar nenhum.

tenho que me apressar nesta observação tardia
e na minha rotina-diária-nocturna da escrita,
porque o meu espaço nocturno do silêncio
tem apenas duas horas de vida.

depois das cinco da manhã, o silêncio nocturno
da minha rua já não é silêncio:

___é um estar perturbado
pelo atropelo de passos perdidos na calçada,
de gritos, de promessas por cumprir,
de navalhas abertas usadas na noite em arrelia
desafiando o dia;

___é um estar perturbado pela azáfama que corre
nesta pressa de chegar primeiro à cidade, que
engole este mar de gente, pela manhã cedinho
na sua bocarra escancarada de coisa civilizada;

à cidade onde Álvaro de Campos tinha o
privilégio de exclusão neste seu exílio natural
ao qual naturalmente fugia, porque o seu lar
não era como os lares da minha rua
encerrados em caixotes sem medida - o seu lar
era "apenas o espaço aberto das ruas de Lisboa".

a minha rua é floresta de casas pardacentas e sós
num seio enorme de casas erguidas em multidão;

a minha rua é floresta de paredes-caixotes rumo
ao alto, ao todo infinito lugar-nenhum,
emparedadas entre o céu e o vazio
dum deus ausente.

___________
Alvaro Giesta in O Pranto dos Loucos Lúcidos, Temas Originais, Coimbra, 2017
(poema a pgs 36, 37 e 38)
ISBN: 978-989-688-285-3
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ESTRATOS

(I)
pouco me pertenço já

sou como o verso é: a epiderme da alma
ou a teia que a noite tece e enleia
e nunca se acalma

(II)
visto-me da necessidade de dar
à mão a força precisa e ao cinzel o saber
para talhar na robustez da velha pedra
o sol em busca da sua religiosidade

vivo este teimoso querer
entre mim e mim e aquilo que quero ser

a nítida refrega em que respiro: a da mão
inquieta que não descansa insatisfeita

(III)
em constante perseguição o cinzel labora a pedra
para da sua face oculta ao rosto o corpo dar
___doar à luz o ser é a virtude da palavra
que na sombra o tempo oculta

tal flor antes de abrir ao sol: em botão esconde o belo
no aconchego das pétalas como a concha acolhe
no seu interior a melodia da voz do mar

[ESTRATOS] é nome de possível obra
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NA NUDEZ DA PELE

do húmus, em silêncio na profunda
terra escura, a palavra nasce:

___escrevo com o fogo e a água
no sossego frio do tempo
___escrevo a nudez da pele dos ventos
que se erguem do deserto dos afectos
___escrevo como quem sacia a sede
na invenção que dá vida às coisas mortas
___escrevo como quem liberta o mundo e sara
as feridas do corpo que sem sangue já não sangram
:::escrevo as palavras que não chegam
àqueles que dormem eternamente

___escrevo entre a sombra e a luz
palavras de espuma embriagadas de loucura.

(TODOS OS DIREITOS PROTEGIDOS POR LEI)
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