Escritas

Lista de Poemas

O CORPO (extractos)

o corpo, manhã erguida
(como se fosse o Ponto de Bauhüte) [i]


1.
nu branco e negro
jaz
em círculo enrolado sobre
a luminosidade luminosa do lençol
      ___o corpo
2.
circunscrito
na concha que se forma ao centro
      ___o nascimento
3.
nele o ponto negro interacciona-se
com o quadrado luminoso do lençol
      ___assim é o corpo como ponto de bauhüte
4.
três vértices na mancha negra
      ___o triângulo e o seu ponto interior -
no centro grita o fogo a chamar
sobre o corpo enrolado
5.
grita na pele o sexo  ___a mancha negra
em união com a geometria
do triângulo
6.
na pele a febre oculta bebe o ar
no corte vertical fechado em concha
que se há-de abrir entre as coxas do poema
 7.
quando os lábios
na sede de se darem se entregam
ergue-se o gesto que faz a poesia do corpo novo
neste sempre corpo branco e negro
em círculo enrolado na macieza luminosa do lençol
8.
no corpo a rasgar-se a concha
fechada ao centro no triângulo negro
para o mistério do nascimento
o sempre mistério do corpo feminino
e imaculado anunciando a renovação
9.
o interior oculto do triângulo
onde o mel da terra se cria e se dá
no fogo do vinho e da água
e da rosa vermelho-sangue
      ___altíssima perfeição
10.
no oculto interior o mel se derrama e o sol
como quinta essência se dá ao ósculo
      ___o ponto de fuga e união perfeita do triângulo
do corpo enrolado em círculo

in O Sereno Fluir das Coisas, 2018, In-Finita, Lisboa
(aqui adaptado)
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EM JEITO DE AUTORETRATO


Quantas vezes fui mar bravio e pedra dura
fingido herói buscando a força da floresta
aquele que no verão resiste como a giesta
no inverno se nega à força da sepultura.

Se fui terreno enlameado, porém não fui
a traiçoeira e falsa areia movediça;
e muito menos falsa ponte quebradiça
sequer aquele que em falsas preces se dilui.

Sou a força do mar bravo; e do vulcão
o fogo que aquece e que destrói. Sou e fui
a força vertical quando devo dizer NÃO

e o quebrar - sem torcer - da força da razão.
Jamais aquele que de ideias se prostitui!
__ Assim fui e serei sem qualquer inflexão.

in O SERENO FLUIR DAS COISAS, 2018, In-Finita Lisboa
antes publicado na Antologia Conexões Atlânticas II
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[carta a um caminhante sem nome e sem destino]


hoje escrevo-te esta carta numa hora de inquietude
e solidão. com uma caneta que deixa na tinta
bem vincada, a vontade expressa de acordar-te.
é tempo de firmares os pés no chão
e de voltares à casa — à casa de onde a revolta
te expulsou. a força das mágoas fustiga-te a memória.
a memória que te dilacera na intemporalidade
de um silêncio cobarde. que te rasga a carne e dilacera
os ossos. viagem atribulada que te roubou o canto
e feriu o sonho por cumprir. hão-de acordar-te
os mistérios da esperança que tens em chama no olhar.
deixa que um resíduo de força se insinue na tua vontade;
te leve nas asas do tempo, como quando um resíduo
de vento se insinua por entre os ramos da árvore e leva
com ele as folhas soltas e leves nas asas da liberdade.
_______________
AG © "manuscrito" desta gaveta de sombras (caderno 2. da teoria do sonho e do silêncio)
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colhia urtigas bravas na orla dos caminhos

colhia urtigas bravas na orla dos caminhos
quando a sombra se vergava à tarde tórrida.
os olhos resplendeciam na fonte onde o peregrino
dobrava o joelho em terra para da água límpida beber
a eternidade ― no céu colhia o “pó das estrelas”
que georg trakl plantou no seu poema. veio a noite
e as mãos inchadas do peregrino ― não do cáustico
fervor das urtigas bravas. mas da fome que tinham
de escrever as agruras no poema ― erguiam-se
sonâmbulas pedindo ao calor da terra fria e funda
o remédio para a dor da solidão.
a mão inclemente e redentora devorava as folhas
da sebenta e plantava na cor cinzenta do papel
fragmentos de silêncio _____esse animal inominável
a quem o peregrino devia o mistério das palavras
que cresciam no âmago do poema_____

Desta Gaveta de Sombras (caderno 2: Para a teoria do tempo e da descrença)
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MÁSCARAS DO POETA FRAGMENTADO


Sob a lei da máscara,
da ambiguidade de todas as tuas máscaras imprecisas,
te escrevo. Viúvo de ti mesmo, detrás delas revelas-te
sem nunca te revelares. Mesmo quando detrás delas
te queres o outro de muitos outros,
e sem elas te desejas confundir com o herói homérico.
Invoco-te:
ó dividido, ó sem nome, ó viúvo de ti mesmo,
ó irrevelado de muitos nomes inventados.
Ó navegante perdido no sonho do mar indefinido
e profundo. Mar desconhecido onde sonhaste o sonho
persistente e breve ─ no poema erguer a Pátria.
Invoco o teu nome grande e tormentoso
no instante em que sendo, deixaste de ser.
Navegaste no teu navio sem quilha e sem bússola
de mareante. Navegaste como se nunca tivesses
deixado este cais sem cais ─ o cais da tua ausência
e solidão. Do tamanho do que sonhaste te fizeste
Nome Maior.
________
Alvaro Giesta
in Dois Ciclos para um Poema
(o ciclo 1, é a 1.ª parte da obra dedicada a Fernando Pessoa; o ciclo 2 é a 2.ª parte da obra dedicada a Herberto Helder)
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[dois quartos onde a poesia do silêncio mora]


um quarto solitário — a cela de daniel faria, onde apenas
a luz entra quando cerrada é a noite. nem sol habita este
espaço em volta. o silêncio, como paz tardia, comunga
com o sonho: nele bebe a vida que caminha de braço dado
com a solidão. a morte, à espera de vez, habita esta cela por
dentro. nela, o homem no seu corpo naufragado anoitece.
um quarto onde reside a sombra — nele existe um corpo
sob a carapaça dum besouro, absoluto imaginário
do ser inquieto. inquietos mas sábios são os homens
que buscam na sombra e na pedra bruta o poder da água
e o sal da sabedoria. absurdo é, em redor deste corpo,
o absurdo grito que desce afoito até aos sãos ouvidos.
todo o corpo contra ele se põe em guarda, furtando-se
ao bater regular do tempo. assim era kafka em gregor:
— deitado de costas sobre o soalho frio e ao alto o alvo
tecto, simulacro da paz e da libertação; nele via o pão
ázimo como alimento na difícil transformação dos dias.
______________
Alvaro Giesta
(noite deserdada)
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caminhamos alienados

«Caminhamos alienados, abandonando esquecidos
restos do que fomos» [1] nesta engrenagem chamada vida.
Somos um corpo de batalha onde se enfrentam múltiplos
adversários ─ todos saídos de cada eu que somos.
Todos iguais, todos fraternos, todos frente a frente
combatendo-se. Neste puro acto de viver,
quantas vezes se bloqueia o caminho antes de se percorrer
e somos nele a pedra onde tropeçamos.
Há fugazes instantes onde se captam fugazes iluminações;
Luminosidades que estilhaçam o ininterrupto tempo
onde se leem as vagas de todas as marés.
Caminho amputado de vaga esperança nesta loucura
insubmissa e cantante que nem sempre é
a melodia da vida. Cru e gelado é este campo de batalha
onde o estranho eu que somos nos combate
nesta condição que o destino nos impôs:
─ sermos de nós mesmos o eterno desconhecido.
______________
Alvaro Giesta
(desta gaveta de sombras)
[1] Afonso Valente Batista in "A Voz das Pedras"
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variações sobre um corpo

Eras meia laranja saboreada a rigor
uma colher de mel doirado
que se estirava de prazer
- o orvalho, o arbusto no olhar, a flecha
a amêndoa amarga e doce, a noite, o amanhecer.
A minha mão na tua eram uma só.
Abrias o mar com o teu gesto
- mais que o mar, a vida -
esquecia a minha boca na tua
e nossas línguas procuravam-se desvairadas.
A minha boca sequiosa -ah! cósmica doidice,
sorvia a superfície do mar
e entre dois orgasmos inventava outra origem,
[maneira linda de fazer amor].
A teia das nossas mãos ácidas e ávidas
passeava luminosamente os nossos corpos
cansados lassos lentos húmidos
e lá fora a chuva tamborilava no telhado de zinco
húmida rugosa assustadoramente social.

do livro: variações sobre um corpo
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Consagração do corpo feminino: a Mãe

Consagração do corpo feminino: a Mãe [1]

 I
A mãe caminha firme,
contornando os precipícios abertos à beira do abismo.
Segura-se tantas vezes tão só ao bordão firme
da coragem. Se tropeça nas franjas da vida,
segura-se sem cair à tenaz força da vontade;
porque “ela é a fonte, e a fonte é precisa”.
Quando seca esta fonte, a vontade se estiola,
mas a força luminosa da mãe que reside no infinito
dos tempos, regressa e renova todo o princípio
devolvendo-lhe a força da luz.

Irmana da mãe a busca do absoluto:
– “de ti me fizeste e a ti regressarei”.
No altar da vida, como em Cristo, a mãe é a mudança
da substância do pão e do vinho, no próprio corpo.
A mãe é o odre que sustenta a sede e o prazer,
o maná, o milagre no deserto que alimenta
na dureza da longa travessia até à terra prometida.
A mãe, ungida, substancialmente pura,
é o elixir necessário à invenção da noite clara.

II
Ergue-se devagar, como uma farol na noite escura
a indicar o caminho;
é o fio exímio que traz a leitura da casa em pé.
Como mãe, é a fonte essencial; reforça a dádiva
que recebeu de Deus para manter o fogo aceso:
– o fogo da comunhão da casa.

Do excesso das suas entranhas sai,
“segundo as redacções de Deus”
o mais “extremo exercício de beleza “– o filho.
Se o filho lhe perguntar como resiste ao tempo
e às maldições que o tempo impõe, a mãe responderá:
– que a culpa é da comunhão dos seus corpos
unidos numa só língua.

III
As crianças, à sombra do regaço da mãe,
cantam harmonias como se fossem salmos,
pelos corredores desconhecidos do tempo.
Crescem com a mãe como se ela fosse o tempo,
como se ela fosse as flores que nunca morrem,
porque as flores “se deitam sobre o chão,
se afundam na terra e depois renascem.”

Para as crianças, a mãe existe sempre
que a felicidade a canta.
E as crianças que crescem “como candeias sem vento”,
como o sol crescente que traz a magia na luz,
iluminam a casa por dentro; erguem-na
com alegres chilreios mesmo quando a fome levita,
porque sabem que a mãe ilumina a casa quando
senta o amor à cabeceira da mesa. E as crianças
cantam harmonias como se fossem salmos,
pelos corredores desconhecidos do tempo.

IV
Iluminada por dentro,
mesmo na noite em que a escuridão é mais densa,
a mãe é claramente luminosa e intransformável.
Ela ensina ao homem que nem sempre os dias vivem
das noites que se menstruam de amor. Que se deve dar
– luminosa e intransformável sempre –
ao puro acto da criação.

Mas o sangue passa pelas têmporas dos homens
em movimento constantemente acelerado,
e como sonâmbulo instrumento que se manuseia
sem pensar, assim o homem, sem olhos palpitantes,
pensa na mulher – apenas a pensa
com as ondas impulsionadoras do sexo.

V
A mãe é intransformável,
porque o amor lhe dilata em permanência o peito.
E dentro dele, o órgão cresce
como a gazela em correria feliz pela savana,
para celebrar a sua entrega ao homem
no puro acto do amor; o amor excelso
que ultrapassa o tempo e se abriga no sonho:
– o da eternidade inteira
que abre memórias na líquida atmosfera,
da perene exaltação do corpo feminino.

Para as crianças a mulher existe sempre
que a felicidade a canta; para os homens sonâmbulos,
a mulher existe apenas para os servir
entre o intervalo da vida e da morte.
Porque os homens sonâmbulos “dormem loucamente
na imensidão dos dias”; e adormecidos, seguem cegos
na cegueira de não quererem ver, porque sabem que
não seca a fonte, da silenciosa pureza do ventre.
__________
[1] com passagens "entre parentesis": “Sobre a vida contemplativa feminina”, Papa Francisco; Cáh Morandi, poetisa e Herberto Helder, poeta
______
in IDEÁRIOS 2, Colectânea  de Poesia (temática: A MULHER no infinito dos tempos), 2020
com 24 autores, coordenada e editado pelo autor do porme: ALVARO GIESTA
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Grito: de ti, Mulher me vem o fogo

(do poema) “Grito: de ti, Mulher me vem o fogo” em (dois ciclos para um poema)
no intertexto com Herberto

III

Rompesse de mim o gesto da minha loucura;
despertasse eu do frio ventre das frias glicínias floridas
fecundadas pelo viço dos virgens seios;
adivinhasse eu a sede e o sangue, como os dedos
inventam a fome e o fogo quando discorrem sobre
o significado das palavras;
matasse eu a fome da boca quando confecciona o grito
que foge ao medo;
entendesse eu o latejar do peito quando as trevas
atormentam o cérebro que cega de ira a visão,
assim desceria tão rápido
como o relâmpago maligno desce com suas garras
tentaculares sobre os nus campos,
para destruir as teias todas que envenenaram a única
coisa que era nossa ― a forma do verbo amar.
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