Escritas

TRAÇOS DA MINHA POÉTICA

ALVARO GIESTA
O filósofo francês Jean-Luc Nancy, no ensaio "Resistência da Poesia", dizia que a poesia tem esta qualidade: - não aceita ser circunscrita a um género de discurso. As palavras dele são estas: "Poesia, é fazer tudo falar".
        Sou absolutamente de acordo - a poesia é transversal a todas as artes, a todos os comportamentos e gestos quotidianos, e só isso explica a sua resistência. Quando tal deixar de acontecer, quando a poesia verter a sua nobre acção apenas sobre um conceito específico, ela deixa de ser - morre. Porque, poesia é a arte mais nobre da escrita.
        O poema, como Eduardo Lourenço nos diz, representará "um lugar de luta", ele será sempre, como nos refere Maria Irene Ramalho uma "reflexão sobre as possibilidades e os limites da linguagem.
        A poesia é a ausência sem fronteiras com a presença - ela é a sede e o excesso, o silêncio e o fulgor, o êxtase e o desencanto, o amor e o ódio. A poesia não se centra, apenas, num único vértice - ela é o amor pela palavra, pelas coisas, pelo ser, pelo todo.
        O caminho da poesia neste tempo da interrogação, neste tempo desabitado, é o lugar da ausência e do desassossego, da inquietação e da procura, da descrença e da tentativa de resposta, do medo e da revolta - conceitos hoje muito esquecidos pelos poetas que só cantam um único objecto poético: o amor pelo feminino, quiçá o mais fácil de se dar à palavra poética.
        O poeta José Tolentino de Mendonça, teólogo e grande humanista, adverte-nos para esta poesia da ausência na poesia de hoje - o vazio de Deus e dos Homens.
        Muitas vezes pedem-me um poema significativo da minha poesia - coisa impossível de demonstrar, porque a minha poesia debruça-se, também, sobre estes temas do desassossego. Já muitos terão reparado - se ela é, por um lado, a força irradiante e clara da palavra, pelo outro é, também, a turbulência das águas, causada pelas irregularidades do leito, a lâmina da navalha que rasga as sombras, mas também a força da raíz que penetra no solo e se enraíza firme entre as pedras.
A minha poesia é isto: o poder da palavra. E o que é a poesia senão "o poder de se transcender, de se negar e se afirmar através da negação", como nos diz Ramos Rosa em "Poesia, Liberdade Livre".
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