Escritas

colhia urtigas bravas na orla dos caminhos

ALVARO GIESTA
colhia urtigas bravas na orla dos caminhos
quando a sombra se vergava à tarde tórrida.
os olhos resplendeciam na fonte onde o peregrino
dobrava o joelho em terra para da água límpida beber
a eternidade ― no céu colhia o “pó das estrelas”
que georg trakl plantou no seu poema. veio a noite
e as mãos inchadas do peregrino ― não do cáustico
fervor das urtigas bravas. mas da fome que tinham
de escrever as agruras no poema ― erguiam-se
sonâmbulas pedindo ao calor da terra fria e funda
o remédio para a dor da solidão.
a mão inclemente e redentora devorava as folhas
da sebenta e plantava na cor cinzenta do papel
fragmentos de silêncio _____esse animal inominável
a quem o peregrino devia o mistério das palavras
que cresciam no âmago do poema_____

Desta Gaveta de Sombras (caderno 2: Para a teoria do tempo e da descrença)
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