Escritas

Consagração do corpo feminino: a Mãe

ALVARO GIESTA
Consagração do corpo feminino: a Mãe [1]

 I
A mãe caminha firme,
contornando os precipícios abertos à beira do abismo.
Segura-se tantas vezes tão só ao bordão firme
da coragem. Se tropeça nas franjas da vida,
segura-se sem cair à tenaz força da vontade;
porque “ela é a fonte, e a fonte é precisa”.
Quando seca esta fonte, a vontade se estiola,
mas a força luminosa da mãe que reside no infinito
dos tempos, regressa e renova todo o princípio
devolvendo-lhe a força da luz.

Irmana da mãe a busca do absoluto:
– “de ti me fizeste e a ti regressarei”.
No altar da vida, como em Cristo, a mãe é a mudança
da substância do pão e do vinho, no próprio corpo.
A mãe é o odre que sustenta a sede e o prazer,
o maná, o milagre no deserto que alimenta
na dureza da longa travessia até à terra prometida.
A mãe, ungida, substancialmente pura,
é o elixir necessário à invenção da noite clara.

II
Ergue-se devagar, como uma farol na noite escura
a indicar o caminho;
é o fio exímio que traz a leitura da casa em pé.
Como mãe, é a fonte essencial; reforça a dádiva
que recebeu de Deus para manter o fogo aceso:
– o fogo da comunhão da casa.

Do excesso das suas entranhas sai,
“segundo as redacções de Deus”
o mais “extremo exercício de beleza “– o filho.
Se o filho lhe perguntar como resiste ao tempo
e às maldições que o tempo impõe, a mãe responderá:
– que a culpa é da comunhão dos seus corpos
unidos numa só língua.

III
As crianças, à sombra do regaço da mãe,
cantam harmonias como se fossem salmos,
pelos corredores desconhecidos do tempo.
Crescem com a mãe como se ela fosse o tempo,
como se ela fosse as flores que nunca morrem,
porque as flores “se deitam sobre o chão,
se afundam na terra e depois renascem.”

Para as crianças, a mãe existe sempre
que a felicidade a canta.
E as crianças que crescem “como candeias sem vento”,
como o sol crescente que traz a magia na luz,
iluminam a casa por dentro; erguem-na
com alegres chilreios mesmo quando a fome levita,
porque sabem que a mãe ilumina a casa quando
senta o amor à cabeceira da mesa. E as crianças
cantam harmonias como se fossem salmos,
pelos corredores desconhecidos do tempo.

IV
Iluminada por dentro,
mesmo na noite em que a escuridão é mais densa,
a mãe é claramente luminosa e intransformável.
Ela ensina ao homem que nem sempre os dias vivem
das noites que se menstruam de amor. Que se deve dar
– luminosa e intransformável sempre –
ao puro acto da criação.

Mas o sangue passa pelas têmporas dos homens
em movimento constantemente acelerado,
e como sonâmbulo instrumento que se manuseia
sem pensar, assim o homem, sem olhos palpitantes,
pensa na mulher – apenas a pensa
com as ondas impulsionadoras do sexo.

V
A mãe é intransformável,
porque o amor lhe dilata em permanência o peito.
E dentro dele, o órgão cresce
como a gazela em correria feliz pela savana,
para celebrar a sua entrega ao homem
no puro acto do amor; o amor excelso
que ultrapassa o tempo e se abriga no sonho:
– o da eternidade inteira
que abre memórias na líquida atmosfera,
da perene exaltação do corpo feminino.

Para as crianças a mulher existe sempre
que a felicidade a canta; para os homens sonâmbulos,
a mulher existe apenas para os servir
entre o intervalo da vida e da morte.
Porque os homens sonâmbulos “dormem loucamente
na imensidão dos dias”; e adormecidos, seguem cegos
na cegueira de não quererem ver, porque sabem que
não seca a fonte, da silenciosa pureza do ventre.
__________
[1] com passagens "entre parentesis": “Sobre a vida contemplativa feminina”, Papa Francisco; Cáh Morandi, poetisa e Herberto Helder, poeta
______
in IDEÁRIOS 2, Colectânea  de Poesia (temática: A MULHER no infinito dos tempos), 2020
com 24 autores, coordenada e editado pelo autor do porme: ALVARO GIESTA
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