Escritas

variações sobre um corpo

ALVARO GIESTA
Eras meia laranja saboreada a rigor
uma colher de mel doirado
que se estirava de prazer
- o orvalho, o arbusto no olhar, a flecha
a amêndoa amarga e doce, a noite, o amanhecer.
A minha mão na tua eram uma só.
Abrias o mar com o teu gesto
- mais que o mar, a vida -
esquecia a minha boca na tua
e nossas línguas procuravam-se desvairadas.
A minha boca sequiosa -ah! cósmica doidice,
sorvia a superfície do mar
e entre dois orgasmos inventava outra origem,
[maneira linda de fazer amor].
A teia das nossas mãos ácidas e ávidas
passeava luminosamente os nossos corpos
cansados lassos lentos húmidos
e lá fora a chuva tamborilava no telhado de zinco
húmida rugosa assustadoramente social.

do livro: variações sobre um corpo
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