Escritas

Lista de Poemas

Antes da Noite

Eu não fabrico a água.
Estas árvores existem. Estas mãos
estendem-se. Os meus passos
conjugam-se entre árvores, ruas, muita gente.

Mas eis a distância (a do deserto)
e aqui aproximo-me, é um desvio
verde, não a terra encantada,
à beira de ser eu, antecipo a vaga
que a língua move,
parede que foge e que se eleva
sobre a água, sombra e relvas.

O percurso é incerto. A cidade
é longe. E aqui a ausência
de uma árvore.
Interminável suspensão.
Mas a transparência existe.
Os músculos da boca são redondos.
No pulso bate a seiva. Sinto-me vivo.
Ó móvel vagar que eu pronuncio.
E a luz sempre, a luz e a sombra.
Entre uma e outra estendo a rede.
Eu quero beber a água deste dia
antes da noite.
👁️ 887

O Que Escrevo Ou Não Escrevo

Caminho com a pequena lâmpada vazia
flutuando entre as árvores, lentas ancas.

Escrevo: corpo do dia ao fim da rua.

A lâmpada desenha com a minha mão os traços finos.

Lâmpada ou pulso que nasceu das pedras.

Caminho com o sol, acendo-o entre árvores e telhados.

É duro e seco em cada passo o dia que desliza.

O pulso acende-se junto às paredes no calor da sombra.

O que escrevo ou o que não escrevo é a pequena lâmpada,
solta ao rés da terra, estilhaçada a cada passo.
👁️ 1 069

Atravessado Pela Cidade

O braço estendido toca o fogo da rua

A secura do ar esplende

Um punho cravado
em plena praça

O ouvido tenso de rumor
numa flor de pedra

Os automóveis passam sobre a mão
👁️ 2 812

Nova Estação

Toda a gente passou a cumprimentar-nos.
O sol é novo através da chuva.
Abrem-se as janelas com cuidado.
Uma frescura sobe ao compasso da terra.
Fomos crianças. As árvores tilintam.

É tempo de trabalhar
inquietamente.
Tempo de caminhar com presteza
pelas calçadas húmidas.
Tempo de ser vergastado pelo vento.
Tempo de lutar contra o vento.
Tempo sério.

A cidade é grande, cinzenta, verde.
Paremos.
Os troncos negros brilham.

Há um fervor no ar.
Mil centelhas pululam.
As fachadas são largas, lisas.
Respiremos.
Vamos continuar o dia.

O sol tão disseminado,
vibrante além nas pedras.
E sombra deste lado e quase azul.
Um animal lentamente passa
entre caminhantes apressados.
No tumulto dos metais entre os brilhos,
nós, sossegados, vemos.
👁️ 955

São Os Lábios, As Suas Letras

São os lábios, as suas letras
e esta mão que desliza,
esta janela e esta mesa…
O que eu desejo, o que eu escrevo
não é a claridade nem o meu olhar.
Um imperceptível movimento,
um antegosto…

Não. O meu desejo
só o saberei no sabor
das palavras com que o persigo
e o vou perdendo…

Qual o seu hálito?
De pedra e água.
É aqui mesmo que o saboreio
onde o ignoro.

Bafo de animal — rio.
Mão calma.
Instantânea força sábia.
Tentá-la!

Mão que tempera o sono.
Dorso que sobe da água.
Duas ou três palavras
para captá-lo nu e vivo.

Um lápis. Um papel deslumbrante,
tudo consinto, ó lisa força que
amacias os músculos e o olhar,
ó palavra flexível e palpitar da sombra
para a vivaz vertigem!

Não há razão para desesperar.
Não posso ser senão o que sou
no momento em que adiro e ardo!
👁️ 899

Velocidade

a manhã     a moeda crespa
o princípio duma torre     o peito rude
um boi na estrada
os pés     as mãos     um tronco     a ponte
o corpo     a terra
a mulher atravessada     a raiva
a parede     a sombra     o peito
o corpo
👁️ 1 098

Caminhar Habitar

Se não tenho a força
que é tão fácil,
se não sei, não vejo,
não posso e desejo.

Se procuro, desfaço,
me entrego, não vou,
algo precipito,
tão pouco, e já é tudo.

Entre nada e nada,
nada se passou,
ou passou uma sombra
e é o espaço. E sou.
*
Aqui está a mão,
ali está a folha.
Acendo o cigarro.
Tudo começou.

É a vida aberta?
É a ilusão
da morte deserta.
É o sim e o não.

É, não é ainda:
mas o que vai ser
e nunca será?
Aqui, não jazer.

Eis a folha branca.
Eis talvez o mar.
Contra ela, o quê?
Um barco, uma caixa?

Ou algo mais neutro.
Uma pedra escura,
um calhau polido,
uma coisa opaca.

Que a palavra tenha
dureza de quina,
firmeza de punho.
Que a palavra seja.
*
Quem sou quando escrevo?
Quem sou? Eu vou ser
algo que não sou.
Eu vou e já voo.

Mas não vou e não voo
porque sempre aqui estou
onde o onde não é
senão onde vou.
*
Onde vou? Que ilusão
de ar, de algo vão?
Mas que importa sabê-lo,
se isto é respirar!

Se isto é querer e andar,
como o vento nas pedras,
se isto é desatar:
Caminhar. Habitar.
👁️ 930

É Um Jogo?

É um jogo? Ainda não…
Serei eu? Em que objecto?
Aqui, na mão, o movimento
ou corda de água ou sol por dentro.
Ainda não, e já poema?
Desejo só de lentidão
que abre o espaço para a mão.

… Que se desata no silêncio
e que ao silêncio dá a forma
do espaço vivo entre objectos.
Forma do gosto, de língua e pulso,
uma carícia da atenção.

E as palavras — afloram pedras
por sobre a água — brilham ao sol.
Jacto de luz: tempo de espaço.
Respiração… Aqui sou eu
um movimento que abre a mão
a todo o corpo e ao horizonte.

É um jogo da atenção.
👁️ 948

Lâminas

Um fogo frio sob as pedras
tela seca
a madeira no lugar dos ossos
o cheiro do ferro
a calma violência do sangue alimentado
punho acerado
porta de ar
lâmina entre os lábios

Manhã sem caminho
pedra alta e seca
e mão pousada ouvindo
cratera de cal
meio-dia sem relógio
um dedo na ranhura soletra
a boca da terra

Chão de seda
a flor ágil que respira
move-se
um tronco de água dura
o odor de ferro
a terra cheia até aos bordos
👁️ 933

Neste Campo

Neste campo não divago e nada emerge
e um lago subsiste e a pedra investe o sol,
rápidos vestidos soçobram,
nervuras que não vês murmuram,
a terra é um sossego sem cristal,
uma veia plena de sono e de sorriso.

A terra não canta: tu não esperas
na alta mesa do meio-dia.
Um animal surge tímido
e duas mãos o envolvem de folhas e de sol.
👁️ 968

Comentários (10)

Iniciar sessão ToPostComment
ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2025-08-09

Muito belo este este homem , que esperou e tentou mudar sua vida e se transformou mais leve que sua sombra.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-27

Como já anotei; conheci o poeta António Ramos Rosa, já no outono da sua vida, indo a minha num aproximar-se do mesmo tempo natural. Tempo em que já não fumava, mas gostava da bica e do queque, sempre antes, em um amável sorriso, fazia o gesto de que alguém pagasse, aliás, era de um "espírito franciscano, em muitas dimensões". Lembro a nossa ida ao café, ele sorrindo e falando baixo, sobe o sua barba branca, imperfeitamente, aparada. Sentado, escolhia uma conversa de informação e gostava, muitas vezes de contar a história do nome "queque" para o bolo que mais gostava. Era de uma atmosfera serena simples "e vegetal" o pouco tempo da sua companhia.

Luis Rodrigues
Luis Rodrigues
2022-10-26

Obrigado pela contribuição, irei arranjar um espaço para colocar estes apontamentos.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-26

Conheci este génio da poesia já nos íamos em idade. Visitava-o sempre em companhia, talvez, como privilégio comum. No seu espaço pilhas de livros literários, de autores de algumas nacionalidades. O seu dia de poesia passava-o relendo em inspiração e pela noite, até não muito tarde, escrevia meia dúzia de poemas, quase sempre, extensos. Certas vezes achava-se em interrogação de dúvida e queria saber de nós se "ainda era poeta". Com a grandeza que a humildade concede aos génios Ramos Rosa sorria, sorria quase sempre, emitindo nele certos sons de garganta, que provavelmente lhe ficara do tempo em que ainda não tinha deixado de fumar. Agora António Ramos Rosa era um ser de leveza, - embora tocado pelos anos, mas o seu ESPÍRITO subia; subia com as palavras escritas.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-25

Continuação de parte do mesmo doc. "(...) Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo de um paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...).