Escritas

Lista de Poemas

É Aqui: Talvez Uma Cidade

É aqui: talvez uma cidade.
Mas sem ninguém.
É aqui que não estou, corro, caminho, espero,
paro de súbito. Escuto. Palpo
um tronco largo, uma respiração?
Aqui, sem corpo.

Mas insisto: é uma cidade.
Ou é ela, a cidade, ou a respiração,
ou é o tronco largo no meio dela?
É o corpo que não existe ainda.
E insisto: uma golfada de ar.
Acorda, move-te, corpo, cidade, tronco,
uma só respiração possível?

Eu não sei: é talvez uma cidade.
Alguém só que respira e não tem corpo.
E o tronco calmo onde pousar a mão
e lentamente abrir o espaço.
Mas quem respira? Quem move o braço
de um corpo que ainda não existe?

E se a cidade existe, o tronco existe,
em vão designo o que em vão existe.
Mas é no vão do corpo que respiro
o corpo que procuro nesta cidade.
E o silêncio que se cava junto ao tronco
abre-me o espaço desse corpo vão.
Aqui é que eu tento e corro, espero, caminho.
É aqui: talvez uma cidade.
👁️ 962

Horizonte Imediato

Todos os dias me apoio em qualquer coisa
ando, como, esqueço
alguma coisa aprendo
e desaprendo
alguma coisa limpa nua grave

surge
ao lado passa
eu não sou este desejo
que às vezes arde
alto sobre o chão
👁️ 992

Ver

ao Luís Pignatelli


De um olhar livre
se vive

Olhando a folha
abria-se

Da superfície ao fundo
exactamente assim

É um muro onde se vence
a inércia cega

O pó que pisas
é de um astro

A terra gira
em ti
devagar

É bom por vezes estar

Os olhos vêem dentro da tela

É uma tempestade
(mas não te abrigues)

O olho faz uma pausa
na espiral que te conduz ao silêncio

Lembras-te de um jantar antigo

É a língua da pedra

O olho faz-se víbora
e lambe o fogo

A terra é um planeta
são os teus pés que vêem

A tua mão tem olhos

Abriu-se o muro de dentro
Caminhas com teus olhos
👁️ 722

Um Rastro

Tangível mão quase, olho que não vês.
Inútil muro sobre outro muro.
Invisível o que se lê,
o visível que se não lê.
O que não sei, o que não vejo.

É desta sombra que me envolve
que eu posso ver e respirar.
No silêncio desta pausa,
onde me afundo, de onde me elevo,
persigo um rastro, um corpo novo.

Tangível quase, ouso não ver,
perder-me mais para te encontrar,
cegar-me em ti, muro consoante,
interior a ti, antes de mim.

Perdi-te… o muro corre.
O que eu ganhei foi esta sede.
👁️ 1 081

De Bruços Sobre a Margem

A mão seca o abre: é um sabor vago.
Direitas letras: trémulas no branco.
Olhar a pele da face.
Uma diferença treme no vazio.

Jogar com, amar sem,
a forma justa à beira.
A boca sóbria e a mão deserta sobre.
Seria demasiado viva uma guitarra.

O olhar aflora: o branco o negro
sem vírgulas na rede exacta
a elegância paralela dos signos
na água.

Uma ordem desliza
e se perfaz em ramos.
A árvore surpreendente em cada folha.
Os seus caprichos verdes necessários.

Lenta paixão do olhar.

Poder horizontal
sem música.
Alimento tecido no vazio,
branca igualdade.

Concavidade súbita
mas plana no obscuro.
Seta que aponta sempre
ao branco intérmino.

Talvez só para chegar à mão.
Entre o olhar e a sombra.
Estar onde a chama
abre a distância mínima, informe.

A iminência de
um sopro que forme a boca
que sopre o sopro limpo:
a água vem à mão.

Sempre deserta, errante.
A sede que ondula o pulso:
aproximar o perto
de bruços sobre a margem.
👁️ 958

Entre a Parede E o Silêncio

Entre a parede e o silêncio
há talvez uma palavra
que eu tenho de formar.
Ou não há nada e eu quero
não me perder.

Entretanto… a luz pode surgir.
O dia é claro. A parede nua.
E mal respiro. Perco o meu dia.
Tudo é instantâneo ou não,
fulgura ou não,
ou vale a pena ou não
— mas poderei expor-me ainda mais
como uma pedra nua?

Aspiro ao instante exacto
em que a palavra surja.
Quero o olhar mais limpo,
a linguagem sem véus como a parede.
E esse momento em que eu seria eu,
o movimento entre mim e o dia.
Poderei caminhar, dizer bom dia
se o tiver dito ou o souber dizer
pelas palavras mesmas que disser,
por essa única que soube ou não formar.
👁️ 978

Na Margem do Dia

Afirmas no quadrado
a sede do corpo,
caminhas
sobre as ervas levantadas.

Os homens silenciosos
afastam-se: são verdes
os ramos que se espalham,
caminhas e ascendes
na planície inclinada.

A partir da parede,
de um ouvido secreto,
da fome que se expande,
de um olhar bem recto,

de um tacão que rompe
sobre o zinco ondulado,
de um jorro de palavras
ou pombas assustadas.

Para ser mais claro,
para despir um corpo,
para me encontrar,
a surpresa exacta.

Desço até não ser
mais nada que o sono
na luz doutro corpo.
Adormeço alto.

Ó corpo necessário,
branca parede rápida,
em tua roda leve
quero respirar a luz.

Nesta obscura sede,
sem seiva os nomes rentes
propagam só o poço:
eu quero o mar presente.

Ó corpo que apreendo,
se entregue só ao ar,
se caminho sem olhos,
se encontro o meu olhar.
👁️ 903

A Coexistência No Muro

A boca inerte na parede,
um sol,
um peixe,
uma estrela,
um dedo.

A boca escura
no chão levantado,
os olhos nas mãos.

Um sol,
um peixe
uma estrela,
um dedo.
👁️ 955

Goetz

São os troncos troncos e um monte
puxado para o sol obliquamente.
E a terra é de carvão, mar de raízes
e o sol dourado de limão, quase oculto,
estende-se sobre o verde da folhagem.
Uns fogachos brancos rompem sonoros.

Não se tinha contemplado ainda a porta.
Era vermelha sob a fechadura negra.
Pela fresta o espaço era verde acinzentado.
E duas cordas ao lado, atravessadas
por um ponto de interrogação horizontal
caíam musicais.

A praia era de guitarras destruídas,
voos negros rosados sobre azul,
e sobre o branco multiplicado do céu cantava
o azul,
cantava o branco sol e azul
e os fragmentos de guitarra verdes vermelhos
negros
cantavam mar azul, praia vermelha,
voos de andorinha negros.
👁️ 1 008

O Aparelho Estranho

O aparelho estranho, delgada aranha
deitada e vertical harmoniosa
o mar e o sol no mesmo mar
e entre os arames o espaço ainda mais vivo
quase aereamente radica-se e penetra-nos
e são raios e raízes voos feridos
que nos libertam num trabalho claro.
👁️ 994

Comentários (10)

Iniciar sessão ToPostComment
ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2025-08-09

Muito belo este este homem , que esperou e tentou mudar sua vida e se transformou mais leve que sua sombra.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-27

Como já anotei; conheci o poeta António Ramos Rosa, já no outono da sua vida, indo a minha num aproximar-se do mesmo tempo natural. Tempo em que já não fumava, mas gostava da bica e do queque, sempre antes, em um amável sorriso, fazia o gesto de que alguém pagasse, aliás, era de um "espírito franciscano, em muitas dimensões". Lembro a nossa ida ao café, ele sorrindo e falando baixo, sobe o sua barba branca, imperfeitamente, aparada. Sentado, escolhia uma conversa de informação e gostava, muitas vezes de contar a história do nome "queque" para o bolo que mais gostava. Era de uma atmosfera serena simples "e vegetal" o pouco tempo da sua companhia.

Luis Rodrigues
Luis Rodrigues
2022-10-26

Obrigado pela contribuição, irei arranjar um espaço para colocar estes apontamentos.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-26

Conheci este génio da poesia já nos íamos em idade. Visitava-o sempre em companhia, talvez, como privilégio comum. No seu espaço pilhas de livros literários, de autores de algumas nacionalidades. O seu dia de poesia passava-o relendo em inspiração e pela noite, até não muito tarde, escrevia meia dúzia de poemas, quase sempre, extensos. Certas vezes achava-se em interrogação de dúvida e queria saber de nós se "ainda era poeta". Com a grandeza que a humildade concede aos génios Ramos Rosa sorria, sorria quase sempre, emitindo nele certos sons de garganta, que provavelmente lhe ficara do tempo em que ainda não tinha deixado de fumar. Agora António Ramos Rosa era um ser de leveza, - embora tocado pelos anos, mas o seu ESPÍRITO subia; subia com as palavras escritas.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-25

Continuação de parte do mesmo doc. "(...) Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo de um paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...).