Escritas

Lista de Poemas

Primavera Material

É a noite em pleno dia. Uma luva que avança, esteira invisível. A mão que não vê o sulco, a planta do pé que assenta sobre a delgada película.
É a terra vazia, a língua que se enrola, o olhar inerte. O corpo que procura a palavra. A palavra do corpo que entra no espaço ilimitado. Todas as árvores se dispersam. As pálpebras tropeçam nas ramagens de uma floresta deserta. A fome de uma claridade nua. Um objecto que centre o espaço — promontório que avança na bruma e se submerge. Terra, nova terra, novo espaço — eu vi os troncos, os arbustos em chamas, as clareiras do verde. A primavera aqui é negra, mas eu vi a primavera das cores, respirei-lhe o hálito delicado, vi uma árvore extática coberta de lâmpadas finíssimas. Aqui é negro ou é branco e eu vou formando o sopro obscuro, o tapete que enfuno com a minha respiração entrecortada. Quero retratar-te a terra abrasada, dar-te o espelho do instante luminoso, prolongá-lo nas sequências do teu amplo olhar. É toda a terra viva que eu quero despertar na tua língua e nos teus músculos. Tropeço em membros duros e ásperos, em materiais macios e falsos, em espelhos que me aprisionam. Quero abrir-te a vasta clareira onde os objectos brilham com as suas massas sólidas e as suas nítidas e fascinantes presenças, quero rasgar-te as avenidas do espaço, o grande canto do olhar oferecido ao mundo, a áspera e triunfante materialidade da primavera verdadeira.
👁️ 1 079

Dia de Verão

Contra a muralha de ar
desfaço os nós da cinza dura
a ânsia larga larga
lucidamente embarco no meu corpo
e no ar
onde mulheres vivas rompem
com o sangue do Verão
rodopiando ancas sonoras
na vertigem direitas contra
a força do ar caindo como uma onda
sobre o sexo que respira violentamente
abertas vulvas felizes na febre fresca
corpos de seda e sede
livres em cada poro que o ar e a luz penetram
desfazendo todos os nós no ar
altas frescas fortalezas
👁️ 924

Primavera

Falo por palavras
duras rasas
Uma raiva tranquila
habita-me

O meu dia existe
neste punho de pedra
nesta serra verde
nesta casa fria

Uma folha canta
É um lábio livre
Uma folha olha
tranquilamente

Olho é bom olhar
ver o tronco
as ramagens finas
a boca que espera
no murmúrio das folhas

Estou só e o sol sobe
num céu que desconheço
👁️ 951

Aderência

A manhã molhada como uma moeda.
A poalha do mar sobre a lama.
Uma lâmina viva.
A rede do sol nas narinas de sal.

Cigarro para um almoço justo.
Fome para aguentar a vida.
Pedra para a língua.

O solo é duro como um dedo crestado.
O burro cumprimenta o sol.
A cal do meio-dia penetra-me as espáduas.

A pedra tem o gosto do dia.
Eu tenho o gosto do dia calcado pelas pedras.
👁️ 1 070

A Parede Inseparável

A parede inseparável
do dia alto
respirando à altura da folhagem.
A vida não é um sonho, é um caminho
um espaço

Coroa de árvores
Radicadas
tronco do abraço
todo o campo vivo
*
Não trago lâmpada nem armas     Estou num quarto, não há frio, alongo o ouvido para o silêncio do horizonte

é um dia baço como um pão,
um braço forte e calmo avança
no espaço necessário
quero abarcar lentamente este campo
quase imóvel
em lenta rotação
a terra quente
*
A cor das ilhas nas árvores
a música dos olhos tocando na praça
silenciosamente vivas

respiram-se frescas no espaço
permanecem
música e vinho nos olhos
não as transporto
uma leve película no ar é a nossa fronteira

e eu não pouso nelas
nessa fronteira viva nos tocamos

silêncio

respiração inaudível
luminosa
*
O dia como uma montanha ainda
estática ao sol
a fome e o seu espaço         livre
a planta dos pés na terra árida
os olhos entre as pestanas das árvores

livre espaço

o ar sorve-se com todos os poros
o grande animal leve nasce nas veias
nasce tranquilamente
pelos campos
há almofadas de flores a mais
o rio que percorro
com o braço
a luz
na água feliz
*
Os ombros do muro deixam ver
os campos vermelhos
sulcos de dedos grossos
o ar e a seiva interpenetram-se
há fogo no ar
a estrada lisa e dura
o silêncio sobre a sebe
o cotovelo     fresco
do rio
*
Um tronco
no meio da estrada
não cintilante
com a crosta rígida
com a força completa
truncada
palavra no espaço à vista
*
Por uma fenda que abri
como uma janela
deixei entrar o dia
entrei no espaço

estou dentro da janela
no quarto do dia
o dia é dia agora

posso abrir a porta
posso abrir o corpo
e deixar pousar
devagar o corpo
no chão do dia
*
Há um país na terra
que a mão tranquila alcança

Há um país onde o corpo
se veste com o corpo
da terra

Com a minha mão calma
percorro o perfil de pedra e terra
comunico respirando
o ar de um corpo vivo
👁️ 918

Iminência

Corda tensa bem viva,
para que acto prestes?
Trajecto a percorrer
ou poço aberto súbito?

Deserto de sede: palma
sobre o papel: o pulso
unido e quente; o liso
fluir de um instrumento.

Aqui no dia nulo
de um olhar sem sombra,
evitar o fascínio
da luz estéril e dura.

Ao afluir da vaga
suspensão, onda a onda:
erguer de queda em queda
o hausto da móvel casa.

Nunca o fim, mas a calma
navegação instável:
roda o silêncio, aspira
a noite do sangue no dia.

Em plena face, sim:
flexível o muro opaco;
a face do outro aflora:
solto e livre e taco a taco.

Estou contra o muro, contra a página,
contra a inércia clara.
Aqui poderá morrer
todo o desejo. Jamais.

Jamais! Para que se erga
no próprio centro vazio
esse tumulto da sombra,
esse outro sono da luz.

Esse abandono que adere
ao pulsar da corda tensa:
a vigília que respira
à flor da sombra. Jamais!
👁️ 910

Diálogo Imóvel

No quarto lavado
perfeito quadrado
— que diálogo branco
entre a flor e a lâmpada

Uma vida acesa
e branca
outra silêncio de rosa apagada

Que vem dizer o sol
entre a flor e a lâmpada
que vem dizer o poema
no silêncio da casa?
*
Eis a palavra que inicia
é limiar e lábio ainda mudo
e já nos abre o espaço

de ó silencioso e claro

todo o quarto se desenha
a janela entreaberta
a luminosa mancha do sol
a mão que escreve
nada muda
senão o silêncio que se ilumina
*
Qual é o coração da casa?
Será o punho que palpita, mudo?
A flor diz o perfume do silêncio
A lâmpada confirma estática
a mão que procura traduzir
o diálogo suspenso
e intérmino

O coração da lâmpada
é uma pequena raiz metálica
A flor tem estames amarelos
e folhas brancas
*
Uma haste e um caule
— uma vertical ao centro
surge da água ao dia
suspende a inocência e a graça
em pétalas

A lâmpada debruçada
envolta na campânula
— recolhe-se
como um punho

A flor é totalmente presente
*
Quando se apaga no punho
a vibração
— quando a mão suspende o gesto
curvo
e o silêncio não fala

todo o diálogo se perdeu

— ninguém viu a flor
ou ela está ausente
*
Se o desejo se acende
quando a corrente se propaga
por fios unidos
se a vontade se dobra
ao dúctil     fascínio
da flor

— a graça se abrirá em pétalas
tudo será presença luminosa.
👁️ 969

Manchas

Uma palavra aberta
uma palavra torre
de espaço
uma veia sonora
germinação clara

espiral para o sol

Uma teia que vive
sobre a água sem medo
uma estrela na rua
tão rápida
sobre o muro incendiado

Disseminada sede
rede na terra verde
larga vela
violenta e alta
sobe
passa uma sombra azul

Passos na terra
marcas de lábios
poças de tempo minúsculo
para um insecto lento

Terra que desce às mãos
sono de poço branco
flexível lentidão
de uma árvore que caminha
👁️ 938

O Objecto

Nascer com ele,
ponte a descer,
à água e ao pó.
Vivo, imóvel.

Nascer com ele,
sede e gomo,
sabê-lo, sumo,
olhar sem nome.

Nascer com ele,
soprá-lo, pluma,
chama de ar.

Nascer com ele,
envolto e nu,
o corpo elástico
— salto e silêncio.

Renovo o sopro
de árido vento:
áspide, gume,
vácuo de amor.
👁️ 945

Contemplação

Tudo o que avança ou quer,
afirmação serena,
sobre as fachadas limpas
sem sombra, desoladas.

Igualdade sem normas,
tão larga lassitude,
um homem se eleva lentamente
frente às fachadas lisas.

Contemplada casa
entre verdes disfarces,
luz jovem, luz serena,
na estação recriada.

Um nome acorda o ar.
Instante outro me iguala
à esquecida sombra
bronzeada, desperta.

Regresso quase sem pálpebras,
primeiras folhas altas,
à luminosa vontade
sem esforço, à flor, atenta.

Abro os olhos ao vento.
O que me falta respiro,
o que não tenho sou
esquecidamente firme.
👁️ 933

Comentários (10)

Iniciar sessão ToPostComment
ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2025-08-09

Muito belo este este homem , que esperou e tentou mudar sua vida e se transformou mais leve que sua sombra.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-27

Como já anotei; conheci o poeta António Ramos Rosa, já no outono da sua vida, indo a minha num aproximar-se do mesmo tempo natural. Tempo em que já não fumava, mas gostava da bica e do queque, sempre antes, em um amável sorriso, fazia o gesto de que alguém pagasse, aliás, era de um "espírito franciscano, em muitas dimensões". Lembro a nossa ida ao café, ele sorrindo e falando baixo, sobe o sua barba branca, imperfeitamente, aparada. Sentado, escolhia uma conversa de informação e gostava, muitas vezes de contar a história do nome "queque" para o bolo que mais gostava. Era de uma atmosfera serena simples "e vegetal" o pouco tempo da sua companhia.

Luis Rodrigues
Luis Rodrigues
2022-10-26

Obrigado pela contribuição, irei arranjar um espaço para colocar estes apontamentos.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-26

Conheci este génio da poesia já nos íamos em idade. Visitava-o sempre em companhia, talvez, como privilégio comum. No seu espaço pilhas de livros literários, de autores de algumas nacionalidades. O seu dia de poesia passava-o relendo em inspiração e pela noite, até não muito tarde, escrevia meia dúzia de poemas, quase sempre, extensos. Certas vezes achava-se em interrogação de dúvida e queria saber de nós se "ainda era poeta". Com a grandeza que a humildade concede aos génios Ramos Rosa sorria, sorria quase sempre, emitindo nele certos sons de garganta, que provavelmente lhe ficara do tempo em que ainda não tinha deixado de fumar. Agora António Ramos Rosa era um ser de leveza, - embora tocado pelos anos, mas o seu ESPÍRITO subia; subia com as palavras escritas.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-25

Continuação de parte do mesmo doc. "(...) Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo de um paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...).