Portão do Jardim Deserto

António Ramos Rosa
António Ramos Rosa
1 min min de leitura 1978 A nuvem sobre a página
«Portão do Jardim Deserto, 1935»
(KLEE)

É talvez Inverno.
Talvez. Mas
as labaredas amarelas
das ervas a cada lado do portão?

Umas incendeiam o muro,
as outras mais rasas
contrastam com o roxo
de um solo de sombra e humidade.

Mas já o verde do portão
ou só talvez o espaço entre os umbrais
clama o abandono frio de um esplendor:
uma porta ou o vazio.

Talvez um espelho que nada reflecte
em obscura transparência
— mas de quê?
Uma pequena chama fulva apenas arde
nas ervas ressequidas
e algumas linhas se adivinham.

Para além do muro
a densidade da distância
em superfície, todavia, é aliança.
Mas no jardim, no chão de cinza azul
as hastes dançam
uma estação de estrela.
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