Escritas

Lista de Poemas

No Rasto do Deserto

No rasto do deserto

memória

sem memória
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O Que Eu Movo

O que eu movo

até

onde não sei

suspendo

e algo avança

à minha frente
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Apontamentos Para Um Estudo Sobre Fernando Echevarría

APONTAMENTOS PARA UM ESTUDO
SOBRE FERNANDO ECHEVARRÍA
Elogio da linha rítmica luminosa: verso.
Reaparecido o melodioso pássaro do número.
Visibilidade do fundo à superfície.
Torre lúcida de força harmoniosa.
A geometria com a música.
O conceito repentino, concêntrico (o timbre).
A estrutura — respiração.
A música que não flui sem as pedras das palavras.
A densidade clara, forte: o ritmo da energia, do intacto.
Pulsação e perfil da pedra.
rosa
O exacto esplendor — arrasa, fulgura: ————.
terramoto
O centro em cada palavra Cai arrasante.
Com coração
de grande terra sonora
A pedra-espelho: retina         rua, dentro         fora.
O infinito condicional. Sintaxe do incondicional.
Irrupção da rosa no seu rigor inicial.

A (im)pressão do compacto
a gestação
apresentando-se     irrupção
re-presentando-se     de um facto
e a fulguração-florescência
de forma virgem e completa:
o poema-rosa

A exactidão musical e plástica da dicção tensa flexibilidade do inflexível número

O viço e o vigor do vocábulo na dicção de pedra musical (branca-torre)

A pureza forte da palavra
palavra material
branca incandescência
de ritmo verde

Um novo canto e um novo en-canto:
a revolução entendida ao mesmo tempo como
um movimento de um astro
e uma insurreição da palavra no re-novo da revolução
A tradição
deixa de ser a traição de um esquecimento
e desdizendo-se     retorna repentinamente
ao que gera a sua ficção.

O tempo do poema echevarriano é o tempo que um astro gasta em percorrer a sua órbita ou a girar em torno do seu eixo.
Amadurecimento. Gravitação.
O poema é uma rosa, uma torre, um astro
O poema é simultaneamente lento e repentino
com uma profunda ressonância
cuja profundidade
se resolve totalmente na superfície material verbal do poema

espessa e luminosa
subtil e grave
concêntrica
redonda:

Amadurece. Procura
sumos e pesos por dentro,
que cumulem a estrutura
de ti. Que te espera um centro
de escura gravitação
em terra. Com coração
de grande terra sonora.
Cai arrasante. Que o fruto
destruirá o tempo à hora
do golpe em que já te escuto.
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Catarina Palavra Viva

Catarina esta palavra vibra
vive
em nós
não é uma palavra morta
nem perdida

Catarina
é a palavra viva
que ninguém fuzila

Catarina
o teu nome é mais que um nome
ou é o nome
que encontrou
um rosto
a alegria viva
além de nós
aqui
presente

Catarina
não é um bosque musical
mas uma pedra
que canta
de pé
claramente
pura
com um rosto
de água
sua palavra viva
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O Ar Passa

O ar                 passa

a t r a v é s d a s p a l a v r a s
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Até Onde Vós Estais

Ó presenças amigas, ó momento
em que alongo o braço e toco em cheio os rostos.
A minha língua abriu-se para dizer a face
do vento que percorre as vossas vidas.

Estou perante a noite mais profunda,
a delicada noite das raízes: vejo rostos
vejo os sinais e os suores das vossas vidas.

Atravesso árvores submersas, ruas obscuras,
poços de água verde, e vou convosco ter,
minhas faces lívidas, mãe, amigos, amores.

A terra que penetro é este chão de terra
com as raízes feridas, com os ferozes pulsos,
a vertente que desço é uma subida às vossas vidas.
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Não-Canto a Camões

O dia em que eu nasci moura e pereça,
Camões
Oh! que não sei que escrevo nem que falo!
Camões
Morrendo estou na vida e em morte vivo
Camões
Junto de um seco, fero e estéril monte
Camões

Quem gritaria se eu gritasse
se ———————

A impossibilidade do grito o não-grito do grito no ilegível silêncio entre as letras do livro letra a letra no livro

Vejo um muro branco
sem uma sombra

A impossibilidade do canto é a possibilidade de uma parede de palavras que aniquilam uma a uma o silêncio do canto

Um braço
até ao muro

O poema é devorado letra a letra por um silêncio que o atravessa sem tocar nas palavras nem no silêncio do poema

Na aridez do frio
nenhum insecto vibra
nem uma fibra estala

Quem pode erguer o canto
sem uma pedra
sem uma sombra
sem um grito

Não há sequer a sombra de um grito
Nenhuma sombra é um grito

A impossibilidade do canto é talvez a possibilidade de um impossível canto    Com as palavras nuas e vazias de uma pobreza exausta talvez possa ainda ouvir o rumor de um chão e um silêncio de ervas e de frases na ausência do amor e no silêncio de um corpo destroçado

Só a página em branco
e a ferida sem nome
no silêncio

O sangue? Será sangue? No insondável silêncio em que se abismam as palavras?

Só no silêncio da página poderá erguer-se a palavra do silêncio inacessível o centro ausente da linguagem o extremo em que a palavra se destrói e renasce no grito que se cala na p a l a v r a

Obscura promessa do silêncio da palavra

A palavra nada diz
ou diz tudo
na iminência de o dizer

O silêncio fala na palavra ou é a palavra que devolve o silêncio à palavra que se segue ao espaço entre as palavras?

Um corpo não um corpo à distância de um corpo

no vazio da palavra
à espera da palavra

a palavra que ilumina o silêncio que ilumina a palavra

Um rosto incendiado ou só um rastro
branco na brancura
porquê oh porquê

não vejo mais que um sulco
um ponto
uma palavra?

Surgirá um dia o rosto deste rosto deserto?
E será ele o teu rosto que nunca será teu?

Na luz do eclipse
vejo um rosto vazio
um rosto ou rastro errante
— o luminoso enigma?
as sílabas do sol despedaçado intacto
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Um Pouco Um Quase Nada Não Para o Fogo da Palavra

Um pouco um quase nada Não para o fogo da palavra
Arde só o branco e são as folhas disjuntas unindo-se
desfazendo-se Incertas Exactas No despojamento
o fogo branco
e altas crespas ervas
percorridas pela sombra
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A Mão Baixa

A mão baixa

aranha de ar

rápida     intranquila

as armas que respiram

o desejo                     e a surpresa
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Quase

Quase

a garganta forte     a respiração do tronco

obsessão branca

a casa do nome

com o vento das ervas

e o fogo sem o nome
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Comentários (10)

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ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2025-08-09

Muito belo este este homem , que esperou e tentou mudar sua vida e se transformou mais leve que sua sombra.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-27

Como já anotei; conheci o poeta António Ramos Rosa, já no outono da sua vida, indo a minha num aproximar-se do mesmo tempo natural. Tempo em que já não fumava, mas gostava da bica e do queque, sempre antes, em um amável sorriso, fazia o gesto de que alguém pagasse, aliás, era de um "espírito franciscano, em muitas dimensões". Lembro a nossa ida ao café, ele sorrindo e falando baixo, sobe o sua barba branca, imperfeitamente, aparada. Sentado, escolhia uma conversa de informação e gostava, muitas vezes de contar a história do nome "queque" para o bolo que mais gostava. Era de uma atmosfera serena simples "e vegetal" o pouco tempo da sua companhia.

Luis Rodrigues
Luis Rodrigues
2022-10-26

Obrigado pela contribuição, irei arranjar um espaço para colocar estes apontamentos.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-26

Conheci este génio da poesia já nos íamos em idade. Visitava-o sempre em companhia, talvez, como privilégio comum. No seu espaço pilhas de livros literários, de autores de algumas nacionalidades. O seu dia de poesia passava-o relendo em inspiração e pela noite, até não muito tarde, escrevia meia dúzia de poemas, quase sempre, extensos. Certas vezes achava-se em interrogação de dúvida e queria saber de nós se "ainda era poeta". Com a grandeza que a humildade concede aos génios Ramos Rosa sorria, sorria quase sempre, emitindo nele certos sons de garganta, que provavelmente lhe ficara do tempo em que ainda não tinha deixado de fumar. Agora António Ramos Rosa era um ser de leveza, - embora tocado pelos anos, mas o seu ESPÍRITO subia; subia com as palavras escritas.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-25

Continuação de parte do mesmo doc. "(...) Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo de um paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...).