Escritas

Lista de Poemas

Ao Sabor do Mundo, Na Deriva

Ao sabor do mundo, na deriva
que conduz aos confins do advir
o que inicia em suaves surpresas
até que o silêncio seja um puro acorde
de estar no sustentáculo ilimitado.
👁️ 863

Uma Delícia Intacta É o Seu Corpo

Uma delícia intacta é o seu corpo
numa irradiante atmosfera luminosa.
Gracioso repouso de irredutível sentido
e de enigma suave. Nudez de água
intensa
sobre areias verdes.
Um sopro grácil conduz o seu trabalho.
👁️ 974

O Que Eu Digo Vacila, o Que Vejo Treme.

O que eu digo vacila, o que vejo treme.
O que eu não posso dizer ou ver é o que eu digo,
é o que eu vejo, a transparência.
👁️ 1 187

Estrias de Ignorância Para Enunciar

Estrias de ignorância para enunciar
o canto material.
👁️ 876

Vazio,

Vazio,
pulsação de uma chama
desvanecida,
ressurgindo.
👁️ 518

Imobilidade

Tudo está quieto nada insiste nada clama
a água o horizonte imóvel
repousa o tempo a beleza luz e água

Muitas árvores estremecem num torvelinho suave

Cessaram os nomes ou petrificaram-se

Estamos onde estamos onde
a luz se despenha
entre gretas de pedra

Afluem coisas mínimas pelo espaço diáfano

Dizer o repouso do silêncio Atingir
a simplicidade das coisas no silêncio

Este contacto com o mundo é a aliança

Verdade e erro uma verdade apenas
que se desnuda e se abre e abre

Ar na total vacuidade livre

Em pleno dia somos noite e água

Este é o domínio da água e da folhagem
onde todo o segredo é abertura viva
👁️ 929

Mediadora Terrestre

A sua língua é um jovem animal.
O seu sono um fruto transparente.
Uma criança vive sobre os ombros.
Ó evidência de fábula terrestre!

Alegria branca. Solidão verde.
Vagar feliz. Vendaval claríssimo.
Maravilha contínua. Juventude
das pedras. Aliança intacta.
👁️ 917

A Esfera Unificada

Próxima a folhagem dos cabelos
cordial suave a cor das árvores
todas as estruturas simplificadas ébrias
o silêncio mais denso e subtil
já sem fronteiras vasto rio tranquilo através de tudo
momento de permanência imponderável
avanço sobre praias de reminiscências subtílimas
sentidos radiantes
profundo despertar em calma limpidez
abertura tão longa e verde
as palavras dizem finalmente as legendas do longínquo
por toda a parte frémitos florescências
as superfícies serenas respondem
uma outra orientação mais ligeira mais livre
libertou-me da névoa habitual
os cimos emergem
vacuidade residência na vacuidade
em tudo a entrega à palpitação esquecida
quanta coisa eliminada elidida
pelo esplendor da esfera unificada
👁️ 1 037

Mediadora do Olvido

Não soam grandes vozes no olvido.
Move-se a água não sulcada
de viagens.
Marcas de luz percorrem o silêncio.

Não sinais já. Indícios esquivos.
Simples estar aqui flutuando
no inocente instante.
O eco de uma festa.

A sede de sentido, o ressurgir
no abandono da água do silêncio.
Gestação réptil.
Afirma-se o impenetrável na silenciosa memória.
👁️ 830

Mediadora da Escrita

Precipita-se ou vacila cintilante
subterrânea selvagem
a transparente espuma atravessando.
Desenhando os obstinados traços

busca a figura do desejo e do repouso
numa superfície plana e verde.
Espessa e subtil entre o fulgor e a névoa,
interrompe, acumula, esquece,

forma a sua própria forma. Contornos
mais vibrantes do que o círculo.
A face que ela imprime é a do corpo.
👁️ 523

Comentários (10)

Iniciar sessão ToPostComment
ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2025-08-09

Muito belo este este homem , que esperou e tentou mudar sua vida e se transformou mais leve que sua sombra.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-27

Como já anotei; conheci o poeta António Ramos Rosa, já no outono da sua vida, indo a minha num aproximar-se do mesmo tempo natural. Tempo em que já não fumava, mas gostava da bica e do queque, sempre antes, em um amável sorriso, fazia o gesto de que alguém pagasse, aliás, era de um "espírito franciscano, em muitas dimensões". Lembro a nossa ida ao café, ele sorrindo e falando baixo, sobe o sua barba branca, imperfeitamente, aparada. Sentado, escolhia uma conversa de informação e gostava, muitas vezes de contar a história do nome "queque" para o bolo que mais gostava. Era de uma atmosfera serena simples "e vegetal" o pouco tempo da sua companhia.

Luis Rodrigues
Luis Rodrigues
2022-10-26

Obrigado pela contribuição, irei arranjar um espaço para colocar estes apontamentos.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-26

Conheci este génio da poesia já nos íamos em idade. Visitava-o sempre em companhia, talvez, como privilégio comum. No seu espaço pilhas de livros literários, de autores de algumas nacionalidades. O seu dia de poesia passava-o relendo em inspiração e pela noite, até não muito tarde, escrevia meia dúzia de poemas, quase sempre, extensos. Certas vezes achava-se em interrogação de dúvida e queria saber de nós se "ainda era poeta". Com a grandeza que a humildade concede aos génios Ramos Rosa sorria, sorria quase sempre, emitindo nele certos sons de garganta, que provavelmente lhe ficara do tempo em que ainda não tinha deixado de fumar. Agora António Ramos Rosa era um ser de leveza, - embora tocado pelos anos, mas o seu ESPÍRITO subia; subia com as palavras escritas.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-25

Continuação de parte do mesmo doc. "(...) Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo de um paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...).