António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

1924–2013 · viveu 88 anos PT PT

António Ramos Rosa foi um dos mais influentes poetas portugueses do século XX, conhecido pela sua poesia densa, reflexiva e profundamente ligada à condição humana e à linguagem. A sua obra é marcada por uma busca constante pela expressão autêntica, explorando temas como a existência, a morte, o tempo e a própria poesia. A sua escrita evoluiu ao longo de décadas, mantendo uma coerência temática e estilística, mas sempre aberta a novas explorações formais e lexicais. É considerado um pilar da poesia contemporânea em língua portuguesa.

n. 1924-10-17, Faro · m. 2013-09-23, Lisboa

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Não Posso Adiar o Amor Para Outro Século

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração
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Poemas

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Primavera

Falo por palavras
duras rasas
Uma raiva tranquila
habita-me

O meu dia existe
neste punho de pedra
nesta serra verde
nesta casa fria

Uma folha canta
É um lábio livre
Uma folha olha
tranquilamente

Olho é bom olhar
ver o tronco
as ramagens finas
a boca que espera
no murmúrio das folhas

Estou só e o sol sobe
num céu que desconheço
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Neste Campo

Neste campo não divago e nada emerge
e um lago subsiste e a pedra investe o sol,
rápidos vestidos soçobram,
nervuras que não vês murmuram,
a terra é um sossego sem cristal,
uma veia plena de sono e de sorriso.

A terra não canta: tu não esperas
na alta mesa do meio-dia.
Um animal surge tímido
e duas mãos o envolvem de folhas e de sol.
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Manchas

Uma palavra aberta
uma palavra torre
de espaço
uma veia sonora
germinação clara

espiral para o sol

Uma teia que vive
sobre a água sem medo
uma estrela na rua
tão rápida
sobre o muro incendiado

Disseminada sede
rede na terra verde
larga vela
violenta e alta
sobe
passa uma sombra azul

Passos na terra
marcas de lábios
poças de tempo minúsculo
para um insecto lento

Terra que desce às mãos
sono de poço branco
flexível lentidão
de uma árvore que caminha
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Ver

ao Luís Pignatelli


De um olhar livre
se vive

Olhando a folha
abria-se

Da superfície ao fundo
exactamente assim

É um muro onde se vence
a inércia cega

O pó que pisas
é de um astro

A terra gira
em ti
devagar

É bom por vezes estar

Os olhos vêem dentro da tela

É uma tempestade
(mas não te abrigues)

O olho faz uma pausa
na espiral que te conduz ao silêncio

Lembras-te de um jantar antigo

É a língua da pedra

O olho faz-se víbora
e lambe o fogo

A terra é um planeta
são os teus pés que vêem

A tua mão tem olhos

Abriu-se o muro de dentro
Caminhas com teus olhos
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Caminhando

Um passo largo
que me enche
de ar

uma certeza rápida
e fresca
sem memória

a face gasta
sob os pés

um solo de grãos onde trepida o branco
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Aderência

A manhã molhada como uma moeda.
A poalha do mar sobre a lama.
Uma lâmina viva.
A rede do sol nas narinas de sal.

Cigarro para um almoço justo.
Fome para aguentar a vida.
Pedra para a língua.

O solo é duro como um dedo crestado.
O burro cumprimenta o sol.
A cal do meio-dia penetra-me as espáduas.

A pedra tem o gosto do dia.
Eu tenho o gosto do dia calcado pelas pedras.
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Configurações

A mão limpa na pedra
levanta-se outra devagar.
Rede do dia,
de madeira e de ar.

O pó do ar.
A sombra branca na palma
como uma lâmina
de ar.

A manhã pela janela.
Outras janelas pelo ar.
A face errante e fresca.
Nervos livres na prata solta
do ar.
Casa erguida com ervas e gritos
na luz da rocha ao vento.
Trespassada e sólida.

O tempo de soltar uma vela
rente à sombra da árvore,
os prédios contra o céu claros.
Agulha, estilhas de ar.

O pente das cores e a água do caminho
Um tempo sob os passos,
caminho inextinguível,
a luz jogando leve,
para respirar sem eco
um tronco
um tempo inalterável.

A luz como uma árvore sem bordos.
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Velocidade

a manhã     a moeda crespa
o princípio duma torre     o peito rude
um boi na estrada
os pés     as mãos     um tronco     a ponte
o corpo     a terra
a mulher atravessada     a raiva
a parede     a sombra     o peito
o corpo
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Imagens

O fogo que aparece
por cima do horizonte

A vela deslizando sobre a terra

papéis que estalam brancos

um punhado de sol no ar
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No Coração da Neve

No coração da neve
e no espaço
no silêncio e na infância
no amor na solidão na liberdade
na gentileza na fraternidade
o mesmo puro delírio
de iluminar as trevas
sem diminuir o sonho
e fazê-las cantar
à luz do dia
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Obras

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Comentários (10)

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Muito belo este este homem , que esperou e tentou mudar sua vida e se transformou mais leve que sua sombra.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha

Como já anotei; conheci o poeta António Ramos Rosa, já no outono da sua vida, indo a minha num aproximar-se do mesmo tempo natural. Tempo em que já não fumava, mas gostava da bica e do queque, sempre antes, em um amável sorriso, fazia o gesto de que alguém pagasse, aliás, era de um "espírito franciscano, em muitas dimensões". Lembro a nossa ida ao café, ele sorrindo e falando baixo, sobe o sua barba branca, imperfeitamente, aparada. Sentado, escolhia uma conversa de informação e gostava, muitas vezes de contar a história do nome "queque" para o bolo que mais gostava. Era de uma atmosfera serena simples "e vegetal" o pouco tempo da sua companhia.

Luis Rodrigues

Obrigado pela contribuição, irei arranjar um espaço para colocar estes apontamentos.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha

Conheci este génio da poesia já nos íamos em idade. Visitava-o sempre em companhia, talvez, como privilégio comum. No seu espaço pilhas de livros literários, de autores de algumas nacionalidades. O seu dia de poesia passava-o relendo em inspiração e pela noite, até não muito tarde, escrevia meia dúzia de poemas, quase sempre, extensos. Certas vezes achava-se em interrogação de dúvida e queria saber de nós se "ainda era poeta". Com a grandeza que a humildade concede aos génios Ramos Rosa sorria, sorria quase sempre, emitindo nele certos sons de garganta, que provavelmente lhe ficara do tempo em que ainda não tinha deixado de fumar. Agora António Ramos Rosa era um ser de leveza, - embora tocado pelos anos, mas o seu ESPÍRITO subia; subia com as palavras escritas.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha

Continuação de parte do mesmo doc. "(...) Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo de um paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...).