Lista de Poemas
Na Esfera do Repouso
que o arqueia e estende ao horizonte.
Como regressa ao seio, como descansa
erguendo a torre branca no lugar do abismo!
Como uma só concha com os redondos membros
abre todo o espaço de velas harmoniosas.
Sossegado navio entre ramos e sombras.
Revolução lenta e clara entre colinas.
Move-se o fundo num vagar de anoitecer.
Alguém dorme na imóvel residência?
Na esfera em que repousa o pensamento é água
e feliz na luz que passa com o vento.
Nela se habita o vagar da roda rescendente.
O coração sabe que ama e vive, o desejo conhece
a cintura da terra entre as águas abertas.
Pausas, Pausas Brancas
para que a cabeça
role por uma colina de mil esparsos perfumes.
Agora o Fulgor Reúne o Movimento Dos Lábios
e os flancos fortes e os ombros sem vestígios.
As portas estão abertas sobre as veias do solo.
Pronuncia-se o sal sobre as arestas da terra.
Os joelhos atravessam as sombras e as corolas.
A espuma inunda os frutos e a ferida dos sentidos.
O Espelho do Invisível de José Terra
tenso e lúcido, com a força explosiva
da flecha que penetra no incógnito. É um tumulto,
um fogo comprimido e fulge rigoroso
em palavras nuas que cindem o obscuro.
Procuras o claro dia, a noite intacta
e o espaço em que te abras e a alegria
que não é dos deuses, procuras sob o sono
e sob a pele da noite, o obscuro fogo
ou talvez um rumor subterrâneo e lúcido.
Escreves sobre a pedra, incides na espessura
da pedra. Aderes ao objecto com um toque
subtil e grave, e um núcleo arde
para além de tudo o que detectam nossos dedos,
um sopro, uma chama, um rosto, um amoroso sono.
Eu Vi o Corpo Em Fogo
em suaves membros, em veios de alegria,
e numa trança cintilante e curva. Vi o corpo em fogo
e vi a sua música, a transparência ardente e alta,
as suas sílabas fulvas, as suas lâmpadas verdes.
Era um incêndio claro e uma vertigem lenta
e uma melodia vagarosa, aérea
e um riso da folhagem e uma coluna transparente.
Não era a cinza trémula, nem uma obscura pomba.
Era uma lisura de estar nos seus contornos leves
e um ardor feliz de lâmpada que descia
num gracioso vagar uma colina repousada.
Acendia-se o lugar que somos na matéria amorosa
e as nascentes jorravam num delírio de brancura.
As palavras renasciam nas sílabas vermelhas.
Génese
e vejo os músculos de um texto em ritmo de ressaca.
Este é o rigor primeiro de um turbilhão compacto.
Todas as relações vibram enquanto a luz respira.
Um espaço se descobre onde não havia espaço.
Largos caminhos nascem sob o pulso do vento.
Uma cabeça límpida deambula entre as artérias verdes.
O que eu amo é a sede e o rigor do esquecimento.
A vista quase se apaga numa visão tão nua.
Os gestos e os aromas ondulam entre as sombras.
Que rumores tão lisos, que silêncio vegetal!
Talvez dentro do ouvido azul de um deus.
Um corpo germina em movimentos de palma.
Outro se consome numa folhagem de fogo.
Outro dorme como uma arma branca sobre a areia.
No Cimo da Diagonal
em que se levanta a torre oblíqua
sobre um jardim
de claridades verdes
a realidade é o espaço
em que o abandono fulgura como um centro.
A Casa
as vertentes da sombra e o seu sono move-se
entre ramagens antigas e o mundo arredonda-se
tão funda em si de ser só paciência obscura
de um astro que singra na solidão azul.
Quanto pensar de suaves arvoredos,
quanto timbre de ser o quanto vemos
e, crescendo a atenção, subir ao cimo
onde não há ninguém na alta e limpa
nudez de tudo ver na madurez violeta.
Estamos perto do fogo e na vigília
em que vem acima o que não é ainda
e imóvel cresce para dentro no silêncio
como um desejo que em si mesmo se completa
na virgindade acesa de uma casa tranquila.
Há Um Amor
em que perdido está em insondável tristeza
e tão fundo e tão longe que perde os montes
e as árvores e o inefável reino
que de súbito dourasse à passagem de uma nuvem.
À volta dele ninguém, uma varanda vazia
e o halo do esquecimento, o silêncio sem lugar.
Perdeu-se o timbre das coisas e a sombra violeta.
E dilacera-se sem espaço em cada imagem.
Tudo dói, tudo passa. Já não se acende estar.
O mundo não assenta. O amor não principia.
Onde é nascer? Onde o corpo ao longe se ilumina.
Onde a própria tristeza deslumbra e se constela.
O sonho está nas pedras, o sonho está nas folhas.
O amor descobre em tudo a substância aberta.
Uma Sombra
e abriu-se. E habitei-a bebendo a água limpa.
Era uma corola de sombra e um bosque de silêncio.
Quem cantava? Era o silêncio ou era um eco?
Dormi na água da sombra, numa clara solidão.
Nada me separava da terra, era uma lâmpada oculta
e iluminada pela sombra. Estendi-me na casa
e fluí abandonado nas suas veias verdes.
Entrava na água, entrava nos lábios da sombra
e o corpo abriu-se à frescura do olvido
num campo completo. Era o cristal da noite
e uma tristeza alta e transparente. Era um arco
de espuma entre as ervas e as pedras.
Quem cantava? Era uma semente no escuro,
era talvez o ser aberto oculto na sua sombra.
Comentários (10)
Muito belo este este homem , que esperou e tentou mudar sua vida e se transformou mais leve que sua sombra.
Como já anotei; conheci o poeta António Ramos Rosa, já no outono da sua vida, indo a minha num aproximar-se do mesmo tempo natural. Tempo em que já não fumava, mas gostava da bica e do queque, sempre antes, em um amável sorriso, fazia o gesto de que alguém pagasse, aliás, era de um "espírito franciscano, em muitas dimensões". Lembro a nossa ida ao café, ele sorrindo e falando baixo, sobe o sua barba branca, imperfeitamente, aparada. Sentado, escolhia uma conversa de informação e gostava, muitas vezes de contar a história do nome "queque" para o bolo que mais gostava. Era de uma atmosfera serena simples "e vegetal" o pouco tempo da sua companhia.
Obrigado pela contribuição, irei arranjar um espaço para colocar estes apontamentos.
Conheci este génio da poesia já nos íamos em idade. Visitava-o sempre em companhia, talvez, como privilégio comum. No seu espaço pilhas de livros literários, de autores de algumas nacionalidades. O seu dia de poesia passava-o relendo em inspiração e pela noite, até não muito tarde, escrevia meia dúzia de poemas, quase sempre, extensos. Certas vezes achava-se em interrogação de dúvida e queria saber de nós se "ainda era poeta". Com a grandeza que a humildade concede aos génios Ramos Rosa sorria, sorria quase sempre, emitindo nele certos sons de garganta, que provavelmente lhe ficara do tempo em que ainda não tinha deixado de fumar. Agora António Ramos Rosa era um ser de leveza, - embora tocado pelos anos, mas o seu ESPÍRITO subia; subia com as palavras escritas.
Continuação de parte do mesmo doc. "(...) Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo de um paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...).
Viagem através duma nebulosa
1960
Voz inicial
1961
Sobre o rosto da terra
1961
Ocupação do espaço
1963
Terrear
1964
Estou vivo e escrevo sol
1966
A construção do corpo
1969
Nos seus olhos de silêncio
1970
A pedra nua
1972
Ciclo do cavalo
1975
Boca incompleta
1977
A nuvem sobre a página
1978
As marcas no deserto
1978
Círculo aberto
1979
Declives
1980
O incêndio dos aspectos
1980
O centro na distância
1981
O incerto exacto
1982
Gravitações
1983
Quando o inexorável
1983
Dinâmica subtil
1984
Ficção
1985
Mediadoras
1985
Clareiras
1986
Vinte poemas para Albano Martins
1986
Volante verde
1986
No calcanhar do vento
1987
Poema de Antonio Ramos Rosa
António Ramos Rosa_Clip.avi
PARA UM AMIGO TENHO SEMPRE UM RELÓGIO - António Ramos Rosa, Poema do Dia 22.wmv
Celebrado Hoje Equinócio do Outono 2013 com poemas de Antonio Ramos Rosa
António Ramos Rosa, Grande Prémio de Poesia
Tiago Bettencourt - Nós somos do disco Tiago na toca e os Poetas (2011)
António Ramos Rosa lendo Manuel da Fonseca, 2009
Não posso adiar o amor de António Ramos Rosa
Quem Bate a uma Porta de Folhas na Noite
A Maresia do Mundo
Na capital, vivendo intensamente a vitória dos Aliados, trabalhou no comércio, actividade que logo abandonou para se dedicar à poesia.
Nos anos cinquenta, foi um dos directores das revistas Árvore, Cassiopeia e Cadernos do Meio-Dia. Colaborou ainda com textos de crítica literária na Seara Nova e na Colóquio Letras, entre outras publicações periódicas.
Como poeta, estreou-se na colectânea O Grito Claro (1958). Estava criado o movimento da moderna poesia portuguesa. Ramos Rosa era o poeta do presente absoluto, da «liberdade livre» e sobe todos os degraus da admiração europeia. Em Portugal é comparado com os grandes escritores nacionais. Urbano Tavares Rodrigues considerou-o como o empolgante poeta da coisas primordiais, da luz, da pedra e da água.
Em meados dos anos sessenta, Ramos Rosa radicou-se em Lisboa, onde publicou Viagem Através Duma Nebulosa (1960). Um dos mais fecundos poetas portugueses da contemporaneidade, a sua produção reflecte uma evolução do subjectivismo, em relação à objectividade. Reflectem-se nela variadas tendências, desde certas formas experimentais até a um neobarroquismo. A sua escrita, caracterizada por uma grande originalidade e riqueza de imagens tácteis e visuais, testemunha muitas vezes uma fusão com a natureza, uma busca de unidade universal em que o humano participa e se integra no mundo, estabelecendo uma linha de continuidade entre si e os objectos materiais, numa afirmação de vida e sensualidade. Nos seus textos, está frequentemente presente uma reflexão sobre o próprio acto da escrita e a natureza da criação poética, a questão do dizível e do indizível.
Ramos Rosa, também tradutor, escreveu dezenas de volumes de poesia, entre os quais Voz Inicial (1960), Sobre o Rosto da Terra (1961), Terrear (1964), A Constituição do Corpo (1969), A Pedra Nua (1972), Ciclo do Cavalo (1975), Incêndio dos Aspectos (1980), Volante Verde (1986, Grande Prémio de Poesia Inasset), Acordes (1989, Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores), Clamores (1992), Dezassete Poemas (1992), Lâmpadas Com Alguns Insectos (1993), O Teu Rosto (1994), O Navio da Matéria (1994), Três (1995), As Armas Imprecisas (1992, Delta, Pela Primeira Vez (1996) e A Mesa do Vento (1997, primeiramente editado em França), Pátria Soberana e Nova Ficção (2000). Entre os seus ensaios, contam-se Poesia, Liberdade Livre (1962), A Poesia Moderna e a Interrogação do Real (1979), Incisões Oblíquas (1987), A Parede Azul (1991) e As Palavras (2001). Tem recebido numerosos prémios nacionais e estrangeiros, entre os quais o Prémio Pessoa, em 1988. É geralmente tido como um dos grandes poetas portugueses contemporâneos. Para Ramos Rosa, escrever é, sempre, a necessidade de respirar as palavras e de às palavras fornecer o frémito do ser, os pulmões do sonho, e, com elas, criar a dádiva do poeta. Em 2001, o poeta lançou Antologia Poética, com prefácio e selecção de Ana Paula Coutinho Mendes
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Cópia de parte da narrativa «a Vadim», datilografado, s/d. "... . Adormeci e sonhei que me encontrava no meio de um canavial, à beira de um regato, embalado pelos oscilantes rumores da folhagem e das águas. De súbito, uma mulher nua, opulenta mas elegante (...) graciosa, surgiu de entre a espessura do canavial e continuou a atravessá-lo até à beira do regato, em cujas águas transparentes mergulhou o corpo deslumbrante. Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo dum paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...)
António Ramos Rosa, verdadeiramente, não fez do desenho atividade diária. O dia do poeta começava cedo e por reler os poemas do dia anterior. Sempre cheio de incertezas quanto à sua qualidade. Socorria-se do telefone e falava sobre os seus escritos, sempre perguntando sobre este ou aquele conteúdo. Quando recebia, o elogio, ouvia-se um som especialíssimo. Mas somente questionava mulheres, algumas, em trabalho de teses sobre António Ramos Rosa. Embora fosse uma pessoa sensível (embora em situações públicas, por vezes impaciente e nervoso) algumas "alunas" impacientavam-se e sofria por não o atenderem. Ora os seus desenhos, sempre de figuras femininas, só no outono da vida, e isto, para oferecer a quem o visitava.
António Ramos Rosa, - até prova, - não trabalhou no comércio.
Conheci, pessoalmente, António Ramos Rosa, um homem tímido, mas que surpreendia, que ao dentista desdenhoso respondeu "estar tão nervoso como quando lhe disseram que fora proposto para Prémio Nobel ou quando o empregado do café não o deixava entrar dado o vestuário pobre. Sim, considerava-se "diferente", "anómalo", "inferior". Mais tarde descobriu que era condição humana, pela contingência de cada ser "um mundo"; uma "composição", onde cada constitui a individualidade irredutível que resulta da organização da pessoa no mundo. "A consciência da minha separação provinha da minha ferida, que era para mim uma irremediável singularidade". Até que a individualidade lhe aparece como "resolução da diversidade do mundo" ... "embora conserve a sua singularidade abissal" ... . Conquistei, assim, a minha liberdade, a minha voz ganhou timbre de neutralidade do mundo em que eu me inseria e que era a minha composição pessoal, mas também transpessoal, do mundo" (...), Cf. doc. dact. "A COMPOSIÇÃO DOS MUNDOS"; manuscrito "A Vadim muito afectuosamente", s/d.
António ramos ??. Somente reescrever um nome de altiloquência literária me confere armas para eu próprio me precaver contra a ignorância que sou face ao Mundo que me inunda