Escritas

Lista de Poemas

Algo Se Forma

Alguém escreve.
Que lago se forma?

Será a noite menos preciosa?
Ela virá mais cedo?
Quando poderás vir?
Caminhamos para onde?

Algo se forma.
Uma pomba no largo.
Um lago?
Para onde ir?

Algo: uma varanda.
Vamos.
Tudo me espera,
a frescura dum barco,
as árvores que balançam para além do muro.
*
Alguém escreve.
E espera.

Um navio entre as árvores?
A casa que se move?
Uma pedra que sobe?

Alguém entrou.
Alguém está.
Todas as portas abertas
deixam entrar o ar.
*
Uma casa deserta
o vento a atravessa

Uma casa deserta
de janelas abertas

Todas as árvores sussurram
o mar tão perto
*
Crivado de palavras
que atravessam o quarto

elas formam um corpo
que respira e se move
que resiste como o ar

Crivado de palavras
o poema respira
*
Que subsiste agora?
Quem esperavas sempre veio?
Voltaste aonde estavas?

Que segredo se forma?
Ou forma se desvenda?

As árvores que balançam
acenam de outro modo?

Voltaste aonde esperavas?
Um rastro de frescura.
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Sementes Livres

a Pedro Tamen
Eu amo o reino
da promessa

As cores que o vento
traz
os nomes e os cabelos
*
Há uma terra onde o cavalo
começa aí a aventura
talvez mais perto é o início
só de uma rosa fonte e flor
*
Há uma mulher e dormir nela
no vento largo bojo de amor
acordar um dia acordar
é uma festa entre rosa e mão
*
Pequenos tombos quentes e
toda a finura de um templo
o incenso da boca
piscina da noite
*
Criar na liberdade
das portas
o vento
que dissemina
sementes livres
iniciais
*
Sonhei a rapariga
que encontrei na rua
Sonhei a rua na rua
Entre estrelas compreendi
*
Havia um pobre
fora da casa
e eu dentro dela
*
Vivia numa cidade
e à volta à volta
à volta da minha casa
ouvia o vento o vento
*
Esta fábrica de elegância
um pequeno elefante
luz ao luar de
uma simples atenção
*
Nasce de um dedo pequeno
o insecto que liberta
a grande prisioneira
*
Voltarei a construir
danças
casas pequenas para
respirar os ventos
conhecer os animais
*
Convidemos a ser simples
pequenos nobres
os imperadores que somos
sejamos mandarins
*
A flor onde nasci
ovo abelha
é uma estrela onde bebo
o orvalho da manhã
*
Beijo-te puro calcanhar
e punho limites certos
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Sobre o Rosto da Terra

a Maria Alberta Menéres
e E.M. de Melo e Castro
Sobe da nossa condição uma vontade de brancura. Até ao interior das casas, até à evidência dos rostos. A brancura iguala a liberdade do dia ao ascendermos à planura onde se respira de pé, rosto a rosto, na facilidade do vento.
*
Entre fios luminosos, rasteiros. Perpassa o vento baixo (o solo tem essa rugosidade amorosa que o dedo declina). As narinas respiram a paz na memória longínqua dum galo, fonte de eternidade. Estar, estar assim sobre o rosto da terra.
*
As evidências comovem-se. No acompanhamento do mar, animados pelo sussurro unânime. Os poucos que somos constelamo-nos estrela do mar. Em cada bico geramos um irmão futuro que canta a nossa liberdade.
*
De um quarto quente, corremos a uma varanda, uma praia ou uma janela. O mar visita-nos mesmo no espelho. Ao crepúsculo, um sangue alaranjado aflui ao rosto das casas. Depois do mar, sulcamos a terra, a caminho da noite, viajamos na brisa, na fugitiva liberdade dos nossos sonhos.
*
Escolho a vaga breve, a súbita, que emerge na planura fatigante. A aridez da luz irisa os arabescos móveis. Estendo a rede de sombra, onde os sonhos afluem. O breve tempo de construir a casa de vento onde circula a paz viva entre clareiras de espaço e corpos libertos.
*
Semeamos no mar os grãos da sede. O seu bafo transporta-nos a uma frescura milenária. O mar devasta-nos as ruínas, os muros, as construções míopes. Regressamos a uma idade nova onde as habitações não ignoram a pureza dos joelhos.
*
Há um caminho que te conduz até ao sono, ao nível do mar.
*
Regresso a um tempo de insecto. Este ar de montanha — o meu quarto, como a vida surda dum planeta. Aos meus ouvidos, a planície propaga-se de planície em planície, num silêncio de página.
*
Fresca amargura, fruto de erva. Terra indecisa, terra de nuvem.
*
De cada lado do caminho, o acompanhamento do branco. O cotovelo do muro.
*
Muro de ataque
resto para viver

deflagração seca
*
Garganta na terra. Mãos rasas na extensão do vento, livre na pele, coágulo, raiz do tempo.
*
Sobre a pedra de ferro, reunido na espessura de osso, refrescado pelas ervas, tão flexíveis, acordo com o rosto de ar.
*
Olho nascente à beira do chão, húmido de penugens, de uma pureza de dedo, de um sono lúcido sobre o solo, numa manhã de claridade ao rés de tudo.
*
Saio da sombra à ardência do vento. Uma lâmpada se acende na planura oscilante.
*
Cabeça de lâmpada, punho reflexo. Olhos de água abertos, atravessa a cidade derrotada, a caminho do dia de água. Um homem de ervas, com uma arma de pedra, dá-me o bom dia da flor do vento.
*
Sou filho do primeiro dia que vem, da primeira hora sem memória. O pão branco da manhã da terra, ei-lo coração, língua do presente salvo na tua mão.
*
Percorro esse braço de sofrimento, esse promontório sulcado. As flores espalmadas de sangue, a incisão das unhas, os sulcos das algemas. Terra de memória abrupta, veias subterrâneas, acesas.
*
Neste deserto de lua, sem fronteiras, na unidade do vento. Uma palavra renova-se da margem de um ouvido a outro, ó memória nova.
*
O muro basta-me para conter a sede. A terra dá-me a certeza da sua vontade, o seu pão de pedras. A fronte recebe o vento. Vivo devorado de espaço, aberto à luz, como um tronco a que uma cabeça assoma, voltada ao horizonte.
*
Bebi a cor do mar e regressei às ervas, ao espelho dos muros. Deitei-me na terra, todas as sílabas eram de ar, o vento tecia a seda de uma pausa livre.
*
Dureza de estrada, paciência de um caminhar sem árvores, voluntário de passo a passo. Nenhum rosto. A luz inclina-se até se debruçar sobre os montículos de terra. Neste silêncio raso a terra não respira.
*
O ar tremula seco sobre as barreiras. Caminho em direcção às pedras. Um tronco rugoso como uma paragem no silêncio.
*
Da superfície emerge a cabeça duma lâmpada, a casca dum fruto. A fenda do muro mostra a terra que se esboroa. O vento passa como uma pá.
*
A terra fresca humedecendo a pedra, o campo abandonado onde o ar se suspende e seca contra o muro.
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Um Fruto Verde-Amarelo

Um fruto verde-amarelo,
nítido, redondo, cheio,
seca fascinação suave,
imóvel, presente, alheio
— perfeito no silêncio agora meu.
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Terra Dos Silêncios Grandes

Terra dos silêncios grandes
e numerosos quartos
livros e homens dormem
e prolongam-se os arcos
nas memórias e nos sonhos
pastam cavalos nas
nuvens rente ao horizonte
cantam mulheres na branca
tranquilidade do mundo
e nos espelhos velhos
corpos novos resplendem
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Tal Como Antigamente

Tal como antigamente
tal como agora
essa estrela esse muro
esse lento
esse morto
sorrir
nenhum acaso
nenhuma porta
impossível sair
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Monólogo

Perdi a infância e as grandes horas
e procuro numa árvore não sei que intimidade
como se um sol para as mãos nascesse deste olhar
mas a inocência é rápida como o brilho
silenciosa
e existe em si mesma.

Uma forma, sim, sempre silenciosa
dia a dia nascida da surpresa e constância
dia a dia nascida da inocência, mas
como fugir a esta inútil presença?
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Na Grande Confusão

Na grande confusão
deste medo
deste não querer saber
na falta de coragem
ou na coragem de
me perder me afundar
perto de ti tão longe
tão nu
tão evidente
tão pobre como tu
oh diz-me quem sou eu
quem és tu?
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Telegrama Sem Classificação Especial

Estamos nus e gramamos.

Na grama secular um passarinho verde
canta para um poema lírico, para um poeta lírico,
que se nasceu
é certo que não cantou.

As paisagens continuam a existir.
As paisagens são suaves.
Continuam também a existir
outras coisas que dão matéria para poemas.
A vida continua.
Felizmente que há ódios, comichões, vaidades.
A estupidez, esta crassa crença intratável, esta confiança indestrutível em si mesmo,
é o que felizmente dá uma densidade, uma plenitude a isto.
Num mundo descoroçoante de puras imagens
é bom este banho de resistências, pressões, vontades, atritos,
é bom navegar.
Porque este presente é logo saudoso.

Na grama secular o passarinho canta.
Evidentemente que o poeta suicidou-se.

A vida continua.
Certas coisas que pareciam mortas
estão agora vivas ou, pelo menos, mexem-se.
Ausentes, dominam-nos.
Não é para nós que utilizam palavras,
que insistem,
não é para nós!
Estes grandes ornamentos, estes sábios discursos
fluem em visões, em ondas, como se não no presente.
Ter-se-á o presente extinguido?
A vida continua tão improvavelmente.

Na grama um passarinho canta.
Canta por cantar, ou não, canta.
Eu poderia, com rigor, agora
cantar:

Os anjos exactos
que empunham tesouras
de encontro aos factos
— ó minhas senhoras!

Ou rigorosamente ainda,
com veemente exactidão,
inutilizar o poema,
todos os poemas,
porque

Estamos nus e gramamos.
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No Coração da Neve

No coração da neve
e no espaço
no silêncio e na infância
no amor na solidão na liberdade
na gentileza na fraternidade
o mesmo puro delírio
de iluminar as trevas
sem diminuir o sonho
e fazê-las cantar
à luz do dia
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Comentários (10)

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ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2025-08-09

Muito belo este este homem , que esperou e tentou mudar sua vida e se transformou mais leve que sua sombra.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-27

Como já anotei; conheci o poeta António Ramos Rosa, já no outono da sua vida, indo a minha num aproximar-se do mesmo tempo natural. Tempo em que já não fumava, mas gostava da bica e do queque, sempre antes, em um amável sorriso, fazia o gesto de que alguém pagasse, aliás, era de um "espírito franciscano, em muitas dimensões". Lembro a nossa ida ao café, ele sorrindo e falando baixo, sobe o sua barba branca, imperfeitamente, aparada. Sentado, escolhia uma conversa de informação e gostava, muitas vezes de contar a história do nome "queque" para o bolo que mais gostava. Era de uma atmosfera serena simples "e vegetal" o pouco tempo da sua companhia.

Luis Rodrigues
Luis Rodrigues
2022-10-26

Obrigado pela contribuição, irei arranjar um espaço para colocar estes apontamentos.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-26

Conheci este génio da poesia já nos íamos em idade. Visitava-o sempre em companhia, talvez, como privilégio comum. No seu espaço pilhas de livros literários, de autores de algumas nacionalidades. O seu dia de poesia passava-o relendo em inspiração e pela noite, até não muito tarde, escrevia meia dúzia de poemas, quase sempre, extensos. Certas vezes achava-se em interrogação de dúvida e queria saber de nós se "ainda era poeta". Com a grandeza que a humildade concede aos génios Ramos Rosa sorria, sorria quase sempre, emitindo nele certos sons de garganta, que provavelmente lhe ficara do tempo em que ainda não tinha deixado de fumar. Agora António Ramos Rosa era um ser de leveza, - embora tocado pelos anos, mas o seu ESPÍRITO subia; subia com as palavras escritas.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-25

Continuação de parte do mesmo doc. "(...) Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo de um paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...).