Lista de Poemas
Vertentes
e a música do sangue sobre as pedras corre
a primeira treva surge
o primeiro não a primeira quebra
*
A terra em teus braços é grande
o teu centro desenvolve-se como um ouvido
a noite cresce uma estrela vive
uma respiração na sombra o calor das árvores
*
Há um olhar que entra pelas paredes da terra
sem lâmpadas cresce esta luz de sombra
começo a entender o silêncio sem tempo
a torre extática que se alarga
*
A plenitude animal é o interior de uma boca
um grande orvalho puro como um olhar
*
Deslizo no teu dorso sou a mão do teu seio
sou o teu lábio e a coxa da tua coxa
sou nos teus dedos toda a redondez do meu corpo
sou a sombra que conhece a luz que a submerge
*
A luz que sobe entre
as gargantas agrestes
deste cair na treva
abre as vertentes onde
a água cai sem tempo
Poema de Duas Faces
havia uma esperança
agora no próprio coração da ilusão
onde a água limpa as pedras das ruínas
entre destroços límpidos
deito-me sobre a minha sombra e durmo
e durmo
Quando havia antes um amanhecer
à beira do abismo
agora no próprio coração do coração
durmo estrangulando um monstro inerme
um palhaço de palha seco e pálido
quando havia antes um caminho
Não houve nunca amigos nem pureza
nem carinhos de mãe salvam a noite
É preciso ir mais longe na incerteza
É preciso no silêncio não escutar
A manhã que eu procuro não foi sonhada
Uma árvore me ignora na raiz
Perfeitamente desesperado é o meu sonho
Os pássaros insultam-me na cama
Só com doidos com doidos amaria
perfeitamente presente na frescura
do mar
Uma casa para eu ter a humildade de ser espaço
a líquida frescura duma jarra
um passo leve e certo em cada sombra
um ninho em cada ouvido
de doces abelhas cegas
Uma casa uma caixa de música e sossego
Um violão adormecido na doçura
Um mar longínquo à volta atrás do campo
Uma inundação de verdura e espessa paz
Uma repetida e vasta constelação de grilos
e os galos alacres do silêncio
Um mar de espuma e alegria obscura
Um mar de espuma e alegria clara
entre o verde e a brisa
Na brancura dos quartos
a inocência poderá sonhar desnuda
os insectos poderão entrar
juntamente com as plantas e as aves
Uma longa asa passará
o mundo e o silêncio a mesma ave
e o mar
o mudo leão longínquo e fresco
faiscará entre o verde as lâminas solares
No Coração da Neve
e no espaço
no silêncio e na infância
no amor na solidão na liberdade
na gentileza na fraternidade
o mesmo puro delírio
de iluminar as trevas
sem diminuir o sonho
e fazê-las cantar
à luz do dia
Na Grande Confusão
deste medo
deste não querer saber
na falta de coragem
ou na coragem de
me perder me afundar
perto de ti tão longe
tão nu
tão evidente
tão pobre como tu
oh diz-me quem sou eu
quem és tu?
Foi No Horror Que Acordei
e o meu rosto de lava
perguntava porquê.
Consumido no ventre,
cheio de sangue esquecido,
perguntava porquê.
Ninguém ouvia o grito
nesta cara de terra.
Um bicho silencioso,
o meu nome e uma pedra.
E eu queria a harmonia.
O sol no centro. E a lágrima
era dura e morria.
E a terra me levava
para dentro da terra.
No silêncio da terra
uma árvore respirava.
Eu quero regressar
à essencial frescura.
Eu quero renascer
na morte completa.
Eis-me um homem
de horror, silêncio, sol.
Eis um homem de cal.
Ninguém me queira ver
na minha câmara clara.
(Aí sou negro e puro.)
Com as portas abertas
eu sou o mar que entra.
Mas sem esquecer o sangue,
eu escuto e sei e espero.
Seis Poemas da Terra
pequeno na memória
de duas lágrimas.
Bebo pelos olhos as linhas
desse caminho de vinho.
*
Terra nos joelhos
quente
até às axilas.
Terra como um mar
e montes
palmas de simplicidade bêbeda
terra nas mãos seios
de alegria.
Em pé estou de borco sobre a terra.
*
Abro os olhos
e a terra é verde.
Enlaço troncos
e o mundo é meu.
Beijo folhas
e o amor é meu.
*
Vinho contido em si mesmo
por ti bebo o vinho do teu corpo.
Bebo a terra pelos ombros.
*
É uma claridade de página
matinal.
*
Estou deitado em ti como na terra.
Respiro a suavidade dum monte.
Tertúlia
casa onde estar
Ai amigo senta-te
fala-me de ti
Não encontro amiga
não encontro amigo
Se não tenho casa
como ser amigo?
Os meus estão longe
e não têm casa
A natureza é longe
A uma mesa de café
somos quatro quatro quê?
Aqui Nesta Cave Dos Soluços
como um ventre vazio
deixo entrar o sol
e um mínimo insecto
me distrai
O Único Sabor
Sabor, sabor oculto,
submerso,
sabor adormecido, ó rosas, ó antes, primaveras,
sabor só abruptamente surto
na queda do sono, no fulgor dum relâmpago,
surto, submerso,
ó sabor antes da consciência, antes de tudo,
ó sabor só nascido sobre a paz última de tudo para além de tudo,
sabor da terra ainda antes dos olhos,
sabor a nascer, sabor-desejo, antes do beijo, sabor de beijo,
sabor mais lento, mais fundo, mais de dentro,
sabor a marulhar, cálido, denso, como a cor,
sabor de estar, sabor de ser,
ó tranquila degustação sem mandíbulas,
sabor de dentro como de um cheiro imemorial presente,
ó colinas esparsas, ó veios de águas sussurrantes,
somente ouvidos, nem sequer ouvidos, mas presentes, esparsos,
ó presença da terra nas pálpebras, num sabor acre da garganta,
ó estrelas, ó verdadeiras estrelas da infância,
ó sabor do escuro, do ventre, da espessura da noite,
ó profundo sono de raízes,
ó água bebida ao rés da terra, ó sono da vida,
ó som de bichos, de tudo e nada, num só obscuro silêncio,
ó terra junto a mim, ó grande e estranha terra,
ó perdida proximidade, ó perdida longinquidade,
ó enorme som de búzio do mar,
ó tranquilos jardins, ó sabor de cansaço,
ó sabor antes de mim,
ó quando eu não sabia e tudo em mim sabia,
ó noite, ó espessura, ó outra vez a noite,
outra vez esse sabor submerso, esse sabor do fundo,
esse sabor bem longe, esse sabor total,
esse sabor onde eu sinto a terra num só gosto,
esse sabor original, fonte de todo o sabor,
surto submerso,
ó único sabor.
Por Uma Aridez Fecunda
é essa grave simplicidade de estar
com o Sol.
É o tempo em que sentados na pedra
ouvíamos a erva. E era Verão.
*
De nada, nem de música,
nem de qualquer glória humilde...
Apenas esta secura de meio-dia,
esta sem-razão tão grande como a vela
no mar.
Oh, ninguém viu o ouvido da árvore,
mas ouvi-o eu.
*
Mais uma vez longamente
qualquer coisa que seja a negação de tudo isto!
Na fenda da muralha
o riso da árvore,
um outro tempo,
um desvio no destino,
a claridade a pique.
*
Não de rosas
nem de breves titilações.
Mas somente a quebra
branca
a aurora de pedra
o frio dos lábios no sonho
a terra junto
um abraço ao poço.
Comentários (10)
Muito belo este este homem , que esperou e tentou mudar sua vida e se transformou mais leve que sua sombra.
Como já anotei; conheci o poeta António Ramos Rosa, já no outono da sua vida, indo a minha num aproximar-se do mesmo tempo natural. Tempo em que já não fumava, mas gostava da bica e do queque, sempre antes, em um amável sorriso, fazia o gesto de que alguém pagasse, aliás, era de um "espírito franciscano, em muitas dimensões". Lembro a nossa ida ao café, ele sorrindo e falando baixo, sobe o sua barba branca, imperfeitamente, aparada. Sentado, escolhia uma conversa de informação e gostava, muitas vezes de contar a história do nome "queque" para o bolo que mais gostava. Era de uma atmosfera serena simples "e vegetal" o pouco tempo da sua companhia.
Obrigado pela contribuição, irei arranjar um espaço para colocar estes apontamentos.
Conheci este génio da poesia já nos íamos em idade. Visitava-o sempre em companhia, talvez, como privilégio comum. No seu espaço pilhas de livros literários, de autores de algumas nacionalidades. O seu dia de poesia passava-o relendo em inspiração e pela noite, até não muito tarde, escrevia meia dúzia de poemas, quase sempre, extensos. Certas vezes achava-se em interrogação de dúvida e queria saber de nós se "ainda era poeta". Com a grandeza que a humildade concede aos génios Ramos Rosa sorria, sorria quase sempre, emitindo nele certos sons de garganta, que provavelmente lhe ficara do tempo em que ainda não tinha deixado de fumar. Agora António Ramos Rosa era um ser de leveza, - embora tocado pelos anos, mas o seu ESPÍRITO subia; subia com as palavras escritas.
Continuação de parte do mesmo doc. "(...) Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo de um paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...).
Viagem através duma nebulosa
1960
Voz inicial
1961
Sobre o rosto da terra
1961
Ocupação do espaço
1963
Terrear
1964
Estou vivo e escrevo sol
1966
A construção do corpo
1969
Nos seus olhos de silêncio
1970
A pedra nua
1972
Ciclo do cavalo
1975
Boca incompleta
1977
A nuvem sobre a página
1978
As marcas no deserto
1978
Círculo aberto
1979
Declives
1980
O incêndio dos aspectos
1980
O centro na distância
1981
O incerto exacto
1982
Gravitações
1983
Quando o inexorável
1983
Dinâmica subtil
1984
Ficção
1985
Mediadoras
1985
Clareiras
1986
Vinte poemas para Albano Martins
1986
Volante verde
1986
No calcanhar do vento
1987
Poema de Antonio Ramos Rosa
António Ramos Rosa_Clip.avi
PARA UM AMIGO TENHO SEMPRE UM RELÓGIO - António Ramos Rosa, Poema do Dia 22.wmv
Celebrado Hoje Equinócio do Outono 2013 com poemas de Antonio Ramos Rosa
António Ramos Rosa, Grande Prémio de Poesia
Tiago Bettencourt - Nós somos do disco Tiago na toca e os Poetas (2011)
António Ramos Rosa lendo Manuel da Fonseca, 2009
Não posso adiar o amor de António Ramos Rosa
Quem Bate a uma Porta de Folhas na Noite
A Maresia do Mundo
Na capital, vivendo intensamente a vitória dos Aliados, trabalhou no comércio, actividade que logo abandonou para se dedicar à poesia.
Nos anos cinquenta, foi um dos directores das revistas Árvore, Cassiopeia e Cadernos do Meio-Dia. Colaborou ainda com textos de crítica literária na Seara Nova e na Colóquio Letras, entre outras publicações periódicas.
Como poeta, estreou-se na colectânea O Grito Claro (1958). Estava criado o movimento da moderna poesia portuguesa. Ramos Rosa era o poeta do presente absoluto, da «liberdade livre» e sobe todos os degraus da admiração europeia. Em Portugal é comparado com os grandes escritores nacionais. Urbano Tavares Rodrigues considerou-o como o empolgante poeta da coisas primordiais, da luz, da pedra e da água.
Em meados dos anos sessenta, Ramos Rosa radicou-se em Lisboa, onde publicou Viagem Através Duma Nebulosa (1960). Um dos mais fecundos poetas portugueses da contemporaneidade, a sua produção reflecte uma evolução do subjectivismo, em relação à objectividade. Reflectem-se nela variadas tendências, desde certas formas experimentais até a um neobarroquismo. A sua escrita, caracterizada por uma grande originalidade e riqueza de imagens tácteis e visuais, testemunha muitas vezes uma fusão com a natureza, uma busca de unidade universal em que o humano participa e se integra no mundo, estabelecendo uma linha de continuidade entre si e os objectos materiais, numa afirmação de vida e sensualidade. Nos seus textos, está frequentemente presente uma reflexão sobre o próprio acto da escrita e a natureza da criação poética, a questão do dizível e do indizível.
Ramos Rosa, também tradutor, escreveu dezenas de volumes de poesia, entre os quais Voz Inicial (1960), Sobre o Rosto da Terra (1961), Terrear (1964), A Constituição do Corpo (1969), A Pedra Nua (1972), Ciclo do Cavalo (1975), Incêndio dos Aspectos (1980), Volante Verde (1986, Grande Prémio de Poesia Inasset), Acordes (1989, Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores), Clamores (1992), Dezassete Poemas (1992), Lâmpadas Com Alguns Insectos (1993), O Teu Rosto (1994), O Navio da Matéria (1994), Três (1995), As Armas Imprecisas (1992, Delta, Pela Primeira Vez (1996) e A Mesa do Vento (1997, primeiramente editado em França), Pátria Soberana e Nova Ficção (2000). Entre os seus ensaios, contam-se Poesia, Liberdade Livre (1962), A Poesia Moderna e a Interrogação do Real (1979), Incisões Oblíquas (1987), A Parede Azul (1991) e As Palavras (2001). Tem recebido numerosos prémios nacionais e estrangeiros, entre os quais o Prémio Pessoa, em 1988. É geralmente tido como um dos grandes poetas portugueses contemporâneos. Para Ramos Rosa, escrever é, sempre, a necessidade de respirar as palavras e de às palavras fornecer o frémito do ser, os pulmões do sonho, e, com elas, criar a dádiva do poeta. Em 2001, o poeta lançou Antologia Poética, com prefácio e selecção de Ana Paula Coutinho Mendes
Português
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Español
Cópia de parte da narrativa «a Vadim», datilografado, s/d. "... . Adormeci e sonhei que me encontrava no meio de um canavial, à beira de um regato, embalado pelos oscilantes rumores da folhagem e das águas. De súbito, uma mulher nua, opulenta mas elegante (...) graciosa, surgiu de entre a espessura do canavial e continuou a atravessá-lo até à beira do regato, em cujas águas transparentes mergulhou o corpo deslumbrante. Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo dum paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...)
António Ramos Rosa, verdadeiramente, não fez do desenho atividade diária. O dia do poeta começava cedo e por reler os poemas do dia anterior. Sempre cheio de incertezas quanto à sua qualidade. Socorria-se do telefone e falava sobre os seus escritos, sempre perguntando sobre este ou aquele conteúdo. Quando recebia, o elogio, ouvia-se um som especialíssimo. Mas somente questionava mulheres, algumas, em trabalho de teses sobre António Ramos Rosa. Embora fosse uma pessoa sensível (embora em situações públicas, por vezes impaciente e nervoso) algumas "alunas" impacientavam-se e sofria por não o atenderem. Ora os seus desenhos, sempre de figuras femininas, só no outono da vida, e isto, para oferecer a quem o visitava.
António Ramos Rosa, - até prova, - não trabalhou no comércio.
Conheci, pessoalmente, António Ramos Rosa, um homem tímido, mas que surpreendia, que ao dentista desdenhoso respondeu "estar tão nervoso como quando lhe disseram que fora proposto para Prémio Nobel ou quando o empregado do café não o deixava entrar dado o vestuário pobre. Sim, considerava-se "diferente", "anómalo", "inferior". Mais tarde descobriu que era condição humana, pela contingência de cada ser "um mundo"; uma "composição", onde cada constitui a individualidade irredutível que resulta da organização da pessoa no mundo. "A consciência da minha separação provinha da minha ferida, que era para mim uma irremediável singularidade". Até que a individualidade lhe aparece como "resolução da diversidade do mundo" ... "embora conserve a sua singularidade abissal" ... . Conquistei, assim, a minha liberdade, a minha voz ganhou timbre de neutralidade do mundo em que eu me inseria e que era a minha composição pessoal, mas também transpessoal, do mundo" (...), Cf. doc. dact. "A COMPOSIÇÃO DOS MUNDOS"; manuscrito "A Vadim muito afectuosamente", s/d.
António ramos ??. Somente reescrever um nome de altiloquência literária me confere armas para eu próprio me precaver contra a ignorância que sou face ao Mundo que me inunda