Não Dissemos As Palavras Mais Simples
Não dissemos as palavras mais simples
a caligrafia das águas sobre a pedra uma pedra vacila verde
as árvores despertam dormem apertadas na concavidade do rumor
não dissemos ainda as pálpebras longínquas do horizonte
o trémulo deslumbramento da água jorrando lisa da terra
não dissemos a progressão das formigas em torno da árvore
de claras malhas como um leopardo
não dissemos as vagas sombras imóveis as folhas verdes
as altas e negras flores nas varandas suspensas
não dissemos sequer o nascimento da terra e do cavalo
as manhãs a meia-noite o turbilhão
do ventre o arranque para a primeira explosão no mar e o muro
onde o tempo se condensa como um navio suspenso sobre o mar vertical
A Metamorfose Branca
Por toda a parte
um corpo
o mesmo corpo
Para mutilar
Para eliminar
Por toda a parte
a anarquia do canto
dos nervos
da escrita
do único corpo?
O universo escreve-se no corpo
Tudo se escreve no corpo
A mulher o animal a noite intacta
a morte
a ferida permanente
(A mão fora do abismo tenta escrever ainda mas quê? Com que instrumento subtil paciente impaciente? Com que matéria? Em que rectângulo do ar recortado no vazio?)
Tudo desaparece
A nitidez da letra
apaga-se
no papel
Uma palavra subsiste uma marca
no corpo
no texto
A marca do corpo desfaz
o texto
que se apaga
e arde
de letra em letra
de ferida em ferida
Cruel nudez do texto e do corpo
do corpo perdido
fixo
na letra do texto
que o devora
que o desnuda
anula
O texto apaga-se
e acende-se
no limite
metamorfose da morte do corpo
vida do corpo impossível
em cada letra flui o sangue novo
da palavra do corpo
Uma ferida só uma longa ferida
de terra
vocábulo de sangue e pedra
………………………………………………
Este é o espaço mortal do corpo
Este é o corpo nascente e branco do vocábulo
Esta é a respiração da página
Constelações navios promessas
Sangue da metamorfose da palavra
No limiar do deserto as palavras de fogo branco são a cinza de um fogo perdido de um fogo a acender com a respiração do deserto ou do mar.
As palavras encrespam-se acendem-se ao vento que as despe e as despoja avivando com o ar vivo do sal e da areia a rosa de um dizer que nasce da incessante solidão da sua sede.
Os vocábulos são como um rumor de cavalos
adormecidos
e a sua brancura é vida
através da morte e do branco
Cada caminho de palavras na página
conduz-nos
a uma pedra
Esta pedra é a do sepulcro ou o sinal de um perpétuo adiamento
uma espera indefinida sem esperança
sinal de suspensão
que se anula
para que o caminho prossiga
de novo
as palavras vivem solitárias
o sal o vento e o sol despertam
uma boca ressequida e verde uma boca lenta longínqua de ócio fresco
Vivem as palavras
do suicídio da brancura
renascem brancas
espuma breve
de que pureza mortal
para que sede sempre insatisfeita
de um início de água
de uma linguagem de água
(A morte das palavras na página será a metamorfose que não foge à morte a vida a outra vida que seria o início sempre possível e impossível do nosso nascimento.)
Mas que palavras dirão a morte impossível inominável? Que morte é a morte da linguagem e do corpo? Simulacro aparência espectáculo fumo de palavras sem sangue e sem corpo
infinita e ridícula hemorragia em torno de um ponto
morto que nada reflecte nem o eco sequer de qualquer vida. Por momentos e num espaço que logo se olvida a palavra morre com a morte sem a morte irrecuperável soberana
o hiato aqui é inenarrável
A linguagem renascerá além na margem fria da manhã
A linguagem será o corpo o corpo nu(lo)
O corpo de metamorfose é o corpo que já não pertence à vida nem à morte tornou-se na linguagem obscura e branca de cada vocábulo fechado e aberto como uma ferida. Quem fala é a língua desta morte-vida aqui e para além sempre no limiar do inacessível. Milhares de pálpebras se fecham sob cada palavra que se levanta e o silêncio desses olhos perturba a palavra, torna-a ilegível na sua legibilidade
O vocábulo não é plano e liso Nos seus subterrâneos milhares de vozes se calaram para que o vocábulo emergisse como a palavra da metamorfose no limiar do nada
Na sua impossibilidade esta é a única voz que atravessa o inexorável a voz paciente e sôfrega ardente e impaciente a voz que espera sem esperança
Entre o Sal E o Sol
Esta página é talvez o deserto ou talvez uma praia. Percorre-a, sílaba por sílaba, até que. Uma sílaba, uma parede coberta de folhagem. Folhagem ou água ou vento. Uma boca devorada pela língua ou pelo sol. Uma praia na pele entre o sal e o sol. Uma frase, uma só frase despojada, nua, selvagem. As gaivotas sublinham uma boca enublada e límpida. A mão levanta-se até tocar uma raiz, uma veia, uma palavra. O texto é um clamor de silêncios e sombras e luzes. O corpo é uma sombra luminosa, uma pedra fresquíssima. Toca-lhe. É um animal entre o vento e o sol. É uma sombra ondulante e leve. Que respira entre a areia e a água.
O Deus Dos Teus Dedos
Repara, o teu deus não é mais que o deus dos teus dedos, o silêncio da tua mão nua.
A impossível brancura.
Tu caminhas e segredas.
O que desejas, para passar a noite, é encontrar um pobre caminho de cabras, uma vereda de pedras solitária.
Tu persistes e insistes, como se a distância se abrisse luminosa e ao mesmo tempo fosse a secreta sombra dos vocábulos.
O que te separa das mãos e dos ombros, o que mais te dói sem o saberes, é a separação da ferida que a palavra abre e renova em cada sílaba.
O murmúrio do branco combina-se com o murmúrio da sombra e assim se forma uma penumbra das mãos, esse silencioso vagar do silêncio do sol.
Mas há uma urgência do grito que é urgência da vida. Tudo se constrói em torno da ferida.
A tua mão corre à procura da mão que se forma, a mão viva que é mais do que uma chave e do que uma porta.
Tudo o que escreves nasce do campo móvel e branco da página. É essa a tua morte, o secreto vazio que desnuda, que deixa a ferida aberta em cada sílaba.
Se uma boca ou uma mão se desenha neste rectângulo de água, és tu e eu que se tocam, se interpenetram e mutuamente se dessedentam.
Todo o encontro é a dicção de um silêncio.
Como Se Uma Só Palavra
Como se uma só palavra tumultuasse no deserto, uma palavra em branco, uma palavra devorada pelo branco.
Não há outro lugar para a palavra, ombro, sombra, sol, mulher, ritmo, inteligência…
Todas as letras respiram e morrem asfixiadas no deserto da página.
A palavra é um animal que se revela contra a sua sombra. Mas a sombra habita-a e é a sua opacidade que lhe dá espessura.
Assim a palavra luta contra o branco.
Mas o branco da página é também o que impele a palavra a alimentar-se do vazio e a procurar aí a nudez e a transparência do ilegível.
A palavra deverá ser um animal de luz. O animal branco da página.
A página por vezes é toda negra ou completamente branca. Se algo respira, se algo vive, algo principia e é talvez uma palavra que encontra outra palavra.
A escrita é um jogo de luzes e de sombras.
A ascensão da palavra é sempre plana. Ela respira pelo contacto com a superfície.
A respiração da palavra é a respiração do deserto.
O que subsiste, como o rosto da página, sem imagens, é um lampejo da luz ou uma sombra esparsa.
A sede infinita, o vazio do deserto.
Entre Desejo E Sombra
entre desejo e sombra
umas pálidas pernas uma fugaz
fornalha o som
do orvalho
como te quero não sei
este veneno puro
esta alga incerta
são os números do fogo
corro com as perguntas e
as pedras ferozes
entravo o ritmo das
aves tempestuosas
que súbitas tenazes
vêm rodopiando
sobre a terra dos nomes
sobre o fogo dos caminhos
como renascer hoje
com uma imperícia atroz
o flanco esquerdo ferido
e a moribunda lua
seguirei este atalho
de formigas e fósseis
até ao anel de pedra
ao vislumbre da vespa
A Diferença Desejada, a Página Prometida
Como que uma obrigação de renascer, de respirar. Algures, aqui, além, a sombra da frescura…
Tu escreves, percorres a igualdade da página, a sua inenarrável brancura. Qual a experiência que em parte se dissimula, oculta pelo visível-invisível véu da superfície insondavelmente branca?
Um animal de luz, um animal de sombra?
Tu não podes dizer ainda o teu nome. Tens de defender-te pelo risco, pela audácia, pela minuciosa avaliação que te conduzirá à diferença desejada, à página prometida.
O arco de aliança não é o arco de amanhã. Desviaste-te da estrada principal e procuras a disseminação do solo onde todos os caminhos conduzem aos caminhos que se perdem.
Essa, a tua perda, o teu risco, a possibilidade do renovo.
Há um tremor nas tuas mãos, és tu que tremes, não as palavras como fugidios desenhos, como lábios de uma ferida viva.
As palavras são sempre demasiado rígidas ou fluidas. O traço nunca é diáfano ou transparente.
Escreve-se sempre com as mãos nuas mas a nudez e a transparência da página é que permitem a penetração no obscuro, a revelação do invisível.
Quando todos os vocábulos são de água e de ar e terra e fogo…
No Limiar da Claridade Móvel
No limiar da claridade móvel
um só trajecto até à opacidade
um frémito de abandono e de silêncio
nas vertentes
mais frescas e mais fundas
Impossível relatar o que tu vês
inesgotáveis são as folhas
as relações inúmeras gotas de água
os objectos sucessivos simultâneos
o corpo desagrega-se
recompõe-se
o mesmo corpo e outro e outro
a distância mantém-se e é abolida
Figura do desejo e da nudez
perseguida
a transparência é livre
à superfície de
uma escrita que se abre ao obscuro
Uma festa se promove
uma aliança do ar com um fogo de ervas
o combate pela claridade
na carne mesma do poema
Corpo a corpo
letra a letra
pelos sulcos não sulcados
algo que começa e é sem nome
e sem imagem
O Lugar
a Lídia Jorge
Algo está por dizer Ao longe o diamante
da distância a promessa fulgurante
Aqui onde tudo será como uma festa
ao fundo das áleas de ciprestes e pinheiros
as amorosas arcadas transparentes
a praia que se estende um lábio fulvo
algo adormece no sossego de nenhuma vaga
nenhuma espuma Um navio silencioso
As palavras iniciam a delicada translucidez
*
Branco domínio do ser aéreo movimento
imóvel Um caminho redondo
em torno de uma torre O sabor de viver
em claridade e calma Espiral
a partir do solo até ao sol Transparência
compacta com as grandes pedras claras
os insectos a seiva a hera sobre os troncos
os anéis do dia
*
Eis o esplendor no seu repouso de praia
Todas as tensões e intensidades se tornaram um arco
Aqui a nascente ressoa no lugar central
as formas puras resplandecem com as suas sombras lúcidas
a construção é clara
*
Amplitude imensa da água serena
o júbilo tranquilo na circulação amiga
esplendor vivacidade clamor branco
o lugar da presença e da evidência
das escadas de pedra
das portas esculpidas
o que se respira é o tempo o espaço o oiro leve
A Imponderável Abordagem
Nada é necessário nada é suficiente
Que coisa é esta que aqui será presença e além falta?
Uma qualidade de silêncio de vigilância pura?
Um desenlace uma evidência um fogo insinuado
ou talvez o esquecimento
Nada a dizer no entanto Quem sobe à fogueira
quem foi para o deserto? Não há palavras mais
Substância volátil dizemos Mobilidade aérea
e pedra imóvel Tudo é o mesmo e tudo muda
indefinidamente
Não mais que o imponderável Tal é a abordagem
da lâmpada frágil do insecto obscuro
Os intervalos as incertezas são a vida mesma
que se revela Esta fluidez viva
Este campo de energia Lugar donde surge
o vigor verde Célula de gruta
Esta matéria que ascende em nós é inseparável
do pulso que ritma e de uma língua selvagem
intacta
Que inapreensível simplicidade que nudez de assombro
que já não é uma imagem mas um relâmpago
consumindo os contornos da pedra
Que rigor flagrante e improvável
uma espécie de música branca
um canto que não desvela nem anula
um silêncio que não repousa sobre nada
Cópia de parte da narrativa «a Vadim», datilografado, s/d. "... . Adormeci e sonhei que me encontrava no meio de um canavial, à beira de um regato, embalado pelos oscilantes rumores da folhagem e das águas. De súbito, uma mulher nua, opulenta mas elegante (...) graciosa, surgiu de entre a espessura do canavial e continuou a atravessá-lo até à beira do regato, em cujas águas transparentes mergulhou o corpo deslumbrante. Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo dum paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...)
António Ramos Rosa, verdadeiramente, não fez do desenho atividade diária. O dia do poeta começava cedo e por reler os poemas do dia anterior. Sempre cheio de incertezas quanto à sua qualidade. Socorria-se do telefone e falava sobre os seus escritos, sempre perguntando sobre este ou aquele conteúdo. Quando recebia, o elogio, ouvia-se um som especialíssimo. Mas somente questionava mulheres, algumas, em trabalho de teses sobre António Ramos Rosa. Embora fosse uma pessoa sensível (embora em situações públicas, por vezes impaciente e nervoso) algumas "alunas" impacientavam-se e sofria por não o atenderem. Ora os seus desenhos, sempre de figuras femininas, só no outono da vida, e isto, para oferecer a quem o visitava.
António Ramos Rosa, - até prova, - não trabalhou no comércio.
Conheci, pessoalmente, António Ramos Rosa, um homem tímido, mas que surpreendia, que ao dentista desdenhoso respondeu "estar tão nervoso como quando lhe disseram que fora proposto para Prémio Nobel ou quando o empregado do café não o deixava entrar dado o vestuário pobre. Sim, considerava-se "diferente", "anómalo", "inferior". Mais tarde descobriu que era condição humana, pela contingência de cada ser "um mundo"; uma "composição", onde cada constitui a individualidade irredutível que resulta da organização da pessoa no mundo. "A consciência da minha separação provinha da minha ferida, que era para mim uma irremediável singularidade". Até que a individualidade lhe aparece como "resolução da diversidade do mundo" ... "embora conserve a sua singularidade abissal" ... . Conquistei, assim, a minha liberdade, a minha voz ganhou timbre de neutralidade do mundo em que eu me inseria e que era a minha composição pessoal, mas também transpessoal, do mundo" (...), Cf. doc. dact. "A COMPOSIÇÃO DOS MUNDOS"; manuscrito "A Vadim muito afectuosamente", s/d.
António ramos ??. Somente reescrever um nome de altiloquência literária me confere armas para eu próprio me precaver contra a ignorância que sou face ao Mundo que me inunda