Escritas

Lista de Poemas

Oco

eu não sou o corpo físico;
sou o ar que respiro?
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No Lixo

O homem mais bonito
está catando restos
no depósito de lixo.
A pessoa pura
se perdeu em apuros.
No mundo moderno
o amor é complexo:
quanto menos beijo
mais eterno.
Há várias epidemias
que assolam a população
como se fôssemos vermes.
Mas não morremos.
Sobrevivemos
ao próprio tempo.
No meio da multidão
no Paço
Imperial,
na estação Central,
eu juro
eu confesso
que me perco.
Sou ninguém,

mas tenho o coração aceso.


Rio de Janeiro, 18 de abril 1997
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O Bicho

Me misturo ao mundo absurdo,
como do mundo, e me pergunto
onde mais encontrar comida
que sustente espírito e músculos.

Que sustente espírito e tudo
que de mim quer fugir do mundo.

No turbilhão da vida
penso na morte.
Será que na hora da morte
vou querer a vida?

Sou uma alma em sua jaula.


Rio de Janeiro, 8 de outubro 1997
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Bacia

Banho de bacia
de metal esmaltado azul
claro como o dia
que quase-acaba,
como a asa
de uma borboleta pousada
na fruta.
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O Balde

Rio de Janeiro,
minha cidade de agora.

Me preencho
com teu peso.

Sou um balde que flutua
com um furo
em tuas águas sujas
e pouco a pouco afunda.

As três da madrugada
às três da tarde,
no túnel, na orla;
a mesma hora
se desdobra

desde o Império romano?

Rio de Janeiro, segundo milênio
da era de Cristo

quase findo.

O umbigo é o centro
do universo. O umbigo
de ninguém em concreto.

Tempo de menos.

Os que estão vivos
mal compreendem a vida.
Somos muito milhões de indivíduos
e para a maioria deles
não teria nada a dizer.

A não ser, talvez
"toda vida
é sagrada"
(e isto dito
dar as costas).

Conheço umas centenas de pessoas
que são minha idéia de humanidade.
Acho a humanidade doce.
Estou só.

Tenho desejos.
Mas nenhum ímpeto.

Até mesmo o sexo
ficou melhor imaginado
do que vivido.

Atravesso vários bairros
várias vidas.

Sou ouro e lixo.
Nas minhas asas puras
acolho, recolho
tua porra
e tua excremento.

Rio eterna
efêmera
aberta
Roma, Atenas, Pompéia.


Rio de Janeiro, 2 de maio 1997
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O Cofre

Quando morrer quero ir pro Céu.
E sei que vou. E sei que vou.
Cumprir a vida e voltar à Casa.
Voltar à Casa. Voltar à Casa.

Minha família guarda uma cama para mim
num quarto que é meu, com coisas que, embora há muito abandonadas
ainda são minhas, e se alegrariam com minha presença;
livros que jamais reli, velhas cartas, velhos poemas,
desenhos velhos,
uma caixa só de fotografias, coisas que, se desaparecessem
me deixariam perplexo e mudo, como se eu tivesse morrido um pouco.

Sei que desaparecem pouco a pouco,
assim como eu também morro. Mas, por enquanto,
lá estão elas
num armário de um quarto onde estou (não estando);
e esse saber me reconforta.

Lá está o banho quente
do meu corpo agora cansado.
Lá está a comida gostosa, à vontade
para quem está com fome agora, num hotel sujo
sem coragem de sair à rua, um refúgio
que mais parece um esconderijo, mas que facilmente poderia ser
um Palácio iluminado.

Olhando a chuva fina, contra a lua dourada
penso na vida que é minha
e se mascara em tantas vidas.

A casa da minha família
não é mais a minha casa.
Qualquer lugar, o mundo estranho
se torna o bom quarto, a cama, o travesseiro
para o coração arrombado,

como um velho cofre, de cobre, que pulsa
apesar de tudo
e que no fundo ainda pula
de alegria.


Rio de Janeiro, 19 de novembro 1998
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Os Antepassados

Meu tio José gostava de ficar
debruçado sobre a cerca escura da piscina
depois do jantar, ouvindo o bater da água, o coaxar dos sapos
no duplo prazer
de escutar as estrelas passando sobre a fazenda
e fazer a digestão, peidando.
Morreu de câncer nos intestinos
mas sua alma saiu pelos olhos.
Meu avô também morreu de olhos abertos
escancarados
para o teto...
o céu estrelado da sua infância,
não importa que na verdade fosse o céu cego de S. Paulo.
Aliás, São Paulo também é céu estrelado, é o reino da minha infância.
São Paulo para mim é desejo grande
de ser feliz e de voltar a ser o que se foi.
Todo lugar é lugar de esperança, todo corpo é lar
para o ser humano.
Meu avô Renato, de quem herdei o nome
e essa maneira de andar
entre inúmeras outras coisas que nem sei, além
do bem e do mal,
morreu neurastênico.
Morreu sem viajar muito pra lá de Minas...
sem conhecer
a sua bisneta, minha filha.
Morreu como eu vou morrer um dia
definido por seu espaço e seu tempo.
Morreu como morrem todos,
pleno e culpado, vazio
e completo
(ao mesmo tempo imperfeito e perfeito).
Meu tio José já morreu faz tempo,
poucas pessoas ainda tem saudades.
Meu avô morreu um pouco mais tarde.
A morte é natural
como a sombra crescente da tarde
cobrindo pouco a pouco a cidade,
escurecendo a cerca da piscina e a fazenda inteira.
Já é quase noite, depois do jantar
me retiro para o quarto a escutar as estrelas.
Estou no Rio de Janeiro
onde minha filha nasce e já é criança.
É a vida que passa, e cada um de nós, passando
empurra mais para longe, mais para o escuro
os seus antepassados.
Talvez tendo filhos nós os ajudemos de alguma forma.
Talvez assim paguemos nossas dívidas da carne.
Escuto saudoso as estrelas, o jantar me pesa no estômago,
produz gazes.
Minha filha brinca com seu corpo ainda ileso.
Já é tarde, digo, pra cama, Renata, olha o bicho-papão!
O bicho-papão viajando pelas estrelas e pela carne.


Rio de Janeiro, 13 de fevereiro 1997
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Combustão

aét
as
p la vr a a s
s e
d e i v l sso m
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As Moiras

Gostaria de estar lá, testemunha, bem na hora
quando as moiras tecem o destino dos homens.
-- Você (ainda apenas uma alma)
está condenado a caminhar de joelhos
por 35 anos
na cidade do Rio de Janeiro.
Essa foi boa! É o mendigo
que vi ontem sob o sol
na praia do Flamengo.
Levariam elas em conta a lei oriental do karma?
Compreenderiam elas que, afinal
a vida é sonho
e não importa nada?
Não é verdade que no fim das contas
todo destino é igual
e todo homem um expatriado de si mesmo?
Veja eu, por exemplo
Renato Rezende, 32 anos
e ainda não morri de fome e de sede
(este fato me surpreende).
Carrego um iceberg no peito
cuja minúscula ponta são todos os meus versos.
Parece mesmo que meu destino
é este gesto já quase desfeito
este desejo imenso de não sei bem o quê
este gigantesco amor-desatino
este aparente
bater a esmo.
As moiras, na sua Glória, eu sei, gostam dessa gente
que é torta, desses sem jeito
que descasam o fim do começo,
que são menos carne do que espírito.
Como o mendigo do Flamengo
eu sou um escolhido
e vivo de joelhos dentro de mim mesmo.
Todas as minhas vitórias sempre serão
maravilhosa, necessariamente um sinal de menos.


Rio de Janeiro, 15 de fevereiro 1997
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Sopro

Este corpo onde agora moro
parece estar vivo, no entanto
o corpo está sempre morto.
O que é vivo é este sopro
que se sabe dentro do corpo.
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