Escritas

Lista de Poemas

Asas

Como uma borboleta às vezes voa baixo
e acaba
atropelada
nas ruas desta cidade;

luz e azul
estagnados
estampados
no negro do asfalto;

anjo crucificado
entre carros que passam,

minha vida
morna e delicada
beijou a parede e o asfalto, trêmula

nas encostas do precipício.

Sento-me rente
à calçada
na raíz de uma enorme árvore, só

entre a sarjeta e o asfalto,
entre o tempo e a morte.

Ó alta e sábia árvore.
Ó árvore,
eu beijo tua casca--
tua grossa, antiga casca.

Imagino que esta árvore mágica
poderia destruir a cidade

e transformá-la novamente em mata.

Imagino e sou salvo.

No meio da mata Atlântica
no tempo vegetal
como uma larva
eu subo a alta árvore
até o céu.

O céu anil
das asas de uma borboleta livre
sobre o mar terrestre.

Subo e sou
luz e crisálida,

um pouco já raio e êxtase.

Quero vertigens transparentes,
quero o grande salto d'alma.

Deus, será que dava, de onde eu caio
fazer-me santo rápido,
algum tipo de pássaro,

dar-me asas?


Rio de Janeiro, 4 de maio 1997
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Perto, Na Suiça

Passeio pelo jardim florido
com um carrinho de criança, e a criança dorme.
Agora sou uma mãe de seios rosas
e isto é a Suíça.
Sento-me e medito
no mar infinito, nas águas
de um tempo esquisito
como se fora um passado
ainda a ser vivido.
A criança dorme, o céu está azul, azul
por trás de alguns pinheiros.
O dia está ameno, mas o coração humano
(mesmo o desta mãe que medita,
mesmo o desta criança tão bonita)
é sempre brasa e abismo.


Teresópolis, 8 de março 1998
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Águas de Março

Amanhece chovendo
no meu apartamento
em Laranjeiras.
Tudo está mais lento.
Até mesmo o morro de pedra, sob a água,
o mirante de Dona Marta
fica mais doce, doce molhado, doce aço.
Chega até minha cama de solteiro
o cheiro suave da chuva,
e do vento:
o casamento
entre todos os elementos do universo.
Trégua
na luta geral da vida.
A cortina d'água na janela
se transforma numa tela
onde se projeta meu exílio
(esta vida nesta terra).
Memória.
A chuva molha
antigas companheiras
de cama em manhãs cinzentas como esta.
As férias na fazenda,
a infância
e o que ela teve de assombrosa e santa.
As tardes solitárias
na Espanha, na Itália, na França.
Ah, a Europa
de poliglotas cópulas.
(Toda chuva
a continuação da última).
Talvez em algumas dessas horas
eu tenha sido pleno.
Talvez em alguns desses momentos
de silêncio
eu tenha sido inteiro.
Chove. A água
silencia o tempo
e une a pedra à alma.


Rio de Janeiro, 17 de março 1997
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No Aeroporto

Todas essas milhares de pessoas
merecem amor e respeito.
Estamos todos tentando viver
da melhor maneira que sabemos.
Estamos todos querendo ser felizes.
Somos a flor da terra,
a coisa mais doce do planeta.
Sou eu e cada uma delas.


São Paulo, abril 1998
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A Idade de Cristo

I.

Sim, sim, sim, é o homem
que pertence à terra,
e não o contrário.
Esta casa de fazenda, por exemplo.
Seu sólido casarão de barro
pintado de branco e azul;
o terreiro de café;
a antiga senzala caindo;
é apenas nosso destino comum,
o nosso cenário.
Aqui há gerações jogamos o baralho
intricado de nossas vidas.
Aqui o teatro
aparente entre senhores e vassalos.
Junqueiras, Arrudas, Rezendes,
Prados, Azevedos.
Somos proprietários,
caseiros e camponeses.
Aqui onde hoje estão estas sombras
os jogos inocentes da infância,
as horas honestas do trabalho,
as noites de intriga,
os roubos, os atos ambíguos
jamais explicados ou compreendidos,
as palavras ditas e as não ditas,
os desejos da carne,
os encontros secretos de madrugada
sob o céu aberto
debaixo
das estrelas que caíam,
ou dentro das alcovas frias.
O casarão apreende o passado
em suas paredes, a fazenda em sua terra
e nos serve de volta no sabor do café diário.

II.

Caminho até o curral.
Dou bom-dia às vacas.
Volto para casa, o casarão
está vazio,
está vazia a colônia.
São 7 hrs. da manhã
o vento varre o terreirão
o sol nasce
atrás da serra
sento-me na sala e escrevo.
Hoje, domingo de Páscoa
bem cedo
sento-me no sofá, no centro
da sala,
no centro da casa,
e escrevo.
Volto ao curral
converso com as vacas,
desejo-lhes
feliz Páscoa.
Atravesso o terreiro
estou no pomar
varrido pelo vento
("Noite de vento
noite dos mortos")
pelo tempo e seus fantasmas.
Memória. Aqui é o caminho
do caçador de esmeraldas.
Velhas mangueiras, jabuticabas
cheias de barba de bode
abacates como corações verdes
de pedra pendurados nas árvores.
Pulo a cerca, estou no pasto.
Ossos
de outras gerações de vacas.
Garças, siriemas, possíveis cobras.
O campo aberto, o espaço
a distância
o vale seco
mais parece a India
mais parece a Africa
de um tempo remoto
que é meu e eu desconheço.
Contrariando a mim mesmo
de pijamas
cabelo ao vento
caminho até o café:
esta manhã eu me experimento.
Aqui estão eles: 30 mil pés
exigidos da terra
entre frestas de pedra.
Este é o nosso sustento,
este nosso exíguo alimento.
Destas alturas tudo vejo.
Sobem a estrada dois negros descalços
munidos de espingardas.
São lentos, mas sobem rápido.
Vão caçar na mata.
Penso em esconder-me,
mas já é tarde.
Passam por mim e desejo-lhes bom-dia,
e foi mais fácil desejá-lo às vacas.
Me sinto distante e isolado
destes outros seres, iguais a mim
e meus irmãos chamados.
Hoje, domingo de Páscoa, o Cristo
renascerá entre nós, ou melhor, em cada um de nós
como um sol solitário.
Volto para casa.
Fecho a porta, o vento
varre o terreiro
nesta manhã iluminada.
Estou só, mas me sinto preso
doce, tenuamente preso
(como um inseto
numa teia de aranha)
ao meu nome, meus fantasmas, meu feudo.

III.

Muitos lares cresceram
durante estes anos todos
na orla da fazenda.
A terra abafada
onde antes era mata
e depois pasto para vacas.
Casas simples, muita gente
onde numa tarde de outrora
eu e uma filha da colônia
nos deitamos em segredo.

É natural que tudo se transforme.
O amor se renova
em novos cénarios.
Nem um pouco desejo
o corpo da menina agora.
Nem sei se está viva ou morta.

No entanto, havia naqueles dias
na luz daqueles dias, ou no ar
a própria essência
da minha infância, da adolescência
que tinha uma vida inteira pela frente
mas não sabia.
Hoje se desenrola sem sentido
uma vida que não parece minha.
Em nada me reconheço
e em vão me busco na fazenda.
Sinto-me fora
de mim mesmo, fora de centro
ou escondido dentro:
vivendo um exílio às avessas.

Tenho 33 anos.
A idade de Cristo.

Sei apenas
que não ressucito, e já é tarde
para morrer jovem e bonito.


Atibaia, Semana Santa 1997
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Olho

De repente,
no meio do shopping
o impulso natural,
o súbito desejo
de ficar cego.
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Deconstrução da Amada

O corpo da amada
não parece ser carne
como os outros;
e mesmo o que ela come e caga
está impregnado
por uma aura sagrada
como se fosse tudo olhos
amorosos, e alma.

Mas passa.

Uma vez morta e enterrada
a amada é esse punhado
de ossos e dentes
na minha palma.

Não adianta nada
comer com calma
as medulas que restam.
No entanto, todos os dias
chupo os dentes e suas cáries.

Já não têm o gosto
ácido da boca
e sua saliva, sua língua,
angústias e palavras;
cada um deles é uma coisa

como qualquer outra coisa.
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Ruínas

Algo me prende ainda
à vida
e espero que passe.
Algo me prende à vida—é o amor
e a arte;
e espero que logo passem.
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A Ilha

Levanto as mãos para o céu,
os braços para o alto
num gesto
menos de agradecimento
do que desamparo.
Não sei como ainda me sustento
dentro dos sapatos.
Cada passo
um novo compasso.
Caminho pela cidade,
pelo Estácio
onde vim acalmar o sentido...
e penso
"A vida inteira que não foi
e que poderia ter sido".
A promessa, o sonho, o beijo
não propriamente esquecidos,
mas diluídos
no dia a dia do corpo.
Penso naquele que fui
sem saber que era
e procuro a essência da primavera
para dela partir novamente.
Mistério. Difícil
dilema:
me busco no passado ou me reconstruo
do nada?
Sou fênix ou sou cinzas?
Navego no escuro.
Contenho
no peito o grito.
Liberdade! Liberdade
é bairro em São Paulo.
ou ainda
Terra a vista!
ai, quem me dera, que vontade
de encontrar-me
Robinson Crusoé perdido em sua ilha.


Rio de Janeiro, 3 de abril 1997
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O Mendigo

Sou o mendigo
do Rio de Janeiro.
Entre muitos, o único
o arquétipo, o negro
o barbudo, o sujo, o primeiro
o eterno, o mítico.
Estou entre árvores,
carros e edifícios.
Hoje sou palavra e precipício.
Hoje acordei com o bicho.
Insisto em saber
como se faz para ser dono
de tudo isso.
Giro em torno de mim mesmo
e tudo vejo --estou de pé
no meio da avenida.
Os carros brilham e passam
rápidos, no asfalto.
É uma dádiva ou um fracasso
não ter um carro?
Hoje eu não me entendo.
Têm muita gente morando
nestes edifícios, eu sei,
será que é porque
eles chegaram primeiro?
A gente já nasce rico
ou é uma questão de sorte
durante a vida --vida ou morte?
Será que eu sou rico ou pobre,
vivo ou morto?
Será que quando eu nasci
pensaram que eu era rei
e não precisava de nada?
Tudo é sempre encontrado no lixo
na plataforma da vida
como a roupa que visto?
Tudo já estava construído?
Como se faz para ser dono
das coisas que existem?
Eu, o único imperador
do reino-corpo que dispo.


Rio de Janeiro, 15 de abril 1997
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