Escritas

Asa

Ano
1999
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Poemas nesta obra

Álbum de Roma

Em certas fotos Roma revela
que é uma milenar cidade do oriente.
(Principalmente quando o sol
se avermelha, por trás do Vaticano
na hora do poente).
O oriente, o longínquo, o estrangeiro
está bem mais próximo
do que pensamos habitualmente.


Nova York, dezembro 1995

Aleijadinho

O tempo passa pelo mundo
e nós somos os ponteiros.

Aqui estou eu outra vez,
depois de muitos anos,
em Congonhas do Campo.

Os profetas
continuam olhando para o horizonte
verde mar, azul de Minas
sem sentirem nada,
maiores que a vida, calados,

absortos em si mesmos.


Nova York, julho 1996

Ao Menos

Houve um tempo
em que comia nos melhores restaurantes
de São Paulo, Paris e Nova York.
Houve um tempo
que retirava grande prazer da leitura
e tinha orgulho da minha biblioteca.
Hoje os pratos estão quebrados,
os livros ao vento.
-- O coração cada vez mais pleno.


Rio de Janeiro, fevereiro 1998

Asas de Papel

Subir aos céus em asas de cristal
Subir aos céus
Subir aos céus em escadas de papel
Subir aos céus
Subir aos céus no elevador panorâmico
do Shopping Iguatemi
Não importa como:
Subir


São Paulo, março 1996

Bacia

Banho de bacia
de metal esmaltado azul
claro como o dia
que quase-acaba,
como a asa
de uma borboleta pousada
na fruta.

Cogumelos

Quando o coração se inflama
incendiado pela paixão
esse fogo não ilumina;
é como o cogumelo venenoso
que brota durante a noite úmida:
não alimenta, queima, apenas queima
o organismo, e alucina.


Nova York, setembro 1993

Cría Cuervos

Pensando em rever
Cría Cuervos, pela quarta vez,
mas pela primeira vez em dez anos,
meu coração se aperta -- e me emociono.
Não por antever a beleza do filme, ou como Saura
captura a tragédia da infância em suas cenas,
mas pelo jovem que um dia eu fui
e que deve ter morrido
numa sala de cinema.


Nova York, fevereiro 1996

Desejo

Um anjo desejou outro anjo.
Isso não foi inocente. Os primeiros
tons rubros surgiram no horizonte eterno.
Logo tudo foi tomado pelas chamas
e era o poente: a aurora do inferno.


Nova York, agôsto 1993

Fine Art

O menino de 17 anos
caminhou até mim
e conversou comigo um pouco.

Bonito, puro, doce
como eu também era doce
aos 17, e não sabia.

Amo-o
como se fosse uma pintura,
uma fotografia em preto e branco
(me seduz
uma coreografia que já não danço).

Sorrio,
enquanto ele me empurra para morte.


Nova York, maio 1996

Formigas

Talvez isso ajude a compreender o Destino
ou a Graça:
Num pátio de mármore, duas formigas
tentam escalar uma pilastra.
Mas não conseguem.
Uma desiste.
A outra prossegue,
insiste.
Até que eu
pego essa formiga com a mão
e a coloco um palmo acima do chão.


Bombaím, novembro 1991

Irene Encarnada

Le con d'Irene
El coño de Irene
El culo de Irene
El pelo de Irene
Meu Deus, Irene
Irene, Irene

Irene, seus cabelos
Irene, suas mãos
Irene, seu umbigo
Irene, seus joelhos

A barriga de Irene
doce, e dentro
seus intestinos
Irene, seus cotovelos

e calcanhares, seu queixo
seus maxilares, seu sorriso
e seus olhares
(como os meus)

Irene, Irene, sua vida
na régua do corpo e do tempo,
na regra da língua

(Meu Deus, e eu
eu ainda não compreendo a vida)


Nova York, outubro 1996

N.S. de Guadalupe

Algo me entristece no México.
A grande cidade é um deserto.
Na Basílica, no alto do monte
onde a Diego apareceu a Virgem
eu ainda mais me entristeço.

(O sol se põe, distante e amarelo
como em Roma ou na velha Pérsia).

Há de ser a imagem singela
da Virgem entre pálidas rosas
estampada na tarde sem glória.


Cidade do México, novembro 1996

New York City, Meio-Dia

Vestido num saco de lixo
negro, um menino negro
pede esmola -- e é bonito.

Uma jovem de patins passa
por mim e esbarra sua mão na minha.

Um homem me olha
e quando o surpreendo com meu olho
sustenta o olhar, sem vergonha ou medo.

Durante todo o dia quis-se revelar
uma alegria nova, mas familiar
que finalmente agora compreendo.

A de estar entre os que estão
aqui
vivendo.


Nova York, setembro 1996

No Aeroporto

Todas essas milhares de pessoas
merecem amor e respeito.
Estamos todos tentando viver
da melhor maneira que sabemos.
Estamos todos querendo ser felizes.
Somos a flor da terra,
a coisa mais doce do planeta.
Sou eu e cada uma delas.


São Paulo, abril 1998

O Ouro Egípcio

O que me impressiona não são os peitorais
e outros antigos artefatos egípcios, de ouro
que hoje sobrevivem em museus.
O que me impressiona é o que não sobreviveu.
O tesouro perdido da civilização conquistada
por mãos anônimas e privadas, pelo ir e vir do deserto,
pelo tempo que cria gerações e as esmaga.


Nova York, dezembro 1995

Sopro

Este corpo onde agora moro
parece estar vivo, no entanto
o corpo está sempre morto.
O que é vivo é este sopro
que se sabe dentro do corpo.