Escritas

Lista de Poemas

Formigas

Talvez isso ajude a compreender o Destino
ou a Graça:
Num pátio de mármore, duas formigas
tentam escalar uma pilastra.
Mas não conseguem.
Uma desiste.
A outra prossegue,
insiste.
Até que eu
pego essa formiga com a mão
e a coloco um palmo acima do chão.


Bombaím, novembro 1991
👁️ 917

O Sorriso

-- Mostre os dentes,
sorria
(eu digo a ela)
e ela sorri.

Estudo nos seus lábios
esse delicado,
sublime mecanismo:

(entre músculos e dentes
devagar,
novamente)

-- o sorriso.


Turim, maio 1991
👁️ 1 004

Os Dias

Sobre a estante de madeira
um lenço bordado por um antepassado;
sobre esse delicado trabalho
um copo de plástico:
vaso
para flores amarelas
como astros no espaço.
Assim --
passam os dias.


Boston, setembro 1990
👁️ 1 016

Sobre a Terra

Esquecidos de nossas asas, nos amamos
perdidos no fundo do céu.
Fechamos os olhos e nos beijamos.
(O sol longe, longe, perdido
na cúpula do azul infinito)
Somos os anjos caídos
e se faz noite sobre a Terra.


Nova Iorque, maio 1994
👁️ 733

Aroma

a S.M.A.


Atravesso o jardim, mas páro
para cheirar as flores.
Logo não sentirei perfume algum
porque estarei morto --
ainda estarei neste jardim
mas não terei um corpo.


Nova York, 12 de julho 1996
👁️ 1 089

Cogumelos

Quando o coração se inflama
incendiado pela paixão
esse fogo não ilumina;
é como o cogumelo venenoso
que brota durante a noite úmida:
não alimenta, queima, apenas queima
o organismo, e alucina.


Nova York, setembro 1993
👁️ 1 025

Irene Encarnada

Le con d'Irene
El coño de Irene
El culo de Irene
El pelo de Irene
Meu Deus, Irene
Irene, Irene

Irene, seus cabelos
Irene, suas mãos
Irene, seu umbigo
Irene, seus joelhos

A barriga de Irene
doce, e dentro
seus intestinos
Irene, seus cotovelos

e calcanhares, seu queixo
seus maxilares, seu sorriso
e seus olhares
(como os meus)

Irene, Irene, sua vida
na régua do corpo e do tempo,
na regra da língua

(Meu Deus, e eu
eu ainda não compreendo a vida)


Nova York, outubro 1996
👁️ 855

Andaluza

A janela de serviço do pequeno apartamento
de Granada, onde morava com minha família
(eu, meu marido, três filhos, a empregada)
era também pequena, mas dava
para a rua ensolarada: as copas das árvores
das alamedas de Granada, e a vida, que passava
(sempre!) longe e iluminada.


Nova York, setembro 1995
👁️ 644

New York City, Meio-Dia

Vestido num saco de lixo
negro, um menino negro
pede esmola -- e é bonito.

Uma jovem de patins passa
por mim e esbarra sua mão na minha.

Um homem me olha
e quando o surpreendo com meu olho
sustenta o olhar, sem vergonha ou medo.

Durante todo o dia quis-se revelar
uma alegria nova, mas familiar
que finalmente agora compreendo.

A de estar entre os que estão
aqui
vivendo.


Nova York, setembro 1996
👁️ 843

Poema Mudo

Quero escrever uma poesia calada.
Que cada palavra exista em si, um corpo. 
Que cada palavra seja tempo, pedra, rosto.
Que, principalmente, a poesia seja amor, e cada palavra
o amor feito palavra. Quero um poema
que tenha o significado da vida.
(A palavra esboçada e jamais dita;
o corpo, frágil, refletido no espelho).
Quero um verso forte e passageiro.
(Um rosto amado, e nunca mais visto;
o filho que sonhamos, e que não velo).
👁️ 1 076

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