Lista de Poemas

Bicho de Goiaba

No tacho de cobre/ vermelho
era eu mesmo me derretendo.

Todos os dias, o dia.

Aqui estou eu, de repente, o mesmo,
no ermo recanto das flores
da infância de mim mesmo.
Aqui estou eu, como num sonho
ou num porto-fragmento
do que já fui, perdido no tempo.

Irrompo aos gritos a casa ensolarada
e tudo brilha e está em seu lugar
enquanto gira ao redor do nada.

Aquelas manhãs na fazenda
ainda existem, não se perderam, estão lá
agora,
você que é o sempre ausente.

Mas espere
ainda há esperança, e por mais um dia
por dádiva dos deuses
que giram todos os dias
a roda do destino
eu apareço, inteiro.

As terras
ainda estão aqui, generosas
e fecundas, vermelhas.
Ainda não vendemos
nossa memória, nem mesmo o medo
de menino sozinho no quarto escuro...

e já acaba o óleo da lamparina
papai e mamãe dormem
do outro lado da enorme casa
e a sombra bruxeleia na parede escura,
no forro passeiam gambás
aranhas e baratas
infestam o chão a esta hora.
O banheiro
está do outro lado do mundo
no fim do corredor
imenso de assoalho vermelho.
Se acordo meu pai
ele vai ficar bravo e vai ser pior.
Fazer xixi na cama
é até gostoso
(o prenúncio
de um prazer maior),
é quentinho
e com este calor logo seca, ninguém nota.
Meu irmão dorme na cama ao lado
e estas duas camas parecem agora dois barcos
que se separam no enorme mar do tempo.
Tenho medo
de ficar sozinho.
E se meus pais morrerem?

(Ensaio na madrugada o sofrimento da desgraça
que durante a vida inteira espero que aconteça).

Rompe o dia.
Assisto
pela janela encardida a delicadeza da aurora
e com pijamas saio lá fora.
Estou na varanda. Ouço pássaros novos
e vacas rumo aos currais de outrora.
Do pomar irrompe um porco
que como tudo agora é puro mistério e delicadeza
banhado de luz dourada.
A doçura é tanta
que acuado volto para cama.

O que mais dança
no centro do meu peito?
Antigas penteadeiras
de madeira de lei
ou mármore de carrara.
Jarras de prata, tachos
de cobre
onde ferve a minha carne
mexida pela preta velha
que pica e cospe tabaco
junto ao seu fogão de cinzas e lenha.
Posso vê-la, de longe
varrendo pétalas e poeira
sobre as pedras do terreiro.
-- Aí! D. Paula!
Esse pirão é feito de água ou leite?
-- De água, fiô, de água.
Espelhos.
Piso de tábua larga.
Ping-pong com besouros.
Sapos de línguas longas.
Cavalos mangalarga
desembestados no pasto largo.
Briga de bois bravos
a despedaçar o curral.
E os homens munidos com varas e paus.
-- Ôôo! Pierrô! Eiaa! Apolo!
E depois a calmaria
da tarde de rolinhas
aninhando-se no enorme pau-d'alho
as borboletas com grande olhos
o pôr do sol.
O pôr do sol mais belo
e mais longo do mundo.
Mas ainda há tempo para mais um mergulho
na piscina de água corrente
onde antigamente era lavadouro de café.
Ainda há tempo
para uma espiga de milho quente,
para um copo de leite,
um punhado de jabuticabas,
um roubo de pitangas,
uma guerra de cevada.

Ainda há tempo, antes
que caia novamente a noite...

Que venham! Que venham!
No mar do naufrágio de agora
os escombros dos dias plenos.

(Hoje queremos apenas
que as crianças cresçam
e ganhar muito dinheiro).


Ribeirão Preto, Natal 1997
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Para Uma Cruz Na Estrada

Carrego dentro de mim, esquecido
o filho dos meus pais,
o que um dia foi amado,
o que foi querido.

Acho que vindo do mar, de longe
por detrás do monte, escuto um ai:
Lá vai nosso filho
com sutilezas de menina.
Aonde ela vai
tão bem vestida?

-- Encontrar-se
com uma bala perdida.

Lá vai nosso filho
no Elevado.
Aonde ele vai
tão bem penteado?

-- Ser atropelado.

Ser negro, marginal, mendigo
travesti, bêbado, deficiente físico

caminhar ao lado da estrada
sob a tempestade
vestido num saco de lixo

e desaparecer imortalizado
entre os índices de sinistros.

(Para um dia retornar, pródigo
nos braços do Cristo).


Rio de Janeiro, 21 de janeiro 1998
👁️ 917

Mercado de Frutas

Quando saí de casa hoje
a rua estava em silêncio
como se a vida geral se tivesse cansado
de tanta história
e se deixasse levar sem grandes vontades.
Lento, na calçada ao lado
passava um negro
quebrando o silêncio com uma doce toada.
"Vassoureiro!
Vassoura de pêlo!"
E carregava umas vassouras imensas
que pareciam mesmo coisas antigas
do tempo dos escravos.
Parecia um Rio de Janeiro de outrora.
Era um momento raro,
o presente permitia
a vitória do passado.
Com especial cuidado
desci a rua
em direção à feira
do Largo do Machado.
Longe, fugia a voz do negro
como se acaba um longo beijo:
"Vassoureiro!
Vassoura de pêlo!"
Com renovado cuidado
escolhi as frutas
que me sustentarão neste dia.
A cidade eterna e efêmera
navega em si mesma;
comigo em seu seio.


Rio de Janeiro, 7 de abril 1997
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As Duas Águas

(Sou uma caixa ou uma concha
onde marulha uma água
um mar inteiro preso
entre o espírito e a carne)

Existem duas águas
em mim, em agonia.
As profundas e as rasas.
As rasas são claras,
e no entanto sujas.
Estão em contato
constante com o dia.
(O reino fecundo das cores
e das palavras-fontes).
As profundas são escuras,
embora de matéria mais pura.
Quase não refletem as nuvens.
São as águas
"onde a infância naufraga".
Águas paradas
onde a vida naufraga
em si mesma,
e o dia na noite.
Águas-alma
de total silêncio.
Há em mim
uma tensão entre tais águas
que não se mesclam.
Assim como não se mesclam
o Negro e o Solimões.
Entre estas duas águas
como um peixe
enfermo, eu me sufoco.
Eu, que quero
num salto Amazonas
engolir as águas,
e fazer delas uma.


São Paulo, 20 de junho 1997
👁️ 1 149

Nós

Cada um de nós
tem uma vida
atroz e parecida.
Parecida com a daqueles
do nosso meio:
o mesmo score
de infinitas viagens,
aventuras, sexo
e também dinheiro.
Mas igualmente atroz
ou, se quiseres
(a perspectiva
depende do dia)
igualmente feia
ou bonita ou inquieta
ou esquisita
a vida
de outros homens.
Igual em essência
a vida de todos nós
sofrendo no corpo
o fogo do tempo:
o mesmo prazer
a mesmíssima dor
a voz
presa no peito
a sede de amor
os nós
de tantos anseios
e afetos desfeitos,
o destino incerto
sem ritmo
sem nexo,
o enorme desejo
de um dia estar em paz
e conhecer Deus
por fim falso ou verdadeiro.
E por todo o caminho
o espelho perplexo:
quem sou?

Desconfio
que somos o mesmo.


Rio de Janeiro, 26 de maio 1997
👁️ 1 048

O Mendigo

Sou o mendigo
do Rio de Janeiro.
Entre muitos, o único
o arquétipo, o negro
o barbudo, o sujo, o primeiro
o eterno, o mítico.
Estou entre árvores,
carros e edifícios.
Hoje sou palavra e precipício.
Hoje acordei com o bicho.
Insisto em saber
como se faz para ser dono
de tudo isso.
Giro em torno de mim mesmo
e tudo vejo --estou de pé
no meio da avenida.
Os carros brilham e passam
rápidos, no asfalto.
É uma dádiva ou um fracasso
não ter um carro?
Hoje eu não me entendo.
Têm muita gente morando
nestes edifícios, eu sei,
será que é porque
eles chegaram primeiro?
A gente já nasce rico
ou é uma questão de sorte
durante a vida --vida ou morte?
Será que eu sou rico ou pobre,
vivo ou morto?
Será que quando eu nasci
pensaram que eu era rei
e não precisava de nada?
Tudo é sempre encontrado no lixo
na plataforma da vida
como a roupa que visto?
Tudo já estava construído?
Como se faz para ser dono
das coisas que existem?
Eu, o único imperador
do reino-corpo que dispo.


Rio de Janeiro, 15 de abril 1997
👁️ 1 010

Asas

Como uma borboleta às vezes voa baixo
e acaba
atropelada
nas ruas desta cidade;

luz e azul
estagnados
estampados
no negro do asfalto;

anjo crucificado
entre carros que passam,

minha vida
morna e delicada
beijou a parede e o asfalto, trêmula

nas encostas do precipício.

Sento-me rente
à calçada
na raíz de uma enorme árvore, só

entre a sarjeta e o asfalto,
entre o tempo e a morte.

Ó alta e sábia árvore.
Ó árvore,
eu beijo tua casca--
tua grossa, antiga casca.

Imagino que esta árvore mágica
poderia destruir a cidade

e transformá-la novamente em mata.

Imagino e sou salvo.

No meio da mata Atlântica
no tempo vegetal
como uma larva
eu subo a alta árvore
até o céu.

O céu anil
das asas de uma borboleta livre
sobre o mar terrestre.

Subo e sou
luz e crisálida,

um pouco já raio e êxtase.

Quero vertigens transparentes,
quero o grande salto d'alma.

Deus, será que dava, de onde eu caio
fazer-me santo rápido,
algum tipo de pássaro,

dar-me asas?


Rio de Janeiro, 4 de maio 1997
👁️ 1 006

A Mangueira

Sob o sol há sempre perda e esse pé
de manga na calçada da ladeira
me lembra agora a infância passada
descalça na ensolarada fazenda.
Meu pai a cavalo! As brincadeiras
no curral entre as vacas, as batalhas
de cevada quente, a terra vermelha,
a cachoeira em prata, o terreiro de café!

O sol parecia eterno.

Mas tudo passa. A cega mangueira
sozinha (longe da mata) na subida
íngreme desta alameda escondida
das avenidas do Rio de Janeiro
também parece me reconhecer, lenta
e perplexa --e como que se abaixa.
Aproximo-me. Sem que ninguém veja
longamente beijo sua antiga casca.

Velha amiga! Foi apenas ontem
que sem medo subia em seus galhos.
Durante o dia com fome dos seus frutos
como o sol dourados e doces;
ou na preguiçosa tarde sob sua sombra
observando os pássaros do mato.
E de noite contra seu tronco, sedento
do fruto proibido, os beijos escondidos
(na brincadeira de esconde-esconde), a boca
rosada da jovem moça da colônia...

No céu riscavam estrelas cadentes...

Lembra? Foi mesmo ontem! E hoje
nos reencontramos de novo!
Mas, amiga, não estaria eu sendo tolo
e dourando (de novo) a pílula do passado?
Fala a verdade, responde... uma rajada
de vento farfalha as suas folhas:
Isto é o lado bom, a grande vantagem
do tempo, que passa, e passando
recolore o já vivido com nova graça....

Que bom que isso aconteça, e é certo
que assim seja. Mas quando, amiga, onde
o sol que enfim nos espera, que vai dourar
o que sempre somos agora? Cá estamos,
você --permita-me-- abandonada e seca
eu, abandonado e longe, náufragos à deriva
em nossos corpos --de nossas próprias vidas.
Vivemos ainda da seiva dos velhos sonhos.

(Os velhos sonhos de ser tudo e todos
além do fogo-tempo e seus círculos).


Rio de Janeiro, 18 de julho 1997
👁️ 673

No Lixo

O homem mais bonito
está catando restos
no depósito de lixo.
A pessoa pura
se perdeu em apuros.
No mundo moderno
o amor é complexo:
quanto menos beijo
mais eterno.
Há várias epidemias
que assolam a população
como se fôssemos vermes.
Mas não morremos.
Sobrevivemos
ao próprio tempo.
No meio da multidão
no Paço
Imperial,
na estação Central,
eu juro
eu confesso
que me perco.
Sou ninguém,

mas tenho o coração aceso.


Rio de Janeiro, 18 de abril 1997
👁️ 949

O Sono

Sob o azul escurecendo
e as nuvens que correm o ar
como se fossem finalmente
voltar
à casa
a tarde no Rio
passa rápida
levando do dia
o que ele teve de fácil e claro.
Numa janela,
dentro de um quarto
(vamos dizer, em Botafogo
ou no Leblon
de frente ao mar),
alheios à tarde que se faz rosa e ouro,
dois corpos dormem
um sobre o outro,
no descanso
depois do amor.
(Esse ato gera novos corpos).
Um corpo sobre outro
carne sobre carne
ossos sobre ossos
no sono
que é prenúncio da morte.
Um dia estaremos mortos,
mas por enquanto
estamos aqui
estamos aqui, presentes
e o mundo é ainda nosso.


Rio de Janeiro, 8 de abril 1997
👁️ 948

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