Lista de Poemas

No Aeroporto

Todas essas milhares de pessoas
merecem amor e respeito.
Estamos todos tentando viver
da melhor maneira que sabemos.
Estamos todos querendo ser felizes.
Somos a flor da terra,
a coisa mais doce do planeta.
Sou eu e cada uma delas.


São Paulo, abril 1998
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New York City, Meio-Dia

Vestido num saco de lixo
negro, um menino negro
pede esmola -- e é bonito.

Uma jovem de patins passa
por mim e esbarra sua mão na minha.

Um homem me olha
e quando o surpreendo com meu olho
sustenta o olhar, sem vergonha ou medo.

Durante todo o dia quis-se revelar
uma alegria nova, mas familiar
que finalmente agora compreendo.

A de estar entre os que estão
aqui
vivendo.


Nova York, setembro 1996
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Os Antepassados

Meu tio José gostava de ficar
debruçado sobre a cerca escura da piscina
depois do jantar, ouvindo o bater da água, o coaxar dos sapos
no duplo prazer
de escutar as estrelas passando sobre a fazenda
e fazer a digestão, peidando.
Morreu de câncer nos intestinos
mas sua alma saiu pelos olhos.
Meu avô também morreu de olhos abertos
escancarados
para o teto...
o céu estrelado da sua infância,
não importa que na verdade fosse o céu cego de S. Paulo.
Aliás, São Paulo também é céu estrelado, é o reino da minha infância.
São Paulo para mim é desejo grande
de ser feliz e de voltar a ser o que se foi.
Todo lugar é lugar de esperança, todo corpo é lar
para o ser humano.
Meu avô Renato, de quem herdei o nome
e essa maneira de andar
entre inúmeras outras coisas que nem sei, além
do bem e do mal,
morreu neurastênico.
Morreu sem viajar muito pra lá de Minas...
sem conhecer
a sua bisneta, minha filha.
Morreu como eu vou morrer um dia
definido por seu espaço e seu tempo.
Morreu como morrem todos,
pleno e culpado, vazio
e completo
(ao mesmo tempo imperfeito e perfeito).
Meu tio José já morreu faz tempo,
poucas pessoas ainda tem saudades.
Meu avô morreu um pouco mais tarde.
A morte é natural
como a sombra crescente da tarde
cobrindo pouco a pouco a cidade,
escurecendo a cerca da piscina e a fazenda inteira.
Já é quase noite, depois do jantar
me retiro para o quarto a escutar as estrelas.
Estou no Rio de Janeiro
onde minha filha nasce e já é criança.
É a vida que passa, e cada um de nós, passando
empurra mais para longe, mais para o escuro
os seus antepassados.
Talvez tendo filhos nós os ajudemos de alguma forma.
Talvez assim paguemos nossas dívidas da carne.
Escuto saudoso as estrelas, o jantar me pesa no estômago,
produz gazes.
Minha filha brinca com seu corpo ainda ileso.
Já é tarde, digo, pra cama, Renata, olha o bicho-papão!
O bicho-papão viajando pelas estrelas e pela carne.


Rio de Janeiro, 13 de fevereiro 1997
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Paraíso Perdido (Ou Pré-Poema)

Nenhum de nós jamais pensaria
em partir, em despegar-se deste corpo
que nos une e nos consome. Mas todas as noites agora
acordo com a dor de ir embora.

Não mais os aromas,
a côr, o brilho
das partículas do paraíso?

Nenhum de nós, desprovidos de suas asas
gostaria de encostar na terra, decaído.
No entanto, já me acena o mundo
com seu jogo de luz e trevas.

Mas, e o amor, o verdadeiro
Amor que sustenta tudo, que me permite
estar ainda erguido sobre esta nuvem?

Desço, em desespero, com o peso do corpo
à terra da impermanência
para nela destruir o que em mim não é eterno
como o fogo se apaga com fogo
como o ferro se forja no ferro?

Pensei que já não mais desceria.
Pensei que ficaria nesta esfera
até me unir em definitivo
no mais alto círculo divino.

Mas é o meu próprio desejo
que me leva de volta ao solo,
e de novo me descubro
homem.

Pensei que aqui ficaria até a memória
de tudo que vivi antes na terra
desaparecesse da minha memória.

Mas já sinto a própria memória
com sua sede de aranha e infância
arrombar todas as portas.

Que não seja longo, ó anjos, este passeio.
Mas, ao tocar os pés no chão
já começo a andar, e em cada passo mais me esqueço.
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Fine Art

O menino de 17 anos
caminhou até mim
e conversou comigo um pouco.

Bonito, puro, doce
como eu também era doce
aos 17, e não sabia.

Amo-o
como se fosse uma pintura,
uma fotografia em preto e branco
(me seduz
uma coreografia que já não danço).

Sorrio,
enquanto ele me empurra para morte.


Nova York, maio 1996
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Cría Cuervos

Pensando em rever
Cría Cuervos, pela quarta vez,
mas pela primeira vez em dez anos,
meu coração se aperta -- e me emociono.
Não por antever a beleza do filme, ou como Saura
captura a tragédia da infância em suas cenas,
mas pelo jovem que um dia eu fui
e que deve ter morrido
numa sala de cinema.


Nova York, fevereiro 1996
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Sopro

Este corpo onde agora moro
parece estar vivo, no entanto
o corpo está sempre morto.
O que é vivo é este sopro
que se sabe dentro do corpo.
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Bacia

Banho de bacia
de metal esmaltado azul
claro como o dia
que quase-acaba,
como a asa
de uma borboleta pousada
na fruta.
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Aleijadinho

O tempo passa pelo mundo
e nós somos os ponteiros.

Aqui estou eu outra vez,
depois de muitos anos,
em Congonhas do Campo.

Os profetas
continuam olhando para o horizonte
verde mar, azul de Minas
sem sentirem nada,
maiores que a vida, calados,

absortos em si mesmos.


Nova York, julho 1996
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Ao Menos

Houve um tempo
em que comia nos melhores restaurantes
de São Paulo, Paris e Nova York.
Houve um tempo
que retirava grande prazer da leitura
e tinha orgulho da minha biblioteca.
Hoje os pratos estão quebrados,
os livros ao vento.
-- O coração cada vez mais pleno.


Rio de Janeiro, fevereiro 1998
👁️ 1 011

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