Para Uma Cruz Na Estrada

Ano: 20563
Carrego dentro de mim, esquecido
o filho dos meus pais,
o que um dia foi amado,
o que foi querido.

Acho que vindo do mar, de longe
por detrás do monte, escuto um ai:
Lá vai nosso filho
com sutilezas de menina.
Aonde ela vai
tão bem vestida?

-- Encontrar-se
com uma bala perdida.

Lá vai nosso filho
no Elevado.
Aonde ele vai
tão bem penteado?

-- Ser atropelado.

Ser negro, marginal, mendigo
travesti, bêbado, deficiente físico

caminhar ao lado da estrada
sob a tempestade
vestido num saco de lixo

e desaparecer imortalizado
entre os índices de sinistros.

(Para um dia retornar, pródigo
nos braços do Cristo).


Rio de Janeiro, 21 de janeiro 1998
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