Lista de Poemas

Cogumelos

Quando o coração se inflama
incendiado pela paixão
esse fogo não ilumina;
é como o cogumelo venenoso
que brota durante a noite úmida:
não alimenta, queima, apenas queima
o organismo, e alucina.


Nova York, setembro 1993
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À Beira do Mar, Esta Manhã

À beira do mar, esta manhã
eu fui um homem
à beira do mar.

Apenas um homem,
sem nome, sem memória:

Deus
à beira do seu mar.


Rio de Janeiro, 23 de novembro 1994
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Dentro do Mar

Dentro do mar
nós quatro
em silêncio

Onda vem e vai
dentro do mar
em silêncio

Um vem e vai
dentro do mar
em silêncio

Nós quatro
cada um quatro
cada quatro mil

em silêncio
lavando nossos passados
dentro do mar

infinito --
e o céu infinito


Cidade dos Arrecifes (Recife), 16 de novembro 1994
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A Perna

Numa esquina perto da minha casa
vive uma mendiga
de perna amputada.
Tenho vontade de beijar
a perna que falta.
Acariciar
aquele pedaço de nada.

A mão dela está queimada
e parece que foi costurada
de volta ao braço.
Com essa mão ela pede esmola.

Hoje passei por lá
e vi que a perna dela
(a outra)
estava bronzeada.

Ela é loira, ela é moça, é a flor
da perna amputada.

Me deu vontade
de entrar em seu corpo
(fragmentado)
a meio metro da calçada.

Entrar em seu corpo e ser ela,
ser a perna que falta.
Ser a falta da perna dela.
Tive vontade de amar
e ser nada.


São Paulo, 6 de agosto 1992
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Poemas

Sou ainda muito moço,
mas quando me lembro
dos tantos momentos que já vivi na minha vida
sinto que todo o passado tem sido um sonho
desaparecendo,
e quero mesmo que desapareça
e somente sobre a essência,
o supra-sumo
como cápsulas de amor preservadas em poemas.


Nova York, 23 de julho 1995
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No Meio do Caminho

Um desses momentos
em lugar nenhum...
estás à beira da estrada...
e és novamente um recém-nascido.
Nunca fizestes nada.
O bordado
da tua vida
encontra o bordado
do teu destino.
Estás calado,
caminhas
entre pedras e pedregulhos,
flores silvestres, abelhas,
e uma pequena poça d'água....

Sob o sol eterno,
alheio aos carros que passam,
diante do teu futuro,
aqui estás,
presente—
ao mesmo tempo claro e escuro.


Nova York, 11 de julho 1995
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As Horas de Amor

O Marajá Akbar
escreve em sua biografia
que durante sua vida inteira
só sentiu amor verdadeiro
por três minutos e meio.

Akbar, o rei, o imperador
não apenas de uma província
mas de um país inteiro.

Quanto tempo de amor
eu tenho vivido na minha vida?


Nova York, 28 de junho 1995
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Nas Cidades

Chove friamente
na cidade.
O anjo com as asas encharcadas
caminha a esmo,
deprimido.
Falta-lhe algo!

O anjo se masturba
depois escuta Mozart,
esquecido.


Nova York, setembro 1996
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A Devi Coberta

No MET vi a imagem de uma deusa
coberta para reforma, mas apesar da lona
disforme sobre o seu torso,
(na minha retina interior)
eu pude ver seu rosto.
Tudo o que é verdadeiramente divino
não pode ser escondido --
como a luz dentro de cada um de nós
transborda pelo olho,
presa no corpo.


Nova York, 15 de novembro 1995
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Águas Além da Mente

Anseio por nadar nu
e para sempre
no lago que existe
dentro, e além
da minha própria mente.

A água deste lago
é dourada, azul.
Nela eu me torno
puro—e um.

Me lembro de uma vez estar ao lado de um lago
e sentir desejo de ser ele.
Me lembro de sentir-me excluído da natureza.

O verde, os pássaros, o sapo
parecem ser um
com o lago e o céu.
Talvez estejam para sempre submersos
nas águas de uma mente em silêncio.

Mas, e eu? No meio do caminho, entre
o pó e o êxtase, os pés e as asas.

Escrevo: Anseio pelas verdadeiras águas.


Nova York, 20 de fevereiro 1996
👁️ 983

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