Lista de Poemas

As Veias

O mesmo sangue que corre em minhas veias
já correram em minhas veias
em muitos outros corpos, disso tenho certeza.
Já chamei de minhas muitas veias, muitos corpos
em infindáveis línguas passadas, já mortas.
Já vivi muitas, muitas vidas... in short:
não há diferença entre um ser humano e o próximo.


Nova York, 2 de março 1996
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Pimentões Perfeitos

Num supermercado de um bairro pobre
vi uma bancada de pimentões amarelos,
ainda bons, saborosos
mas feios, amassados, alguns muito pequenos,
outros tortos,
diferentes dos pimentões plenos e perfeitos
mas encerados
dos Supermercados Eldorado.

Quando olhei para as pessoas notei
que são como os pimentões que comem.


São Paulo, 2 de outubro 1992
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Sombras

Comprei uma biografia de Joan Miró
com algumas fotografias velhas, uma delas
mostra o pintor-poeta no fundo de um bar
bebendo, admirando La Chunga dançar. A foto
é escura e os dois parecem mortos.
É difícil acreditar que isso realmente aconteceu, a sombra
de toda história mais parece um sonho.


Nova York, 29 de maio 1995
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História

Ontem revi o livro História do Brasil
que quando menino estudei no ginásio.
Havia uma foto da família real: Dom Pedro II,
a Princesa Isabel, o Conde D'Eu. Essas pessoas
realmente existiram, um dia, e hoje estão mortas.

A noite, relendo Orlando Furioso
pensei nesse jovem Roland, morto
em 778, numa emboscada basca
contra os francos de Carlos Magno.
Esse anônimo Roland, que sem suspeitar
inspirou a Chanson, o Innamorato, o Furioso.

Hoje estou aqui, sob a luz, mas a vida
com suas razões fugidias, é arisca, e já
(sorrateiramente) a sombra se aproxima.


Virgínia, 9 de maio 1995
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O Anjo Na Calçada

Douradas, rosas, azuis

na calçada
duas pétalas de flor
como asas,

borboleta
crucificada
Boston, setembro 1990
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Cupido

Quando te vi
deixei cair minhas asas.

Caí como uma pluma
de pedra.

Flecha

presa na carne.


Nova York, maio 1994
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A Mão

...
depois
o ardor do corpo se faz demasiado
e não queremos mais o gozo
e sim
somente o delicado
acariciar de nossos corpos
abandonados

por esta mão

(qual?)

que nos acariciava
enquanto nos acariciávamos.
Roma, abril 1991
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O Sorriso

-- Mostre os dentes,
sorria
(eu digo a ela)
e ela sorri.

Estudo nos seus lábios
esse delicado,
sublime mecanismo:

(entre músculos e dentes
devagar,
novamente)

-- o sorriso.


Turim, maio 1991
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Vislumbre

O instante, ínfimo, que separa
o sono da vigília;
o momento em que o sino se cala
(quando?)
no átrio de um templo;
o espaço
entre uma palavra
e outra:
O que se esconde por trás de tudo,
o que sempre se mascara
-- Sorri
(como todos os dias
o sol abre
sua cortina sobre o nada).


Bombaim, novembro 1991
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Sobre o Mar

Lixo; gato morto, jornal velho
tudo isso encontramos
misturados à areia
da praia onde pensamos
seria fácil nos amar

Apesar da sujeira
nos deitamos
(como se flutuássemos
sobre o mar)


Boston, setembro 1990
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