Lista de Poemas

Os Anjos

Um anjo desce e estende
o pequeno braço branco para mim:
--- Venha comigo
passar dez minutos no paraíso.

--- Não, eu digo,
não sou desses que têm tempo
para passear no paraíso.

Mas o anjo é misericordioso.
Sem perceber cochilo,
e por dez minutos sonho
com todas as cores do paraíso.


Boston, maio 1991
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Sobre a Terra

Esquecidos de nossas asas, nos amamos
perdidos no fundo do céu.
Fechamos os olhos e nos beijamos.
(O sol longe, longe, perdido
na cúpula do azul infinito)
Somos os anjos caídos
e se faz noite sobre a Terra.


Nova Iorque, maio 1994
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Andaluza

A janela de serviço do pequeno apartamento
de Granada, onde morava com minha família
(eu, meu marido, três filhos, a empregada)
era também pequena, mas dava
para a rua ensolarada: as copas das árvores
das alamedas de Granada, e a vida, que passava
(sempre!) longe e iluminada.


Nova York, setembro 1995
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Ao Redor do Fogo

O fogo consome
a madeira
na lareira ardente.
Enquanto um outro fogo
chamado tempo
nos consome
-- mais lentamente.


Nova Jersey, fevereiro 1996
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A Boca

Quando, deitada na cama, me inclino
para beijar
suspirando
minha almofada;
o quê, quem, que boca
(delicadamente
delicadamente beijada)
estou beijando?


Boston, novembro 1990
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Piazza San Marco

Gerações de homens
de pombas
de gôndolas

no entanto o ar está fresco
e como se pela primeira vez
o sol nasce
Veneza, julho 1984 --


São Paulo, abril 1996
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O Outro

Por um segundo, nos olhos do outro
vejo o reflexo do meu próprio susto,
e o espelho do meu verdadeiro rosto.


Nova York, julho 1994
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Mito

Para viver o homem é preciso
Refazer a Beleza e o Amor.
A Beleza é mito; e o Amor, mito.
Reescrever a palavra, o mito.
O homem se debate dentro do mito:
Por você, poesia, eu sinto
O ódio maior, mais bonito.
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Os Dias

Sobre a estante de madeira
um lenço bordado por um antepassado;
sobre esse delicado trabalho
um copo de plástico:
vaso
para flores amarelas
como astros no espaço.
Assim --
passam os dias.


Boston, setembro 1990
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Ato

O pintor avança
A mão na madeira:
Pinta uma rosa.

O poeta escreve:
Rosa vermelha,
Rosa branca.

A rosa é um símbolo
Ou pode ser um símbolo
Ou uma rosa.

O pintor se cansa
De se misturar ao mito
Ao criar.

Reflete na arte,
Com o lápis preto
Risca a rosa pintada.

O poeta pesquisa
Sua palavra na arte,
Na história.

Depois recomeçam,
O coração em pânico,
Para o desconhecido.
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