Escritas

Lista de Poemas

Ensaio

Deitado na cama, sozinho, escrevo
porque escrever
é a única coisa que me dá prazer:

Penso em morrer.
Em acercar-me de ti, Deus, humildemente:
Senhor, já cumpri 32 anos
e a minha vida está completa.
Não quero ser poeta nem santo,
deixa-me partir.

Mas não se morre quando se quer
e sim quando se pode.
Deitado na cama, olhos fechados
ensaio a minha morte.


Nova York, 10 de março 1996
👁️ 897

As Veias

O mesmo sangue que corre em minhas veias
já correram em minhas veias
em muitos outros corpos, disso tenho certeza.
Já chamei de minhas muitas veias, muitos corpos
em infindáveis línguas passadas, já mortas.
Já vivi muitas, muitas vidas... in short:
não há diferença entre um ser humano e o próximo.


Nova York, 2 de março 1996
👁️ 989

Águas Além da Mente

Anseio por nadar nu
e para sempre
no lago que existe
dentro, e além
da minha própria mente.

A água deste lago
é dourada, azul.
Nela eu me torno
puro—e um.

Me lembro de uma vez estar ao lado de um lago
e sentir desejo de ser ele.
Me lembro de sentir-me excluído da natureza.

O verde, os pássaros, o sapo
parecem ser um
com o lago e o céu.
Talvez estejam para sempre submersos
nas águas de uma mente em silêncio.

Mas, e eu? No meio do caminho, entre
o pó e o êxtase, os pés e as asas.

Escrevo: Anseio pelas verdadeiras águas.


Nova York, 20 de fevereiro 1996
👁️ 924

As Horas de Amor

O Marajá Akbar
escreve em sua biografia
que durante sua vida inteira
só sentiu amor verdadeiro
por três minutos e meio.

Akbar, o rei, o imperador
não apenas de uma província
mas de um país inteiro.

Quanto tempo de amor
eu tenho vivido na minha vida?


Nova York, 28 de junho 1995
👁️ 914

O Elo Perdido

Porque eu sabia que havia um poema escondido ali
li um artigo inteiro no National Geographic
sobre arqueologia.
Na Etiópia, ingleses e nativos
descobriram ainda mais antigos restos de hominídios
que os famosos vestígios de Lucy.
Dentes
e ossos de um indivíduo, que certamente
não se considerava indivíduo, mas vagamente
sentia ser parte indivisível de um todo.
Talvez esse sentimento seja o elo perdido.


Nova York, 3 de março 1996
👁️ 691

Sombras

Comprei uma biografia de Joan Miró
com algumas fotografias velhas, uma delas
mostra o pintor-poeta no fundo de um bar
bebendo, admirando La Chunga dançar. A foto
é escura e os dois parecem mortos.
É difícil acreditar que isso realmente aconteceu, a sombra
de toda história mais parece um sonho.


Nova York, 29 de maio 1995
👁️ 858

Depois do Banquete

Sobre a mesa fica
o que sobrou da efêmera alegria:
uma garrafa de vinho quase vazia
alguns vestígios de comida já não apetecível
e o último pedaço de pão,
esquecido:
cotovelo de anjo.


Salamanca, julho 1988
👁️ 853

Aroma

a S.M.A.


Atravesso o jardim, mas páro
para cheirar as flores.
Logo não sentirei perfume algum
porque estarei morto --
ainda estarei neste jardim
mas não terei um corpo.


Nova York, 12 de julho 1996
👁️ 1 088

O Sorriso

-- Mostre os dentes,
sorria
(eu digo a ela)
e ela sorri.

Estudo nos seus lábios
esse delicado,
sublime mecanismo:

(entre músculos e dentes
devagar,
novamente)

-- o sorriso.


Turim, maio 1991
👁️ 1 002

Mulher

a A.L.A.


A mulher, nua
diante do espelho.

Eis, no meio da vida
o prazer verdadeiro.

Em círculo beija
a própria ferida,
o próprio seio.


Cambridge, maio 1989
👁️ 665

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