Citações

Citações para inspirar e refletir

Karl Kraus

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Que confusão mitológica é essa, afinal? Desde quando Marte é o deus do comércio e Mercúrio o deus da guerra?
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Um esnobe não é confiável. A obra que ele elogia pode ser boa.
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Um bom estilista deve sentir o prazer de um Narciso durante seu trabalho. Ele deve ser capaz de objetivar sua obra de tal maneira que se surpreenda com um sentimento de inveja e somente pela memória se aperceba que ele próprio é o criador. Em suma, ele deve dar provas daquela objetividade suprema que o mundo chama de vaidade.
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O elmo prussiano é mais cultivado do que o cossaco; este, porém, não vive tão longe de Dostoievski quanto aquele de Goethe.
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O valor da formação se revela da maneira mais nítida quando as pessoas cultas tomam a palavra para falar de um problema que se encontra fora do campo de sua formação.
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A natureza adverte para refletirmos sobre uma vida que se apoia sobre trivialidades. Uma insatisfação cósmica se manifesta por toda parte; neves estivais e calores invernais protestam contra o materialismo que transforma a existência num leito de Procusto, trata doenças psíquicas como se fossem dores de barriga e gostaria de desfigurar a face da natureza onde quer que perceba suas feições: na natureza, na mulher e no artista. Um mundo que suportaria seu ocaso desde que não fosse impedido de ver sua exibição cinematográfica não pode ser atemorizado com o incompreensível. Eu, porém, tomo facilmente um terremoto como protesto contra as conquistas do progresso e não duvido por um instante da possibilidade de que um excesso de estupidez humana possa indignar os elementos.
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O imitador segue os passos do original e espera que em algum momento o segredo da originalidade lhe seja revelado. Porém, quanto mais se aproxima dele, tanto mais se afasta da possibilidade de aproveitá-lo.
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Posso provar que os alemães são mesmo o povo dos poetas e dos pensadores. Tenho um volume de papel higiênico, publicado em Berlim, que em cada folha traz uma citação de um clássico apropriada à situação.
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É com razão que sempre se afirma nas reflexões sobre cultura e guerra que os utilitários são os outros. Essa concepção provém do idealismo alemão, que também transfigurou os gêneros alimentícios e os laxantes.
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Não há, então, nada a fazer contra o erro de impressão que sempre transforma uma erudição estúpida em estupenda?
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Uma formação universal é uma farmácia bem provida, porém não há qualquer garantia de que não venda cianureto de potássio para tratar um resfriado.
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Não há volúpia que se aproxime da euforia da criação intelectual, e não há tristeza que se compare ao estado em que o artista mergulha depois de concluída a obra. A segurança da inconsciência cria sempre a sua primeira obra e, por isso, sempre a melhor. Uma vez consumada, a insegurança da consciência vê que é a última e, por isso, a pior. Qualquer crítica leviana impressiona semelhante desânimo. Um juízo capaz de acompanhar a criação artística apenas na sobriedade e não no gozo é uma verdadeira maldição. Nada sabem da volúpia aqueles que apenas sabem que ela precede a tristeza.
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Compreender uma visão de mundo com um só olhar é arte. Porém, quanto não cabe num olho!
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Entre a língua e a guerra podemos constatar aproximadamente a seguinte relação: aquela língua que mais estiver enrijecida sob a forma de chavões também será responsável pela tendência e pela disposição para substituir a substância por um sucedâneo de entonação; com convicção, a achar irrepreensível em si própria tudo aquilo que no outro apenas provoca censura; a desmascarar com indignação aquilo que também se gosta de fazer; a enredar qualquer dúvida num matagal de frases e a repelir sem esforço, como um ataque inimigo, qualquer suspeita de que alguma coisa não esteja em ordem. Essa é sobretudo a qualidade de uma língua que hoje se parece com aquele produto acabado cuja venda constitui o conteúdo da vida de seus falantes; ela brilha como uma auréola e tem apenas a alma óbvia do homem de bem que não tem tempo de cometer uma maldade porque sua vida se limita aos negócios e, caso não seja suficiente, deixa uma conta em aberto.
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O trabalho intelectual se parece tanto com o ato da volúpia que nele também obedecemos, de maneira involuntária, à convenção da vida sexual. Agimos discretamente, e quando recebemos a visita de uma mulher durante o trabalho, não a deixamos entrar para evitar um encontro embaraçoso. O filisteu se ocupa com uma mulher, o artista corteja uma obra.
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A tarefa da religião: consolar a humanidade que se dirige ao patíbulo; a tarefa da política: tirar seu gosto pela vida; a tarefa do humanitarismo: abreviar seu tormento e envenenar logo de uma vez a sua última refeição.
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Contra a acusação de que soldados alemães cortam pés de crianças a golpes de machado, jornalistas alemães apelam ao fato de esse povo ter produzido Lutero, Beethoven e Kant. Mas em relação a isso, esse povo é pelo menos tão inocente quanto em relação às atrocidades que lhe são atribuídas, e seria mais eficaz, contra tais acusações, apelar aos espíritos que a Alemanha ainda quer produzir no futuro. Se chegamos ao ponto de julgar que a pátria não exige de seus gênios outros serviços que de seus lenhadores, e se aqueles, por um acaso mortal, podem ser dispensados da oportunidade de lhe prestar outros serviços voluntariamente, então por certo não surgirá mais gênio algum. As façanhas intelectuais de Lutero, Beethoven e Kant, apesar de tudo o que a cultura alemã sabe a respeito e a ideologia alemã nelas inclui, não têm qualquer ligação com um estado do qual hoje, ao nível pessoal, talvez apenas se libertassem graças ao ofício sacerdotal, à surdez e a uma deformação da coluna vertebral.
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Os alemães também se denominam o povo de Schopenhauer, enquanto Schopenhauer era tão modesto que não se considerava o pensador dos alemães.
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Numa cabeça oca cabe muito conhecimento.
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No que se refere às invenções da pólvora e da tinta de impressão, deveríamos admitir sobretudo a importância que sua simultaneidade tem para a humanidade.
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Ter talento — ser um talento: essas coisas sempre são confundidas.
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A ciência antiga não reconhecia o impulso sexual nos adultos. A ciência moderna admite que já o lactente tenha sensações voluptuosas ao evacuar. A concepção antiga era melhor. Pois pelo menos era contradita por determinadas declarações dos envolvidos.
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Quando a estupidez se manifesta numa cidade, deve-se declará-la contaminada. E nenhum caso deve ser ocultado. Com que facilidade pode acontecer que um imbecil frequente uma casa em que haja crianças! Nessas épocas, recomenda-se o fechamento das escolas e não, como se poderia pensar, a sua abertura.
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Não se deveria abolir a vara, e sim o professor que a emprega mal. A reforma ginasial, como todo remendo humanitário, é uma vitória sobre a imaginação. Os mesmos professores que até então não eram capazes de chegar a um juízo com a ajuda do catálogo, agora terão de mergulhar carinhosamente na individualidade do estudante. O humanitarismo eliminou o pesadelo do medo de ser “chamado à frente”, mas a vida estudantil sem perigos será mais insuportável do que a perigosa. Entre “excelente” e “absolutamente insatisfatório” havia um espaço para experiências românticas. Eu não gostaria de secar de minha memória o suor pelos troféus da infância. Juntamente com o aguilhão, também desaparece o estímulo. O ginasiano vive sem ambição como um filósofo sorridente e entra despreparado no arrivismo da vida que no passado seu caráter antecipava inofensivamente como o corpo vacinado antecipava a varíola. Ele experimentava todos os perigos da vida, chegando à beira do suicídio. Em vez de banir os professores que fazem a brincadeira dos perigos se transformar em coisa séria, prescreve-se a seriedade da vida sossegada. Antes os alunos vivenciavam a escola, agora devem se deixar formar por ela. A beleza é banida juntamente com os calafrios, e o espírito jovem se encontra diante da parede caiada de um céu protestante. Os suicídios de estudantes motivados pela estupidez de pais e professores irão cessar, e como motivo legítimo restará o tédio.
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Os psicólogos modernos afirmam que tudo pode ser atribuído a causas sexuais. Seu método, por exemplo, poderia ser definido como erotismo de confessionário.
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Na cidade de Echternach, em Luxemburgo, ainda hoje ocorrem as chamadas procissões pulantes. Pelo fato de no passado os animais terem sido acometidos de tarantulismo, os camponeses locais fizeram o voto de pular em honra de São Willibrord em lugar dos animais. Hoje, nem as pessoas nem o gado conhecem mais a origem da singular cerimônia, mas aquelas lhe permanecem fiéis, e se a força do hábito continuar a se afirmar entre os habitantes de Echternach, talvez chegue novamente o dia em que o gado pule em honra de São Willibrord. Por ocasião do Pentecostes, ainda hoje cerca de 15 mil pessoas dão “três pulos para a frente e dois para trás”. O clero não salta junto, mas assiste. O espetáculo não o agrada inteiramente; ele preferiria que fossem dois pulos para a frente e três para trás.
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O desenvolvimento técnico deixará apenas um problema: a caducidade da natureza humana.
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As revistas humorísticas são uma prova de que o filisteu não tem humor. Elas fazem parte da seriedade da vida como a bebida faz parte da refeição. “Dê-me todas as revistas humorísticas!”, ordena um idiota cheio de preocupações ao garçom, e se atormenta para que um sorriso apareça em seu rosto. O humor que ele não tem deve lhe chegar de todos os cantos da vida cotidiana, e ele desdenharia inclusive a caixa de fósforos que não trouxesse uma piada em seu rótulo. Li numa delas: “Aprendiz de ofício (que comprou uma linguiça casualmente enrolada num poema): Muito bem! Primeiro vou comer a linguiça para alimentar o corpo e depois leio o poema para alimentar o espírito!”. Coisas assim alegram o filisteu, e ele nem sequer percebe o método do aprendiz de ofício como uma indireta.
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O psiquiatra sempre reconhece os loucos pelo fato de exibirem um comportamento agitado após a internação.
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(Leitura escolar.) Entrei num restaurante. Todas as mesas estavam ocupadas. Numa delas havia só uma pessoa. Tomei assento. Chega uma família, pai, mãe e filha. A filha cutuca a mãe, esta cutuca o pai. O pai não entende. A filha anota num papel. O pai olha apavorado para meu vizinho e pega um jornal. Depois de um momento, meu vizinho vai embora. O pai o acompanha com o olhar e diz triunfante: “Não fiz cerimônias e li o Neue Presse na frente dele, ele se enfureceu e se foi!”. A filha cutucou a mãe, esta cutucou o pai. O orco se abriu e fui embora discretamente.
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O jogo infantil “ nós brincamos de guerra mundial” é ainda mais desolador do que a realidade “ nós brincamos de criança”. Seria desejável a essa humanidade que suas crianças de colo começassem a matar com êxito as outras de fome e acabassem com a clientela das amas de leite.
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O bicho-papão é um recurso pedagógico imprescindível na vida familiar alemã. Quanto aos adultos, são intimidados com a ameaça de que o psiquiatra virá buscá-los.
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A convicção austríaca de que “nada pode te acontecer” chega ao ponto de um homem se decidir a quebrar uma perna por estar segurado contra acidentes.
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Por meio de seus fiascos políticos, a Áustria conseguiu chamar a atenção do grande mundo e finalmente não ser mais confundida com a Austrália.
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Quando um sacerdote declara repentinamente que não acredita no paraíso e que jamais desmentirá essa declaração, a imprensa liberal, cujos redatores, como se sabe, também não se deixam privar de suas crenças a preço nenhum, se entusiasma. No entanto, um editor papal não divinizaria imediatamente um funcionário que tivesse a ideia de confessar diante dos leitores que acredita no paraíso? Eis a visão mais repulsiva que a modernidade oferece: um sacerdote possuído pela razão cercado por vira-latas da imprensa a latir e para os quais ele joga a costela de Adão.
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A ciência não atravessa os abismos do pensamento, apenas se encontra diante deles sob a forma de uma placa de advertência. Os infratores agem por sua própria conta e risco.
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Para mim é um enigma que se possa elogiar um teólogo porque ele conseguiu se decidir a não acreditar nos dogmas. Sempre me pareceu que merecia verdadeiro reconhecimento, como se fosse um ato heroico, a realização daqueles que se decidiram a acreditar neles.
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A diferença entre psiquiatras e outros doentes mentais corresponde aproximadamente à relação entre loucura convexa e côncava.
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Um aprendiz de feiticeiro parece ter se aproveitado da ausência do mestre. Só que em vez de água corre sangue.
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Os neurologistas que patologizam o gênio merecem que lhes partamos o crânio com suas Obras Completas. Não devemos agir diferente com os defensores da humanidade que deploram a vivissecção em cobaias e permitem a utilização de obras de arte para fins experimentais. Sempre que consigamos agarrá-los, chutemos a cara de todos que se dispõem a provar que a imortalidade deve ser atribuída à paranoia, de todos os ajudantes racionalistas da humanidade normal que a tranquilizam por não ter inclinações para obras do engenho e da imaginação. Shakespeare louco? Então a humanidade se ajoelha e, com medo de sua saúde, implora ao Criador por mais loucura!
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O jornalismo serve apenas aparentemente ao tempo atual. Na verdade, ele destrói a sensibilidade intelectual da posteridade.
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Com meus horizontes estreitos, não li certa vez um jornal com as seguintes manchetes: As negociações secretas entre a Áustria, a França e a Itália em 1869. — O movimento reformista na Pérsia. — A nomeação do chefe do ministério croata. — A Sublime Porta contra o arcebispo de Monastir... Depois de não ter lido esse jornal, senti meus horizontes se ampliarem um pouco.
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Vós, oh deuses, sois propriedade do comerciante!
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O barbeiro conta novidades quando deveria apenas cortar o cabelo. O jornalista é espirituoso quando deveria apenas contar novidades. Dois sujeitos que querem subir na vida.
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Quando se pensa que a mesma conquista técnica serviu à Crítica da razão pura e a uma reportagem sobre a viagem da Sociedade Vienense de Canto Coral, toda discórdia abandona nosso peito e louvamos a onipotência do Criador.
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Quando alguém está diante do tribunal, não há certamente nenhum fato da chamada vida pregressa com o qual não se poderia produzir instantaneamente uma “impressão desfavorável” e proporcionar aquele “movimento” registrado na ata da sala de audiências. Não é de se acreditar como os delitos realmente se aglomeram em torno de um homem que alguma vez se meteu com algum deles! Aquilo que se dividiu ao longo de quarenta anos, quando projetado no lapso de tempo de uma audiência, age como uma ilustração viva; aquilo que passou pela peneira do tempo, obtém uma atualidade reforçada, como se tivesse acontecido durante a prisão preventiva. O passado não ilumina apenas o ato, com o qual nada tem a ver, mas também é iluminado por ele, e o caráter do réu é sempre contemplado de dois lados. Esse é o método que se adapta convenientemente ao pensamento não perspectivo das cabeças julgadoras medianas. Ele significa sentar o banco dos réus na cabeça de um homem perdido.
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Considero a política uma maneira pelo menos tão excelente de liquidar a seriedade da vida quanto o jogo de baralho, e visto que há homens que vivem de jogar baralho, o político profissional é um fenômeno perfeitamente compreensível. Tanto mais que ele sempre ganha às custas daqueles que não tomam parte no jogo. Mas está correto que o palpiteiro político pague as contas, já que a observação paciente constitui o conteúdo de sua vida. Se não houvesse política, o cidadão teria apenas a sua vida interior, ou seja, nada que pudesse ocupá-lo.
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“Mais vale suportar os males que temos do que ir em busca de males desconhecidos.” Só não entendo como a justificação da forma monárquica de Estado possa chegar ao entusiasmo.
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