Ano: 20620
Entre a língua e a guerra podemos constatar aproximadamente a seguinte relação: aquela língua que mais estiver enrijecida sob a forma de chavões também será responsável pela tendência e pela disposição para substituir a substância por um sucedâneo de entonação; com convicção, a achar irrepreensível em si própria tudo aquilo que no outro apenas provoca censura; a desmascarar com indignação aquilo que também se gosta de fazer; a enredar qualquer dúvida num matagal de frases e a repelir sem esforço, como um ataque inimigo, qualquer suspeita de que alguma coisa não esteja em ordem. Essa é sobretudo a qualidade de uma língua que hoje se parece com aquele produto acabado cuja venda constitui o conteúdo da vida de seus falantes; ela brilha como uma auréola e tem apenas a alma óbvia do homem de bem que não tem tempo de cometer uma maldade porque sua vida se limita aos negócios e, caso não seja suficiente, deixa uma conta em aberto.