Escritas

Lista de Poemas

retorno

Chegará o dia em que se encerrarão na terra rude os nossos olhos,
E assim, com eles, todas as despedidas, lamentos, e demais belezas
Que outrora os compuseram e magoaram.
Chegará o dia.

Será tudo, enfim, em este dia repentino,
Qualquer coisa como um quisto intervalo na fúria da serpente,
Alguma calma, algum repouso à pobre alma humana já dorida de infinito;
Um enlace vago e acolhedor por parte da distante mãe andrógina,
Que por átimos oferece-nos – em conluio com as estrelas –
A breve possibilidade de tatear o lar
A que enfim tornamos todos
– Nós, estrelas cadentes que se delongam ao leito derradeiro da terra.

Chegará o dia.
E enfim dispersos, seremos mais.
Não nos romperão as formas e contornos:
Desceremos e ascenderemos pelo vácuo e pelo vento,
Resvalando nossas inscientes fagulhas
Por sobre as coisas todas que também seremos
Quando formos nada.

Chegará um dia, e haverá de todos os olhos resquícios, no universo;
Refletindo a quem os fite
Com a intenção de se fazer poesia,
Visões e prantos fecundos da pérfida maravilha da existência.
– Será, de fato, a despedida, uma rocha; De fato, o lamento, um bicho;
De fato, a beleza, uma flor; música ao acaso dentre os lumes ancestrais.

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matriosca

Como a todos que tateiam os beirais do abismo ocorre,
A mim também chegou a hora de vê-lo por de dentro,
E despenquei subitamente pelas umbrosas profundezas,
Cada instante mais distante do trajeto infindo
Sem passado, sem presente e sem futuro,
Por onde meus passos cansados se arrastavam.

Distancio-me de tudo.
Perde-se-me a luz do Sol real.
E em cada fundo a que minha alma desce,
Sob uma delirante opressão lúgubre,
Só o que existe é o prelúdio de um novo abismo constelado de angústias,
E a náusea de saber do meu desconhecimento
Acerca de em qual estância de mim mesmo me deixei.

Desintegrado do trajeto,
Mergulho na incerteza, debruçado
Na áspera solidão
Qual se dá cerceada em si.

Bem sei que um dia tive pálpebras leves,
Bem sei que um dia meus olhos foram atentos em vigílias e azuis como venezianas
De um lar gentil, que se abrem
Para que se espie a maravilha do mundo,
Cerradas somente em prol de descanso noturno,
Quando a maravilha do mundo dá espaço à maravilha do sonho.
Bem sei...

Bem sei que antes de ciscar ao báratro meus olhos não tinham chumbo nos sonhos,
Me não sentia alheio à paisagem diurna,
E havia notas musicais em cada gesto inaudível,
E não havia vinhas de desencanto me murchando as flores,
E era tudo límpido e a aspereza um reles mau bocado de sonho.
Mal bem sei...

Tenho grandes emaranhados de sensações,
Sonho que sonho dentro de um sonho,
Miseravelmente desperto,
Sentindo na carne o esfacelamento de meu coração palpitante
Ante a realidade desvirtuada e sem propósito,
E, ora dividido entre instantes que se ferem no mesmo tecido triste das horas,
Ora pouco sei se vivo,
Ou se parto para os domínios do não-ser.

(Ah, mas quão afáveis eram as mãos da finada avó de minha infância,
Por sobre meus cabelos puros de menino,
Como uma bênção sem malmequeres!...)

Quantas adagas férreas pesadamente sobrepostas às minhas pálpebras semicerradas...
E vejo pela metade, bem como existo pela metade,
Sem porém deixar de sonhar e sentir integralmente,
– E como me punge a falta de respaldo em vivência às minhas sensações,
Desterradas como crianças a que lhe tomassem os berços quentes em uma noite fria.

Indigesto do cansaço de tanto despencar,
Ao sabor da náusea de não encontrar consolo em quebrar-me ou acalmar-me,
Que me resta senão assistir à cinemática de todas as incompletudes
Que de mim me fiz?
Que me resta senão deixar que cessem os olhos chumbados pelo desgosto
E assistir, de dentro da minha cabeça,
Aos nulos quadros que em hipóteses me foram dados a colorir,
E não obstante, em gestos covardes, os rasguei com meu desprezo?
Que me resta senão chorar sem lágrimas,
No esforço fisicamente dorido da garganta seca,
As borboletas da minha alma que assassinei enquanto casulos?
Que mais posso fazer, dado que está tudo partido,
Senão esfolar as mãos nas ruínas dos lugares que amei e destruí?
Que me resta, piedade, que me resta, ó espasmo, que me resta desengano?
Como hei de resfolegar desta amargura
Se mesmo a superfície e a ideia de se chegar nela me sufocam?

(Mas dentre os escombros de todas as pragas,
Uma criança resiste.
Uma criança precedente ao abismo.
Uma criança com um lírio ao peito.
Uma criança de olhos acesos
Que a tudo espreita com as faces sujas e calmas e me fere de ternuras.
Que de mim, criança?...
Quem és tu para que eu a viva?...)

Grande vacuidade de todas as coisas, diz-me,
Em qual sarjeta ou fundo de garrafa
Abandonei a substância da sua maravilha?
À qual acalanto pernicioso deixei que adormecessem as minhas aspirações humanas?
Em qual verso que não escrevi por não poder conceber, não deixei escrita, inconscientemente, como tinta que se esgotasse,
A grande epifania da minha vida vazia?
Em qual dessas quedas? Em qual dessas estradas, onde?...

(Quantos ecos de quantos me amaram me cingem!
E quantos abraços eu já recebi nos confins da minha mentira desgrenhada!
Quantos estilhaços eu já abracei e remendei parcialmente com as agulhas e linhas do meu descontentamento!
Mas quanto, quanto, não fiz de seus dóceis tecidos, quando em mãos, depósitos de meu escarro...)

Estou lúcido e louco e ranjo os dentes e sinto frio.
Seria isto um prenúncio de morte?
Seria esta passagem entre tais portões obscuros a minha última obra?
Seria este microcosmo de sensações a amálgama da minha sujeira?
Ah, pudera tudo isto ser a nulificação de tudo!
Um tédio cardíaco de um coração que, tendo aprendido a pensar, cessasse de repente, como um dia profetizou o escrivão misantropo.
Antes fosse qualquer coisa, antes fosse um monturo ou espólio,
Que este meio vazio de se sonhar meio-morto sonhos vivíssimos, ou viver meio-vivo sonhos mortíssimos, alternadamente.

Não houvesse nesta queda uma ânsia que fugisse das despetaladas possibilidades,
E ansiasse pela consolidação do absurdo.
Não houvesse esta centelha no pensamento doloroso
Que, estando aquém da queda ou do pouso,
Do sonho ou do despertar,
Da vida ou da morte,
Procura por qualquer coisa que se não possa ver do fundo si,
Tendo por defronte a estrada perdida que é um nada abstrato,
Por detrás, a estrada absolutamente perdida que é um nada inconveniente,
E por dentro todas as estradas fundidas em labirintos decadentes e sem sinalização,
Absurdas,
Estúpidas,
E ainda assim, absurda e estupidamente mais que nada.

(Mas, e a criança?...
Ela brinca ainda com as borboletas,
Nos recantos mornos das ruínas...
Que criança?... Como pode?...
Onde?...
Pudesse eu descobrir onde se albergou,
Pudesse eu compreender como por ela sinto
Neste momento em que me esqueço...)

Expurgo de minha alma, ao menos, nestas linhas degeneradas,
O retrato escarrado dado pela boca do meu penar sem convalescência.
Se pouco, me resta o sabor deste desconhecimento para fazer cirandas mentais.
E a minha própria poesia para rodopiar no ar da eternidade vácua de onde me quedo vagarosamente,
Iluminando estas constelações pobres com as pontuações apoteóticas
De todos os meus tédios e lamentos falsos.

(Amigos esvaídos pelas ampulhetas trincadas,
Que melancolia é vê-los metamorfoseados em retratos opacos...
Mas que grande humanidade me açoita em seus papéis lustrosos...)

Dentro, dentro... Tudo dentro...
Tudo absurdamente dentro de mim...
Tudo transbordando impossivelmente para dentro, sempre para dentro...
Tantos afogamentos e naufrágios,
Tantas dores saborosas como a própria vida dos meus sonhos quebrados,
Tantas desilusões iludidas na virtude da desilusão,
E a consciência da inconsciência pairando como uma mariposa por sobre a decomposição do cadáver de quem me supus.

(Entretanto, como era bonita
A moça que por mim passou em alguma dessas camadas...)

Dentro, tudo dentro, vítreo, uma redoma ao redor do meu coração,
Que, apesar de todos os pesares,
Apesar de todo o desconhecimento esmorecido que cultiva,
Insiste em querer buscar onde abandonou
A verdadeira essência de seu sangue jorrado,
Sem nem sonhar onde ou como.)

(A criança?
Mas existe?...)

E o meu caminho se estende vertiginosamente
Por tudo quanto encontro, desencontro e descaminho,
Tudo lá e nada lá ou aqui – náusea nos internos dos tecidos.

Cada canto em seu canto, calado.
Cada amor em seu laço rasgado.
Cada ser em seu espaço delimitado pelo mundo.
Cada transeunte pelas calçadas de seus caminhos quotidianos.
Cada afeto isolado em cada estilhaço da sensibilidade de cada sensível.
Cada qual em cada lugar de si,
E tudo em lugar nenhum,
Que é o lugar de tudo,
Pois que a pedregosa estrada é um caminho infindo com destino definido
Que a tudo leva no curso do tempo
Ao lugar que lhe pertence.

Mas, e eu?
Onde estou em mim
No curso destas curvas abismais?
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o córrego

Suavemente, molho as mãos no fluxo d'água
Do córrego fresco defronte aos bambuzais...
E em lentos acenos submersos, se desfaz
Toda a minha outrora intransigente e atroz mágoa.

Apanho uma haste verde que encontro caída
A um canto – tem uma pensa folha na ponta...
E eis que nela um peixe sonho – e dou-lhe tal vida,
E ao pô-lo a nadar me alegro, e o resto desmonta.

O alto Sol arde em maravilha, e sou criança,
Já me não sinto barbado e tampouco triste...
Neste momento calmo, apenas o que existe
É a água, a folha e o sonho, unidos em temperança.

E de mais nada necessito em este dia...
Basta-me o córrego fresco que me diverte,
E esta haste com folha, que em peixe se converte
Sob o olhar íntimo da minha poesia,

Que nada mais me adentra a causar qualquer dor...
Que nada mais me importa, pois nado também
Junto às formas que de mim nascem – sonhador,
Nas ondas suaves que de tal berço vêm.
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frasco (ou, dia dos namorados)

O frasco, espólio do passado,
Recende, porque nunca aberto,
Ao céu longínquo de um lar de sonho
Onde inda não fora sepultado o amor
E beijar era inda um gesto com guarida em vida.

Frasco... Perfume incógnito e impossível,
Deixado a um canto, como os corações
Que, de nunca o terem liberado,
Vão morrendo lentamente no sono de névoa vítrea
Da fragrância encarcerada.

Tantos frascos cheios e empoeirados
No recanto doloroso das prateleiras...
Tantas histórias vaporadas em perfumes
Que dançam no interno do nada dos presentes...
Oh, mas tantas ilusões tentam varrer o pó do jazigo do jamais...
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poema vazio

Mergulho no engulho do orgulho,
Desfeito às três da madrugada,
Quando o tudo de antes é nada,
E os narcisos morrem no entulho.

Mergulho e me busco e me dano,
Incapaz de singrar-me são,
A bordo do meu coração,
E no mar do tempo me fano.

Navego, naufrago, repito.
Quantas, oh, quantas embarcações
Partidas nas recordações
Das nuas agruras que fito...

Três da madrugada, dezembro.
Vou reclinado no sofá,
Viajando, entre o que há e não há,
E o que nunca houve, e o que lembro.

Saudoso, me dispo de mim,
Vejo-me nu e inteiro, quebrado
Sobre as areias, constelado
De estrelas de angústia sem fim.

Afinal, que sou senão isto?
Isto, que em si se afoga e verte,
Que em outro que é em si se perverte,
Que vejo, e me perco e me disto?

Sufocantes águas insanas,
Mãos que me afogam e me ferem,
Que me rejeitam e me querem...
Que sou senão águas profanas?

Quatro. Madrugada sem nada.
Cravada na sala de estar,
Minha alma segue a navegar
Presa em meu corpo e estagnada.

Passam as horas, logo, eu passo...
E tudo é um sagaz contratempo;
A minha alma presa no tempo
O meu corpo preso no espaço.

Mergulho no engulho do orgulho,
E o relógio sugere a aurora...
E tudo o que recebo agora
É uma angústia em lágrima, embrulho,

Por sobre os lábios ressequidos,
Que amargos ainda se franzem,
Cobrindo os meus dentes que rangem,
Saudosos de risos perdidos.

Mas tenho inda algo de vivente,
Algum resfôlego no mar...
Algum consolo, algo que dar,
Algo de belo e decadente;

Talvez o couro do navio
– A carne deste coração –,
Nas rimas que disperso em vão
Cá neste poema vazio...
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aldravias

I

A
Vaidade
Se
Concede
A
Eternidade.

II

Grilos
Folhas
Vento...
Silêncio?
Não.
Pensamento.

III

Translúcido
Palatável
Inteligível
E
Maravilhosamente
Irreal.

IV

Nada
Mais
Lúcido
Que
Ser
Lúdico.

V

Não
Será
Tudo
Um
Sonho
Lúdico?

VI

Coração
Numa
Mão,
Transcrição
Noutra
Mão.

VII

Presente
Feito
Ausente,
Passado
Feito
Presente.
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cigarros emaranhados

Este momento,
Sim, este momento,
Em que o mundo
Afasta-se ao frágil
Gozo que, anestésico,
Esfuma o tempo
Em qualquer dimensão
Alheia ao quarto escuro.

Este momento
Em que esqueço
E que me aqueço.
Este momento em que
Me beijo em ti,
Pensando beijar-te em mim.
Este momento
De profunda solidão.

Não mais que um instante,
Este pobre momento,
Pensado monumento,
Mas em plena ruína jamais vista.
Este momento
Em que nos destruímos,
E nos afagamos em nossos
Próprios estilhaços, refletidos.

Esta ferida,
Esta idealização,
Esta suposta plenitude estúpida,
Esta convulsão patética e egoística,
Este ápice, grão de areia vazio, mas quente,
Bainha do flácido espólio subsequente
Que então queda nulo
Sobre o leito frio.

Este momento,
Esta lágrima adiada,
Um elo partido da corrente inexistente.
O póstumo momento em que te vejo
Sem cor nas faces,
Despida de mim, trajada em si,
E desprezo-me em ti
Sem nem poder sonhar.

Esta hora esvaída...
Esta inquietude serena...
Esta conspurcação breve
Que permanece,
Mesmo não sendo
Nada além
De uma ilusão...
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despedida

Não digas nada. Contempla
O luzir dos olhos tristes
Em que outrora viste estrelas.

Aperta contra teu peito
A essência da despedida,
E aceita, também, o aperto.

Despede-te calmamente;
Desenlaça a sombra e a deixa
Partir pela madrugada.

E afaga teu coração,
Bem como um dia afagaste
O pranto de quem te amou.

Dorme, que a aurora não tarda.
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coisas

O eco gentil da risada,
A brisa que não significa nada...

Os sonhos mais descontentes,
As nuvens que passam indiferentes...

Conjecturas impossíveis,
O ardor ante os estilhaços plausíveis...

O bom sabor da indecência,
O desbravamento da inconsciência...

A linda flor que não amei,
A busca pungente do eu que não sei...

As noites ébrias de fome,
Uma voz que me chame pelo nome...

O vasto saber dos sábios,
O Sol que decora meus secos lábios...

O revisitar das idades,
E a lua que me mata de saudades...

Contra as costelas aperto com força
– Das mais sutis às dolorosas coisas –,
 Mesmo o que um dia me deixou insano.

Deixo que se infiltre no meu coração
– O beijo ou a dor de qualquer sensação
Que me relembre que inda vivo,

Humano.
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parafuso [prosa]

Fitei-o de soslaio dentre os demais que fixavam cantoneiras à parede. Ele, destoante, intrigou-me. Aproximei-me para examiná-lo.
                   Dava já indícios de ferrugem, que despontava em meio às pequenas sujidades que se acumulavam ao redor de sua cabeça. Cabeça que, por sinal, não ia bem, posto que a fenda encontrava-se espanada. Apesar disso, dava ainda bom aperto. Não seria ele o responsável pela hipotética queda de minha singela prateleira, e eu bem o sabia.
                   Ainda assim, impelido pelo tédio, propus-me a trocá-lo, simplesmente. Capricho estético de uma tarde vaga.
                   Então, num súbito ímpeto de boa vontade, fui-me à loja de ferragens mais próxima. Sabia bem o que eu queria. Conhecia a medida exata do que precisava: um parafuso de cinco milímetros de espessura, por trinta de comprimento, banhado a zinco e de cabeça fenda panela, de modo a combinar com os demais.
                   Paguei trinta e cinco centavos. Voltei para casa.
                   Removi, cautelosamente, de cima da prateleira, meus livros e demais bugigangas. Apanhei a chave de fenda e extraí o feioso e o colega que o auxiliava. No mesmíssimo buraco, pus o novo parafuso. Contemplei, depois, satisfeito, o novo aspecto da prateleira. Mas, tênue, senti o antigo parafuso espetar minha mão. Olhei-o.
                   O havia trocado sem qualquer pudor. Afinal, o parafuso novo fará a exata função deste velho que me não serve mais. Nada sinto por ele. Nada, pois todos os parafusos me são o mesmo. Uma única coisa, todos eles: a ideia de que servem para fixar. Assim, este pobre parafuso que arranquei de seu lugar pôde logo ser reposto por um mais novo e aprazível.
                   E por que haveria de ser diferente?
                   Nunca teve este mísero parafuso algo de idiossincrático. Nunca teve este parafuso um jeito característico com o qual ajeitava os cabelos por detrás das orelhas, casualmente. Nunca me desferiu este parafuso um sorriso com uma configuração única de dentes (tampouco me cravou a carne do pescoço com a mesma). Nunca sonhei deitado ao lado deste parafuso. Nunca ouvi seus segredos, ou segredei-lhe a minha própria intimidade. Nunca tive, em meus lábios tristes, o sabor de sua mágoa. Nunca o tive enquanto em pranto, nos meus braços, em uma tarde qualquer de maio (tampouco fui eu a causa deste pranto suposto). Nunca me foi ele senão uma utilidade sem alma, substituível, descartável, barata, esquecível. Nunca me poderia deixar um espaço vazio na parede, pois posso comprá-lo a qualquer momento na loja de ferragens, pela bagatela de trinta e cinco centavos.
                   Um parafusinho de merda. Sujo. Feio. Nada.
                   E numa comoção repentina e exagerada, envergonho-me e enraiveço-me ao divagar acerca das vezes que pensei, porcamente, que eram não mais que parafusos em minha vida as vivalmas com as quais partilhei de tudo quanto é ausente nas coisas substituíveis.
                   Vivalmas! Cabelos, dentes, sonhos, mágoas, amores... Vivalmas! Removi-as...
                   Mas a elas não há peça de reposição.
                   O vazio do espaço onde um dia se encaixaram me permanece vazio, a despeito de outras peças análogas com quais tentei compensá-las, sem nunca obter, porém, senão novos espaços cravados em lugares distintos.
                   O que restou: buracos impreenchíveis em minhas paredes internas.
                   E a ausência dói eternamente.
                   E os buraquinhos perenes me fazem frouxo.
                   E eu, ridículo, sujo, encrostado de ferrugem na alma, fico olhando para o velho parafuso, com o pranto constipado, enroscado na garganta.
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Comentários (4)

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sthefany
sthefany
2020-05-22

seus poemas são muito bem escritos e belíssimos!

rosalinapoetisa
rosalinapoetisa
2020-04-28

Parabéns por tão bela escrita poética, tens muito talento com as palavras. Abraços

rosalinapoetisa
rosalinapoetisa
2020-04-28

Muito obrigada pela apreciação de meu poema, sinto-me honrada. Abraços.

biancardi
biancardi
2020-03-20

Belos textos.