arte
carregar aquilo que morre
ao infinito
chama-se eternidade
devolver a eternidade
àquilo que morre
chama-se arte
fotocópia
mil poemas depois
e ainda não encontrei
conclusão
aos teus olhos.
por mais que eu parta
e desafie o tempo,
por mais que eu me debruce
longamente
sobre as grandes questões e doenças,
e percorra, nômade,
os labirintos da palavra,
é sempre à infinita banalidade
dos teus olhos
que regresso.
dois faróis doloridos
resistindo sobre as sombras
das ilhas naufragadas.
mais esquecidos a cada lembrança.
mais vivos a cada vez que os mato.
onde até mesmo o esquecimento
se torna modalidade
da memória.
a um nome
I
um som rompe o silêncio.
teu nome.
num ato reflexo adquirido,
lubrifico os lábios.
percebo-o somente
no instante seguinte.
a poesia
infiltra-se na carne,
meu bem.
o corpo não esquece.
II
porque a memória do corpo
não acompanha o compasso
do tempo.
dentro da urna corpórea
a cinza não se sabe cinza.
arde, perpétua,
na chama imóvel
do instante
original.
o amor que te tenho,
honestamente,
é muito pouco.
meu corpo, porém,
não sabe disso.
ainda dançamos
entre as sapucaias.
mortos
e quentes.
o corpo não esquece.
fóssil
amor é espécie
que somente em eventos
de extinção em massa
desaparece
extingue-se do que permanece,
e o permanecido parece
desaparecer:
leva consigo lugares
que não retornam nunca
à matéria pré-amorosa,
leva consigo a neutralidade
mesmo de certas sílabas,
que não mais cortam o silêncio
sem cortar a lembrança
(nome, faca sutil
amolada entre gestos
e signos,
desenhando no ar
um par de olhos, uma boca,
indicando, no mapa,
um endereço
para o qual não há caminhos)
consigo extingue da cidade geral
a cidade específica,
que humildemente se recolhe
à poeira da caixa,
e ali se exerce
sem novas obras,
sem
aniversários, festas,
pique
niques,
sem
luzes
de natal
cafés, cheiros, plantas, bancos,
canções
por toda a parte
e em lugar nenhum,
coisas consumidas em marcas antigas
de garras ausentes
e dentes ferozes
outrora tão doces
cataclismo de sua própria fera
único fóssil
que ruge
feliz aniversário
as velas se multiplicam
sobre o silêncio da distância
eu te conhecerei por quem você não é
e você me conhecerá por quem eu não sou
e assim vamos
de mãos dadas
através do fogo
eternamente unidos e desconhecidos
canção para o teu silêncio
em teu primeiro silêncio,
deixei todas as palavras,
supondo que nunca mais
delas eu precisaria.
em teu último silêncio,
precisei de todas elas,
e não pude nem morrer
quando notei que as não tinha.
as letras são só relevo,
agora, do teu semblante,
onde a espera exasperada
fez-se nula, mas completa.
fora da palavra morte,
não morro. levo comigo.
de teu último silêncio
não regressarei poeta.
em teu primeiro silêncio,
construí a minha casa;
pus mais flores e mobília
do que na casa cabia.
em teu último silêncio,
desabaram as paredes
ao redor da porta aberta,
por qual jamais entrarias.
e fiquei de mãos vazias
sem verdade ou movimento,
vendo os símbolos quebrados
nas marés entreabertas.
fora da palavra vida,
só me resta carregá-la.
de teu último silêncio
não regressarei poeta.
pandora
da caixa ainda escorrem as quebradas notas
de uma canção
quase esquecida
o que dói não é
não poder recompô-la,
tampouco a impossibilidade
de sintonizar-se ao seu tempo
o que dói,
– o que de fato dói –
é a mutilada esperança
que se agarra ao fundo
enquanto a música se perde
sem que ninguém a ouça
decurso
o que em minhas mãos se aflora
e no corpo experimento
dura não mais que um agora
e então se desfaz no vento
mas não sem que antes traduza
de seu ínfimo momento
o infinito que o conduza
ao verso, seu monumento
para que de cada corte
reste a beleza incontida
e quando enfim me transporte
o tempo ao cais da partida,
eu leve só minha morte
e deixe aqui minha vida
ouroboros
o tempo reúne a obra
à natureza do obreiro.
naquilo que afinal sobra
reside o que é verdadeiro.
a vida em si o desdobra
até que se mostre inteiro,
na inteira volta da cobra
aonde estava primeiro.
assim se vê claramente
no olhar dos restos do lar:
silente, longínquo, velho...
onde vagarosamente
começa a se humanizar
a infinda face do espelho.
traço
depois,
sem saber se era ele o esboço de seus sonhos
ou se seus sonhos eram o esboço de si,
ficou só como um destes tantos
desenhos
que iniciara
em cadernos esquecidos.
rabiscos
ali perdidos, para sempre sem pernas,
sem mãos,
nem faces
nem nomes.
antropomórficos sem dinâmica
em páginas cruas.
desenhos
até que bem legais