Lista de Poemas
três sonetilhos
I
este infinito instante
em que vives agora
basta apenas que pisques
e pronto: é memória
inda não dás por isto
à sombra das batalhas
mas o tempo que torna
as crianças grisalhas
é este mesmo que colhe
teus momentos dispersos
e te confunde os olhos
para te dar, enfim,
da vida, alguns versos,
dos sonhos, seus espólios.
II
abre os olhos e vê:
o tempo já passou.
apenas em você
o instante não murchou.
este lugar não é
o de quando eras outro.
se aqui ainda vives,
talvez estejas morto.
nem houve no intervalo
de tempo dos teus olhos
qualquer sonho ou excesso...
mas se passaram anos.
e é como se tivesses
vivido em retrospecto.
III
como aceitar que a mão
que a minha mão enlaça
é só minha outra mão
que o coração disfarça?
a memória é um tecido
assim dissimulado
que tanto nos engana
mesmo estando rasgado
ah, que doce a mentira
que em mim se acalora
quase fisicamente...
mas o tecido é falho.
e as minhas mãos se esfriam
melancolicamente...
poema sonolento
conforme o anseio de nadar
se vai sucumbindo
ao de entregar-se às águas,
um nome ecoa
nas conchas do mar...
e em meus ouvidos naufragam as mágoas.
três da madrugada.
nenhuma porta suspensa no ar,
e, se acaso houvesse,
eu decerto a fecharia.
nem porto a destino, nem cais a que atar-se.
um lençol de maresia encobre a tudo...
e nunca fora tão pacífico afogar-se.
quatro da madrugada.
nenhuma lágrima pela luta perdida.
nenhum pungente impulso
por compreender ou transformar.
sumberso, vê-se, de fato, a tudo:
vária paisagem amorfa
de que mais parece que se vai despertar.
cinco, seis, sete, oito, infinito.
o tempo cambaleia no meio sono.
o tempo sonâmbulo confunde as coisas.
e tudo pesa sobre os olhos
em uma fração de segundo...
um indefinido segundo
prolongando-se, a cismar,
o coitado: só mais um mísero mundo.
mais um que o sol virá matar.
dorme o coração que desconhece
o nome que ecoa nas conchas.
reinos
de cada instante sem posse ou vaidade:
que seja a eternidade só um sono,
que seja a vida a única verdade.
em deixar que caia a breve coroa
não há sofrimento nem abandono:
o que foi, se vai: junto ao tempo voa;
e é-me leve - pois nunca fui seu dono.
pois mais suave é a areia que, entre os dedos,
escorre, elaborando seus castelos
num chão que encerra todos os segredos,
sem elo ou perspectiva de ter elos.
e eis que vejo, rei de nada, sem medos:
tais castelos são, ao vento, mais belos.
amor
e deste amor,
deste tão desamparado amor
que em ti acolhes
a cada noite
quando a ti próprio te recolhes
em tua íntima resistência,
deste amor que te convoca palavras
sem que haja palavras,
que te fere com gestos
sem que haja gestos,
que com inesperado vigor surge em uma distinta
dimensão da verdade,
deste amor,
que se despetala lentamente
em seu estômago,
enquanto os ponteiros desfiam as horas
e as areias solapam as pegadas,
deste amor,
cujos ramos crescem
até te escaparem pela garganta
em doce sufoco,
que evoca saudades
e vontades indefinidas,
que se dispersa nos dias
como se fosse uma cor nunca antes vista,
e ressuscita um horizonte esquecido
e reabre a antiga ferida
para beijá-la;
deste amor que é só seu, e que mal sabes amar,
deste amor que mal suportas sentir,
deste amor...
deste amor ninguém saberá.
o tentarás contar.
assim será o teu decurso.
não o contarás.
como o contarias?
ninguém saberá dos sonhos,
dos cenários e das circunstâncias
que em ti viveram e viverão,
teus íntimos vulcões.
nem desta vontade súbita de abraçar as criaturas,
desta consciência de que o tempo passa
por sobre todos os lugares onde os viventes combatem
as mais perdidas causas,
ou deste coração que se agarra aos fios cortados
e tece emendas imaginárias.
não.
ninguém saberá.
nenhuma eternidade,
nenhum legado
ou marca.
nem mesmo
ela.
em ti
ele todo rugirá a cada instante,
solitário, infinito,
e em teus olhos se sublimará
quando enfim adormeceres
– porém jamais suavemente.
deste amor,
deste tão desamparado humano amor
que te aperta,
e que te seguirá apertando
enquanto humano for teu seio,
e deste aperto
que te concede outros mundos e segredos,
e mãos, e lábios, e coisas impossíveis,
deste amor
somente algo terás
para colher em sonho:
a agridoce sensação
de que seu coração
não cabe na vida.
o tempo e as coisas
e logo vinte anos de eu menino a teimar:
"deixa eu jogar!" (à noite), e minha mãe: "não teime!".
e ainda haverá o meu irmão para teimar.
fará trinta anos o filme que via há tanto,
filme que via sabendo que ia me assustar.
fará trinta anos! cinquenta, cem... e, no entanto,
ainda haverá o meu amigo para se assustar.
fará seis anos o momento que passei,
lembrança compartilhada a reverberar.
momento que se distancia no que sei.
e ainda haverá a minha irmã para o lembrar.
depois não serei. o que fui vai se acabar.
e ainda haverá algo meu no tempo e coisas, no ar.
quando eu era criança...
e tarde da noite cismava permanecer acordado,
diziam meus pais:
"vai dormir,
que todas as outras crianças do mundo
já estão dormindo tranquilamente
uma hora dessas",
e eu dormia,
meio a contragosto,
mas em comunhão com as crianças todas do mundo,
supostas.
hoje, sabendo do desamparo,
das calçadas frias e duras
de são paulo,
do chão arenoso áspero de terras muito longes,
de estouros de rojão e de tiroteios e cólera,
da parte que porventura tomo nisto tudo
e da impotência das vozes e mãos e crenças humanas,
já não mais podendo, assim, tornar da vida
à mentira suave,
ao tal sono em comunhão
com todas as crianças do mundo
dormindo tranquilamente,
me resto acordado
por vezes
me envenenando.
eventualmente, dormirei.
mas, perdida a ilusão,
talvez nunca mais tão tranquilamente.
a cidade revisitada
e tem ainda casas e ruas e labirintos
e alicerces
que, revistos,
encarnam as cores de todos os olhos
que espiam incrédulos.
mas ainda existem – e por muito existirão –
pés deslizando bruscos pelas calçadas
e calcanhares e pernas apressadas
de homens e mulheres
trespassando o mormaço
a serviço,
ou tornando da vida
à noite
para um cigarro, talvez, ou dois, ou três.
há infinitos pisoteada e existindo,
a cidade é o palco
dos sapateados involuntários,
da pantomima de alguns,
dos monólogos de tantos,
dos silêncios de inúmeros.
é o teatro onde as cortinas só se cerram
sob a terra ignorada,
onde não se alegra com as flores dadas por conveniência
ao fim do espetáculo.
e ainda existe porque a arte vaga de existir
em tudo se imprime ainda
no que não existe, e se projeta no tangível.
a cidade ainda existe.
“que venha logo a escura noite,
com seu intervalo e seu álcool”,
clamam as almas
que em seus estômagos sabem
do ato vindouro e sem ensaio.
noturno contrito
rasga a camisa da pele
que visto,
mas pousa-me
um anel
de perdão
em meu bolso.
apedreja o vitral
dos meus olhos cansados,
mas dá-me
o sabor
do silêncio
partido.
cava-me o peito vazio
até não restar nada,
mas traz-me
de volta
um sonho
na concha
das mãos.
noite.
as notícias
cá neste Brasil confesso
que de cansado me apresso.
e o jornal lembra um romance
quando lido de relance:
fome, crime passional,
previsão do tempo e astral,
eventos mirabolantes,
gravatas beligerantes,
holocausto, pianista,
inferno, salada mista,
estética e tendência,
e uns mil mortos por doença;
leio-o sem nó na garganta,
no café, no almoço, na janta...
pois não há alma num número,
nem braço tem quem quebra o úmero
se se o lê numa contagem,
dentre tantos, é miragem,
teatral estripulia,
coluna de poesia,
ficção, melancolia,
mágica e demagogia.
melhor pular essa parte.
estou farto de tanta arte.
tchau, tchau, viu, senhor jornal?
(quase te pensei real).
quero arroz, feijão e vagem
e um pouco de sacanagem.
[prosa] fragmento de sensação
Sim... Qualquer ente humano, querido ou desconhecido, que, proferindo uma saudação ritualística qualquer, franza de maneira distinta os olhos e altere minimamente o tom da pronúncia de suas palavras... Ou a visão ocasional e oportuna de uma formiga que, ao sair do copo que há pouco enchi de água justamente por a não ter visto inicialmente, começa, à borda do mesmo copo, a esfregar as patas magras e fortes ao redor das antenas, enxugando-se... Ou, ainda, o som ágil e despretensioso vindo dos lábios de quem me chame pelo nome – tudo, de repente, é-me uma vela, se vejo bem, com qual minha alma dormente se reacende. É tudo um sutil punhal que me penetra o coração, sangrando um profundo sentimento de piedade e carinho impossível.
Certa vez mostraram-me a fotografia de um bebê, de que não recordo o nome, embora o relembre deveras. Sorria como considerável parte dos bebês o faz em fotos; talvez, por isso mesmo, dava uma primeira impressão de não ser bebê, mas foto. Por repentino destino, no entanto, um dente único e muito branco que despontava da gengiva inferior saltou-me aos olhos como se fosse uma súbita condensação de toda a vida, algo que rasgasse o símbolo fotográfico dissimulado e trouxesse-me à alma não o bebê em si, em sua carne contornada e individualidade ainda por desenvolver, mas sim a própria consciência abstrata de que aquele bebê existe, de que outros bebês existem, de que existem bebês com corações inocentes e olhos entreabertos ao mundo e dentes de leite doídos. Aquele dente, de alguma forma, caiu-me na alma liquefata como fosse uma peça de chumbo descendo a um poço profundo, mas com tal voracidade de modo a ser capaz de elevar quase à tona – meus olhos – a água – lágrimas – há muito esquecida no fundo. Tive dentinhos de leite também, como tem esse bebê. Fui bebê também. Algo em mim talvez ainda o seja. Aquele bebê fora, naquele instante, toda a humanidade, e até por isso não cismo lembrar seu nome. A poesia foi-me quase possível outra vez, embora fosse triste.
Posso quase ousar dizer que agora compreendo o que em mim me causa tais sensações: ora, a percepção dos detalhes exige (diferentemente da percepção ampla) a admissão, ainda que inadvertida, de que é tudo real. A vida é real. O mundo é real. Eu sou real. Também o ente que observo franzir os olhos e tropeçar nas palavras tem um modo de dizer, e algo a exprimir, e possivelmente bondade ao cumprimentar outro ente que julgue digno de cumprimento. Também ele sente a alegria estúpida da realidade.
Também a formiga, por mais marginalizada que seja nos corações de seus conterrâneos humanos, tem existência, tem vida, tem um lar a que deve retornar, tem tarefas a realizar, tem a necessidade de se alimentar e de escapar do afogamento para que assim postergue a hora em que forçosamente se dispersará na terra, organicamente – seria ela assim tão diferente dos homens para que por elas não tivéssemos qualquer coisa como ternura?
...E meu nome. Também sou alguém. Também tenho um nome, um aspecto, uma figura humana reconhecível a quem se pode atribuir afeto, desprezo, nojo, ódio, indiferença. Sim, recordo-me de que sou. Eu, que tanto, por vezes, me vejo entorpecido e diluído no meio alheio, sinto-me real quando me dou conta de que tenho um nome que me distinga.
E ternura. Tenho ternura ao ponto de ter lágrimas, pela consciência de que somos todos reais, com vãs dores e vãs alegrias reais, subjugados todos ao ofício de viver. Nós, bússolas quebradas guiando caravelas infinitas que partem sem destino, em um mar de dor e de beleza. Nós todos... Almirantes fadados que aspiram ao eterno ainda que não o saibam.
Ainda que uma única estrela anã condensasse em si todo o universo, não seria tão densa, relativamente, quanto à condensação de toda a fraternidade à humanidade e ao mundo quando esta se dá em um único seio humano.
Portanto abraço a todos quando aos mínimos detalhes me atento e constato a igualdade de nossas condições.
Outra vez pressinto a água subir à tona do poço, embora, agora, fique presa por detrás das pálpebras, em fluxo contínuo, rumorejando a infinidade destas sensações – rumor que em falhas parafraseio e ouso traduzir.
Sim... A poesia é-me quase possível.
Comentários (4)
seus poemas são muito bem escritos e belíssimos!
Parabéns por tão bela escrita poética, tens muito talento com as palavras. Abraços
Muito obrigada pela apreciação de meu poema, sinto-me honrada. Abraços.
Belos textos.
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