[prosa] fragmento diurno-noturno
yuri petrilli
Segunda-feira fria, quatorze horas e quaisquer minutos que são sempre outros. É noite.
Vagarosamente permito que meus olhos se percam nas ondas dos lençóis que me cobrem as pernas cruzadas, concebendo, com a desatenção de meu olhar cansado, faces e gestos que nascem e morrem nos desenhos formados pelos vincos e sulcos dos tecidos velhos.
Nascem, porque me tocam a alma sensível que transita contente pelas choupanas cômodas da imaginação. Morrem, porque os intervalos sonoros das gotas que pingam nas calhas os desmancham com a realidade da chuva.
Segunda-feira fria, quaisquer horas e minutos que são os mesmos no pleno feriado que trespasso, sábado de agosto. O sangue corre quente nas veias impossíveis dos sonhos que derrubo nestes panos que observo. Quanta amizade pelas criaturas que penso plausíveis! Quanta ternura me causa o pássaro de renda alimentando o filho de asa rasgada! Quanta humanidade no sorriso irônico do finado ente que fui outrora, e quanta possibilidade!... Quanto esquecimento.
E quanta chuva.
Angústia. Pássaros e demais criaturas assassinas e assassinadas. A monotonia do embarque à consciência dolorosa, e o desembarque de seguida, e de novo, e de novo, através do calendário absurdo. Angústia e chuva.
E a chuva chora fria na acuidade com que sinto a realidade desamparada de tudo.
Chove, e desperto. E então encontro a realidade quebrada. E enfim sempre torno a sonhar.
Mas é noite. É sempre noite.
Vagarosamente permito que meus olhos se percam nas ondas dos lençóis que me cobrem as pernas cruzadas, concebendo, com a desatenção de meu olhar cansado, faces e gestos que nascem e morrem nos desenhos formados pelos vincos e sulcos dos tecidos velhos.
Nascem, porque me tocam a alma sensível que transita contente pelas choupanas cômodas da imaginação. Morrem, porque os intervalos sonoros das gotas que pingam nas calhas os desmancham com a realidade da chuva.
Segunda-feira fria, quaisquer horas e minutos que são os mesmos no pleno feriado que trespasso, sábado de agosto. O sangue corre quente nas veias impossíveis dos sonhos que derrubo nestes panos que observo. Quanta amizade pelas criaturas que penso plausíveis! Quanta ternura me causa o pássaro de renda alimentando o filho de asa rasgada! Quanta humanidade no sorriso irônico do finado ente que fui outrora, e quanta possibilidade!... Quanto esquecimento.
E quanta chuva.
Angústia. Pássaros e demais criaturas assassinas e assassinadas. A monotonia do embarque à consciência dolorosa, e o desembarque de seguida, e de novo, e de novo, através do calendário absurdo. Angústia e chuva.
E a chuva chora fria na acuidade com que sinto a realidade desamparada de tudo.
Chove, e desperto. E então encontro a realidade quebrada. E enfim sempre torno a sonhar.
Mas é noite. É sempre noite.
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