Lista de Poemas
ONDE AS PALAVRAS SE CALAM
Conheci alguém que descrevia olhares
Como quem pinta os dias claros
Com nuances de cores e lugares
Onde só os sonhos se guardam caros
Dizia-me que olhares podem levar-nos
A patamares tão íntimos
Onde as palavras se calam
Onde não se ouve a própria voz
Mas o mais belo dizia ela
É aquele olhar despido da súplica
Aquele que busca mas não revela
E aguarda distante o que se evidencia
E por fazê-lo me ensinou cegamente a crer
Que nestes teus doces olhos abertos
Há um universo que se descerra fluido
E de tão longínquo e improvável – perto!
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Porto Seguro / Ba, 24/02/2025
CADAFALSO
O chão é abraço
Quando um corpo cai
O céu
Laço que enreda a alma
Acolhe e esvai
Universo afora
Viver é permanente risco
De tropeçar no agora
E o verso
Ah o verso
Magia e luz da arte
Que a dor em vão devora
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Porto Seguro, 14/02/2025
INSIGNIFICÂNCIAS
Às vezes peso de tanto pensar
Como se carregasse uma folha seca nas costas
Um carrapicho atarracado na meia
Um rabugento besouro bêbado no colarinho
Uma semente tímida debaixo da pulseira
Algo que já não servisse para árvore nenhuma
Que o vento desocupado sem fazer-se incomodar
Me incumbisse sorrateiro
Os largassem distantes do habitat
Não questiono fragmentos nem ausências
É bom demover as coisas de lugar
Mesmo que o próprio vento as faça retornar
Eu carrego ideias sem precisar de nada
Só de insignificâncias
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Porto Seguro, 23/02/2025
ESSENCIAIS
Amar-se é instigante
Professar o amor na exata dosagem
Sublimidade
O amor refina
Reforça o escudo da alma
Expõe amálgamas do coração
Se amar impõe contrastes
Apaixonar será sempre
Porto em meio à imensidão
Resistir ao amor? Tolice!
Viver amando é quinta-essência
Por ser o amor essencial
Porque o amor desvela-se
Não há véu que oculte sua face
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Porto Seguro / Ba, 26/02/2025
PORQUE BRILHA
Brilha!
E se há brilho é porque arde
Pois não há o claro sem chamas
E nada reluz senão por estar vivo
E pela vida entregar-se
Toda luz é seiva em brasa
Fogo em pavio que se incandesce
Se a palavra abraça a alma
Também a incendeia
Encandeia abrasa e assa
Há incêndio que arrefece
Acalma e transparece
Se a luz consome a sombra acesa
O caos talvez açoite e assombra
O brilho arrasa o escuro
Evidencia a penumbra e a intercala
Mas não esqueça:
Também no que o breu esconde
Há calma!
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Porto Seguro, Ba - 07/03/2025
LAPSO
Quis ser interpretador de lágrimas
Ver além das gotas salgadas
Que pulam dos olhos em pranto
Saber de onde vêm e intensas escorrem
Decifrar sussurros e fantasias
Encontrar poesia na dor de outrem
Mensurar a cor da alegria
Antes que rolassem como estrelas caídas
Acolhê-las como apanhador de pérolas
Revelar o brilho oculto de cada uma
No mistério das emoções transparentes
Quis ouvir de todos gritos e silêncio
Ler o rio das tristezas dos justos
Transbordar cada gota vertida
Em versos de formas indefinidas
Das lástimas e benesses da vida
Tanto que se esqueceu de chorar!
ESPANTOS
O que sobra de mim são folhas leves
- Enquanto novas nenhum vento arranca
Mas que às vezes em plena calmaria
De esguelha despencam
Em voos breves
Não que arvore ser forte
De belas flores ramas frutos
Sou unicamente planta
De qualquer porte entre árvores
Insignificante arbusto
Apenas a paciência
Viça meus talos
Se te espantas nem me assusto
VESTIDO JUSTO
Esse teu vestido justo
Fiel companheiro que te guarda
Abraça tuas curvas revela-te real
Exalta como um poema
Escrito em sutileza no tecido que lhe cabe
Nesse caimento perfeito como versos que deslizam
Pelas estrofes do poema - quanto de ti ele sabe!
Quando preto traz mistério
Branco elegância
No vermelho paixão ardência
Azul uma trigueira dança
Seria tule jaguar renda?
Pelo cós o decote a barra no trejeito da transparência
A fenda roça e te acende inteira
É como se o próprio tempo parasse
Fora do compasso sem rédeas
Realçando-te curvas imagem modelo
Ah esse teu vestido justo
Perfeito
MAIS UM DIA
(Essa pequena morte do sentido)
O nascer de mais um ciclo jamais seria assíduo
Ninguém despertaria do abraço inescapável do sono
Não mais teríamos onde fugir os excessos
Enfim antes não teríamos em vigília partido
Reparando tortos erros para nenhuma jornada
Afinal não se viveria
Pois o calendário de nada serviria
E medir o tempo que urge desnecessaria
Por isso o sol acorda
E enquanto surge nos desperta imperfeitos
Noutro dia
VESTIDO
Paulo Sérgio Rosseto
Me leve pra passear
Sai por aí vestida de liberdade
Estarei leve sobre teus ombros
Suave roçando teu colo
Colado em teu dorso cheiroso
Solto sobre tua pele nua
Serei a roupa que quiseres
Da cor que teu tecido pedir
Luz no entorno dos seios
Cinza no balanço das pernas
Para que te sintas coberta
Inda que a libido se insinue
Estarás solta matreira linda
Dama mulher deusa
Dona de si recoberta de flores
E quando despida de mim
Amarrota-me num canto singelo
Que ficarei à espera
Pronto para novos passeios
@psrosseto
Comentários (2)
Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.
quantas verdades com perfeição!
Paulo Sérgio Rosseto nasceu em Guaraçai, SP, na manhã de 11 de Abril de 1960. Filho de Paulo e Celestina. Seus irmãos são Fátima Aparecida e Delermo de Jesus. Em 1966 seu primeiro poema (MEU CACHORRINHO) foi publicado no Jornal da Cidade (Folha de Guaraçai), destaque de um concurso de escritores mirins promovido pela escola local que frequentava.
A familia Rosseto muda-se para Selvíria/MS em 1968 e em 1970 mudam-se para a Cidade de Três Lagoas, também no MS. Entre 1974 e 1981 estudou nos colégios internos Salesianos de Araçatuba/SP, Campo Grande/MS, São Carlos/SP e Alto Araguaia/MT. Ainda em 1981 retorna para Três Lagoas. Casou com Soraya em 1984, com a qual tem dois filhos (Thais e Yuri).
Reside na Cidade de Porto Seguro/Bahia desde 1988.
Em Três Lagoas estampava seus poemas no Jornal do Povo, tendo publicado em 1982 o Livro O SOL DA DOR DA TERRA; em 1984 O Livro MEMORINHA - POEMAS INFANTIS e em 1985 o Livro ATO DE POEMA E UMA CANÇÃO e 1986 AMOROSIDADE.
LIVROS RECENTES:
CRÔNICAS ABERTAS - Poemas - 2018
DOCES DOSES de POESIA - Aldravias - 2018
VERSOS de VIDRO e AREIA - 2019
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - 2019
LÁ PELAS TANTAS DA VIDA - 2019
FAZENDA HAICAIS - 2020
ABELHINHA PEQUETELLA - 2020
POETA ENTRE COLUNAS - 2020
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - Vol.2 - 2020
NAS ASAS DAS HORAS - 2020
BULBOS diVERSOS - 2021
SONETOS ESQUISITOS PARA NINAR MOSQUITOS - 2021
BORDEJAR - 2021
PLENO ESTADO DE POESIA - Poemas Reunidos Até Aqui - 2021
Membro da ALB - Academia de Letras do Brasil - Cadeira 18 - Seccional Porto Seguro/Ba.
Membro da ALSPV - Academia de Letras Sociedade dos Poetas Virtuais - Cadeira 38.
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