Lista de Poemas
ESCREVER
Paulo Sérgio Rosseto
De inicio
A página é um lago deserto
Onde letra nenhuma navega
Apenas espera o vento de um risco
Um remanso de vogal
O mexer da consoante
Entre vagas por perto
À espera de possível barco
Cada sílaba é um passo
No silêncio que se fragmenta
Entre a ideia e a palavra
Há um fio discreto
Entretanto a mão que ousa traçar
Experimenta
Conquista a margem do improvável
Eis que surge outra página em branco
E nos damos novamente em viagem
Escrever é navegar-se do incerto
Ler é o encanto
@psrosseto
GRAVETOS
Paulo Sérgio Rosseto
Todo graveto é mudo de si
Mas caído sussurra ao vento
Coisas de raiz deslembrada
São versos soltos
Que o chão faz juntar
E o vento os ensina a voar sem asa
Enquanto dormem
Besouros e formigas descem para beber
Nas suas lascas e acham água
Até que alguém deduza que sujam a casa
E põe pra queimar esses ossos de árvores podadas
Retesos no sol fazendo sombra pro nada
Quando eu era menino eu juntava tudinho
Para encompridar meus sonhos
E depois descercar porteira de estrada
Um graveto só serve mesmo
Para inventar pontes
Para os versos que componho
Ou fazer abrigo de passarinho
@psrosseto
TRAQUINAS
Paulo Sérgio Rosseto
Meu pião escapa rodopia
E arrebenta a janela da menina
Aquela bola tombou entre cacos e gerânios
Agitando o silêncio na tarde que ardia
Do outro lado da cortina
A sombra balança e para
Suspense de câmera lenta no reino da rua
O que se move atrás do vidro rasgado?
Foi um deslize de pura estripulia
O pião em meio ao caos parece um olho
Observando o abismo que ele mesmo abrira
Ninguém respira até que a porta range
E surge a cinderela vestindo azul
Que num pavor maldisse arretada
– Batesse antes de entrar!
A tarde recomeça duplamente arriscada
Sob o olhar da vizinha
Me buscando na calçada
@psrosseto
QUERO COLO
Não peço abrigo qualquer
Nem mero espaço
É teu colo que quero
Para o meu verso
Onde me perco e acho
Onde o aconchego acalenta
Onde o calor refaz-se
E o sonho absorve a pressa
É nesse desmedido abraço
Que a poesia viaja intensa
Como se o mundo fosse nosso
Pois teu colo é a estrofe
Onde a lânguida língua enlaça
Para que o poema te abrace
CAMINHEIRO
Antigamente as noites eram
Fulgurações de vaga-lumes
Acesos no escuro-escuro
Nenhum rio morria de sede
Apenas se desaguasse
Ficava entre leito e memórias
Se a terra sentisse sede de chuva
O chão duro de tantas pisaduras
Ansiava pelo beijo da primeira gota
Mas tudo é transitório e muda
Eu também me desenraízo
Virei poeira de estrela que some
Soprado pelo ambíguo do mundo
Apenas minha alma continua grão de areia
Por isso caminho sem pressa
Rumo a um novo planeta ainda sem nome
SEM DISTÂNCIA
Há nenhuma distância
Entre o meu corpo e o teu
Apenas esperas
Espera pelo momento
Em que a madrugada
Resolve ser amiga
Pelo pássaro que acorda
E faz pausa para ouvir
Pela flor imersa em água
Por excesso de perfume
Pela luz que sobre a pele
Ilumina-nos
Pela fé neste instante
Em que respiramos
E depois há certezas
De que a vida seja
Também depois de ser
Só porque existe teu lado na cama
Só porque existe amanhecer
ÍNTIMO
Esperei que o primeiro sol chegasse
E adentrasse pelas coisas simples
Para começar mais um dia comum
Abri a janela para permitir
Que o tempo antigo saísse
E a casa respirasse
Um ar mais leve
Sou daqueles
Que não busca grandes respostas
Apenas saber em qual gaveta
Guardei mais segredos
Se entre as pastas de memórias
Ou nos compartimentos do coração
Enquanto rebusco
Conto histórias
EXACERBADO
Guardo de mim alguns segredos
Assim evito saber das coisas
A ter medo exacerbado
Ao descobrir que de outro modo
Nada muda senão o lado
O avesso do que imagina
A sombra que permanece
Quando acende ou apaga
Versões que eu desconheço
E se a um tempo as percebo
É para lembrar que esqueço
O que a palavra não alcança
E o tempo cala
Quando menos se pensa
O silêncio fala
FOTOGRAFIAS
Lado a lado sentadas a bisa e a neta
Aparam o álbum nas pernas
Seus olhos saem percorrendo detalhes
Em cada uma das fotos impressas
Uma vai encontrando lugares
Sorrisos e olhares nas paisagens
A outra recontando pregressos
Sorri ao lembrar das imagens
Quando chegam à última das páginas
Retomam a releitura da mesma viagem
Uma chegando agora
Para apreender sua história
A outra revivendo detalhes
Na memória
===============
Porto Seguro, Ba, 11/03/2025
ILUSÃO
Espero
Mas o tempo não corre
Ele é porque inventamos que seja
E logo adiante a presa esvaindo
Finge-se precisa
Confunde o espelho
Onde a pressa reflete essa ilusão vazia
O vazio talvez seja a única coisa
Que não aprecia
Nem se apressa
======
Porto Seguro / Ba, 15/02/2025
Comentários (2)
Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.
quantas verdades com perfeição!
Paulo Sérgio Rosseto nasceu em Guaraçai, SP, na manhã de 11 de Abril de 1960. Filho de Paulo e Celestina. Seus irmãos são Fátima Aparecida e Delermo de Jesus. Em 1966 seu primeiro poema (MEU CACHORRINHO) foi publicado no Jornal da Cidade (Folha de Guaraçai), destaque de um concurso de escritores mirins promovido pela escola local que frequentava.
A familia Rosseto muda-se para Selvíria/MS em 1968 e em 1970 mudam-se para a Cidade de Três Lagoas, também no MS. Entre 1974 e 1981 estudou nos colégios internos Salesianos de Araçatuba/SP, Campo Grande/MS, São Carlos/SP e Alto Araguaia/MT. Ainda em 1981 retorna para Três Lagoas. Casou com Soraya em 1984, com a qual tem dois filhos (Thais e Yuri).
Reside na Cidade de Porto Seguro/Bahia desde 1988.
Em Três Lagoas estampava seus poemas no Jornal do Povo, tendo publicado em 1982 o Livro O SOL DA DOR DA TERRA; em 1984 O Livro MEMORINHA - POEMAS INFANTIS e em 1985 o Livro ATO DE POEMA E UMA CANÇÃO e 1986 AMOROSIDADE.
LIVROS RECENTES:
CRÔNICAS ABERTAS - Poemas - 2018
DOCES DOSES de POESIA - Aldravias - 2018
VERSOS de VIDRO e AREIA - 2019
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - 2019
LÁ PELAS TANTAS DA VIDA - 2019
FAZENDA HAICAIS - 2020
ABELHINHA PEQUETELLA - 2020
POETA ENTRE COLUNAS - 2020
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - Vol.2 - 2020
NAS ASAS DAS HORAS - 2020
BULBOS diVERSOS - 2021
SONETOS ESQUISITOS PARA NINAR MOSQUITOS - 2021
BORDEJAR - 2021
PLENO ESTADO DE POESIA - Poemas Reunidos Até Aqui - 2021
Membro da ALB - Academia de Letras do Brasil - Cadeira 18 - Seccional Porto Seguro/Ba.
Membro da ALSPV - Academia de Letras Sociedade dos Poetas Virtuais - Cadeira 38.
Português
English
Español