Escritas

Lista de Poemas

OLVIDOR

Pensei ter ouvido deus
Dizer-se triste com tudo
Inconformado com a gente
Em desconsolo com o mundo
Perdido entre as desatenções
Daqueles que oram sem crer
Dos que creem e nem rezam
Ou vivem em estado de graça
E não fazem por merecer

Oh presunção do absurdo
Entremeio aos desacertos
Fui eu quem desdisse adeus
Fiz dos meus tantos encantos
Um rosário de encantados
Presunçoso inconsequente
Deitei-me com a santidade
Nos momentos mais errados
Cuidando da vida alheia
E não de quem estava do lado

Na verdade dissera ele
- Resolvas tu os teus descuidos
Que deslembro eu teus pecados
👁️ 74

DETALHES

Meu ultimo escrito
Há de brotar de alguma garrafa
Debaixo de uma rolha
Cujo rotulo trará insígnias assim precisas:

Este poema traz cor robusta
Presença aveludada plena e intensa
Seus aromas lembram frutas maduras
Com notas densas que pigmentam ternura
Na boca tem palavras doces
Macias redondas de significados conexos
Combina perfeitamente com sonhos
Sinônimos e detalhes pequenos da vida

Por fim quem sabe
Tomai e embevecei todos vós
Deste meu tempestivo poema

E ao rodapé discreto lembrete:  

A morte nada mais é
Senão vestir o avesso do que nos cabe
👁️ 76

ALENTO

Os olhos são sentinelas
Das linhas retas dos versos
Para que não misturem as pautas
Embaralhem as letras
Nem percam os sentidos
De como foram dispostas
Nos contextos diversos

Uma palavra mais outra
Outra mais de cada estrofe
Sem ponto sem vírgula sem nada
Não tenha começo nem pausa
Nessa costura dos versos
Exista interstício ou parada

Assim voando soltas
Por sentidos dispersos
Caibam inteiras nos sonhos
Dos corações mais complexos

É assim que poeta e poesia
Exterminam das faces do assombro
Cada um dos maus sentimentos

Todo olhar faz do poema um alento
👁️ 103

FEBRIL

Está gelada minha face
Porem se acesa a testa
Queima-me o todo que me resta

Se a unha arranha roça
Pelo braço a pele coça
Contundente acalmaria

Doem ossos doem dentes
Inflamam os olhos da alma
Sem palpável disfarce

O tédio receita-me o remédio
Que sobretudo vaporiza
Interna o que entedia

A dor de arder em febre eterna
Paradoxalmente me alivia!
👁️ 119

ALGUM LUGAR

Além é onde não fui porque fica após acolá
Não quer dizer que viva aquém
Porém me encaminho pra lá

Encontrarei bem no centro das historias que vivi
Motivos de ir adiante desbravar hoje o que ontem
Desviou-me por estradas que não iam a algum lugar

Quanto mais tempo vier em favor dos meus anseios
Terei meios de aplacar as vontades que ainda tenho
As audácias que desejo entender de onde venho
E o que aqui vim fazer

Preciso apenas querer que as demoras se sucedam
Que meus medos extirpem e revelem-me os segredos
Nos caminhos que buscar dentro e fora de mim

Efêmero passageiro caminheiro de onde vim
👁️ 59

DOS POEMAS DE AMOR

Eu tenho medo dos poemas de amor
São arroubos recolhidos por fantasmas em devaneios
Que afinal traduzem tanta realidade pelos versos
Que terminam perniciosos às verdades dos amantes

Estuporam o sabor dos beijos
Detalham a intensidade dos sonhos no suor das mãos
Reconduzem antes à obviedade os desejos
Insinuam que dentro do efêmero até mora a eternidade

Definitivamente eu não os leio
Apenas transcrevo desarranjos que me assopram
Esses endemoniados anjos
👁️ 90

ESMERO

Esse tempo de anseios e espera
Parece cera enquanto aquece
Derrete-se consome fenece
No entorno do pavio que encandeia
Bem no cerne da vela
E aos olhos faça cores
E tudo se ilumine acenda
E transforme a luz em prece
Na labuta abrupta que respira terra

Olha a pele
Envelopa a carne que também envelhece
Aos poucos o corpo dilacera e em nada se parece
Com a imagem bela de outrora
Porque o que há de mais nítido é justamente o agora
E embora esperamos no futuro o claro evidente
A vida é toda essa obra que renasce presente
Em cada aurora

Aprende a escolher
No escuro as dúvidas
Do opaco as expectativas
No breu espantos
Da penumbra os espasmos
Para aclarar os rumos e domar tua fera

Nestas noites de lua tão intensa sobre as águas
Quem é pedra como eu sonha o dia

Assim a vida menos entristece
👁️ 88

INCOMPREENSÍVEL

Quisera buscar significados
E rápido viera à mente um predicado
Diferente

Ventos vozes em remoinhos velozes
Cegaram a compreensão
E nada fiz que impedisse
Esse tremor nas mãos

Se a face encharca por saudade ou desejos
Se os braços buscam apoio para que o dorso não vergue
Ou se a fala embarga de emoção
É porque resisto ante a insistência do tempo

Nessa hora de calmaria pós turbilhão
Deixa-me em contrição
👁️ 112

MARESIAS

Quando o mar me viu
Quebrou-me as cercas
Deixei ser levado
Deixei de ser cais
Tornei-me navio

Parti pelas ondas
Virei maresia
Fui marear em águas profundas

Tentei ser bonança
Calmaria e até fortaleza
Em meio aos temporais

A parte de mim então ancorada
Sustenta-me oculta
Navega-me pela vida

O que me enxergas
É esse outro lado que aflora atrevida
De pura alegoria

Este
Nem mesmo eu saberei
Decifrar jamais
👁️ 128

GENUÍNO

Se buscares um poema exato
Não o terás por certo
Mesmo singelo breve suave
Rude ou afável por natureza
Todo poema é feito
Das incertezas
Do afeto

Mas se for para chamar de meu
Que seja este ato
Um apelo tão íntimo e genuíno
Que console tuas expectativas
E transcenda repleto
O imediato

Meu poema te quer
De fato
👁️ 112

Comentários (2)

Iniciar sessão ToPostComment
ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2026-01-02

Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques
2017-11-27

quantas verdades com perfeição!