Escritas

Lista de Poemas

RELÓGIO DE PAREDE

Ele enamorava os olhos da gente
Encantando as horas evasivas e cheias
Por cima das cabeças que entravam e saiam
Por vezes repletas e às vezes vazias

Fora o senhor do cansaço e da fome
Do quando vir ou ir embora
Dos acertos e atrasos
De todo espaço cravado ligeiro
Ou daquele que se demoraria

Traduzia em segundos o mundo que remexia
Dos passos que entravam
Da vida que seguia pelo portal aberto
Ou pela grade que prendia               

Agora dependurado
Deve estar deitado insignificante
Nalguma caixa vazia
No porão entre alicerces da torre
Desmedindo o mesmo tempo a que media
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DESATENTO

Observei que minha sombra displicente
Flanava dispersa translúcida intacta
Distorcendo-se entre beiras e bordas

Roçava indiferente sobre o aceso e o fosco
Sem olhos sem ouvidos sem sentidos
Contorcendo antes ou depois dos rastros
Ou melhor sem encontrar sentido
Ao não sentir os impactos

Senhora quão desatento estou eu!
Não percebi que era a luz dos olhos teus
Quem resguardando antevia
E de fato iluminava os meus atos
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ENCANTADA

Essa uva detém textura pronta
Maturada para há tempo
Tornar-se ainda mais casta
E de tão pura
Vinho

Encherá bocas com taninos
De prazeres indulgentes
Enquanto os lábios do tempo beijam-lhe a taça

Entre a pele da casca e o cerne das sementes
Lívida amadurece embriaga
Encantada extasia

Um gole das suas luas
Põe o mundo em estado de graça

Um brinde à vida que aniversaria!
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SEMPRE SERÁ PERTO

                  Paulo Sérgio Rosseto

Bem sabemos o que permanece
Para alguns aflora devagarzinho
A outros acontece com mais pressa

Na verdade a vida é um tanto curta
Enquanto o tempo traz sua medida incerta
As horas galopam exatas

Equilibrados no balanço do prumo
Seguimos confiados na inexatidão da fresta

Mas oh! tanto nos surpreende
Até o que nos absorve ou desprende
Amedrontamos com o pouco que nos resta

As certezas sim surgem do coração aberto
Mesmo que estejamos longe
Agora sempre será perto

@psrosseto

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ESCREVA TAMBÉM NÃO

As palavras esquecidas
Ficariam sentidas se perdessem os sentidos
Esmoreceriam mudas sobre a língua
Não fossem inventadas

Mas não seriam únicas feitas de desinvenção
Tenho outras tantas a dizer a pensar
Algumas para escrever
E uma infinidade delas para silenciar
Todas porem dessignificadas

São teimosas essas palavras que me povoam nulas
Tangentes se armam pelo inconsciente
Transitam pela dimensão do falar
Encorajam o calar nessa luta pelo inatingível

Hoje nada escreverei além destas de ilegível grafia  
As demais permanecerão frias
Mas ditadas
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CARNIS LEVALE

Vieram todas cores e tambores
Alegoricamente agigantados
No formato multidão

Nada mais traziam senão
Intenções em sustentar os sons
Arguidos das guitarras braços
Contrabaixos teclados pernas
Suor passos suingue bandolins
Que se intrometiam no turbilhão
Cantante ritmado das câmeras e gruas
Do que os meus olhos viam

Eu assistia àquele incrível espetáculo
De braços cruzados à beira da rua
Até que o coração fora arrebatado
Indecoro e involuntário
Que nada dizia senão batia batia
Rebatia repicava repedidas vezes
Magicamente me colocando
Respirar aloprado junto à bateria
E fora de mim

Quando me dei conta havia incólume
Passado por entre a alma e a carne
Outro belo carnaval
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UM BEIJO JOGADO

Foi mesmo um beijo jogado
(Quem até hoje não jogara!)

Era para ter acertado a testa
Entretanto resvalou pelos olhos incerto  
Deslizou pela ponta do nariz
E por um triz não parou nos lábios

O destino quis naquele intrépido inesperado
Antes que no lépido coração tocasse
Titubeasse inusitado entre o pescoço e o braço
Estalasse no ombro desnudado

Enfim entre o susto e o riso do risco
Estatelou-se em mil pedaços
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ASSINTONIA

Ele mastigava as vozes que ouvia
E o que diziam engolia
Sem sequer sujar os dentes

Saciava-se das lavaredas dispersas
Ao fiar credibilidades
Gritos burburinhos e silêncios

Até que tudo se dispersara
E prevalecessem senão verdades
Ainda que não absolutas

Agora nada mais escuta
Muito menos fala
Nem se assusta
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ASSINTONIA

Ele mastigava as vozes que ouvia
E o que diziam engolia
Sem sequer sujar os dentes

Saciava-se das lavaredas dispersas
Ao fiar credibilidades
Gritos burburinhos e silêncios

Até que tudo se dispersara
E prevalecessem senão verdades
Ainda que não absolutas

Agora nada mais escuta
Muito menos fala
Nem se assusta
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IDENTIDADE

São os rastros que me seguem
Como fosse guizo parte de mim

Teu cheiro dá pra ver 
Tanto por quanto é canto
Quando acende em teus olhos
O quanto ilumina teu ser

Nessa paixão feita de lados
Nascemos nus e iguais
Depois disso dizem-nos
Uns com menos aporte
Outros talvez por mais

Nada que o sol não dissesse
Se assim não perfumasse
Os segredos mais distantes
Por todo o sempre enfim

Porque conceber é encanto
Somos todos inacessíveis
Vacilo entre acaso e sorte
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Comentários (2)

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ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2026-01-02

Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques
2017-11-27

quantas verdades com perfeição!