Escritas

Lista de Poemas

TEMPO PRESENTE

 

Observava o disco furado
Pulando e repetindo
A mesma frase da melodia

 

A agulha enroscada

Aprofundava a vala no vinil desgastado

Que nem tocava e nem dizia

Coisa com coisa que o valia

 

Mas não me engasgava com aquela ira

E a sinfonia nem perdia o encanto

 

Ainda hoje o prato roda gira roda gira

Regorjeando a mesma rota riscada

Sob o braço da vitrola arredia

 

Tornei-me disco repetitivo

Mas estou vivo e ainda canto

O mesmo mantra a cada dia



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Porto Seguro / Ba, 23/02/2025

👁️ 5

 

Te busco na tarde
Ombro do dia
Te escondes nas frestas
Como quem erra
O caminho de voltar

Vivo entre o sim e o ah
Desentendido

A noite é ponto final
Que vira vírgula
No texto finito
Num começo de manhã

Assim mora o mistério
Onde se dissolve a libido

Vivo querendo acreditar


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Porto Seguro / Ba, 20/02/2025

👁️ 7

O COLETOR DO TEMPO

 

O coletor do tempo

Se demora diante das horas

 

Parece senhora à frente do espelho

Alisando as mechas que se desmancham

 

Lembra-se das tranças de menina

Do batom nos lábios 

Da firmeza dos traços 

Da leveza nas mãos

Da maciez da pele que refletia

Imensidão

 

O coletor do tempo nada toma –

Apenas preserva lembranças 

Que nos momentos imersos

Retornam



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Porto Seguro / Ba, 25/02/2025

👁️ 6

O RIO DE SILÊNCIOS QUE FIZ

 

Esse rio é apenas fio de memória 
Que escorre carregando ciscos 
De histórias que escrevi

Supunha épocas lançadas em ventania
Palavras que o chão distante e generoso engoliu
Paisagens – planos sonhos imagens e mais

Me ponho aqui sentado despido
Onde o passado se confunde
Na cor que o sol desmantela em pedaços que nem quis

Essa correnteza de face molhada
Entremeia notícias de mapas relidos
Que mal cabem nos riscos das margens que fiz

Além dos mensageiros desse invisível
Com suas asas entrevendo no ar
Reluz o que as mãos não puderam segurar jamais

Persigo esse rio que consigo leva
Pedaços que eu nem saiba perdidos
Enquanto releio o que tanto silêncio diz


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Porto Seguro / Ba, 13/02/2025

👁️ 75

INVENTÁRIO

Sempre que posso

Escrevo torto por linhas tortas

 

Então vou diversificando mentiras

Bisbilhotando pelos cantos

Entre sonhos toscos

Atrás das portas

 

Onde descubro uma ideia rota

Vislumbro papel e caneta

 

Mordo a inspiração marota

Travestido de poeta


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Porto Seguro / Ba, 27/02/2025

👁️ 9

CARNE

 

Leio-te em voz alta
E o eco é um gemido 
Verbo conjugado impessoal
Sussurrado em línguas de fogo


Meus dedos são hereges
Em tua pele perco meu medo
Encontro sentido

Afinal somos animais alfabéticos
Escrevendo romances
Com dentes unhas suor
Sobre a cama 
Página em branco

E o amor
Essa metáfora que arde
Sem precisar explicar ou se expor



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Porto Seguro / Ba, 17/02/2025

👁️ 4

SUSTOS

Por debaixo da escada a terra estremece

Por cima da água a ponte se meche

A areia rasa agora afunda

A cadeira me escapole da bunda

Me pego rasante voando sem teto

Não mais distingo o longe do perto

O fechado do aberto

Os óculos dos olhos

O dente da dentadura

De falso a verdadeiro tudo me assusta

 

Sofro tontura

Mas quando me vier a morte

Terei saudades de ser criatura



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Porto Seguro / Ba, 28/02/2025

👁️ 13

SINESTESIA

Pelo perfume sei de você

Quando é rosa laranjeira baunilha jasmim

Cheiro suave de alecrim

 

Sei da maré da manhã da chuva que vem

Até mesmo teu silêncio cheira bem

 

Fusão de aromas de cores 

Que grudam em mim




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Porto Seguro/ Ba, 28/02/2025

👁️ 10

DEFEITOS

Desconheço

O poema perfeito

Nenhum nasce completo

Nem sob os rigores

Da razão

 

Todos consigo trazem

Primorosos defeitos

Marcas de quem vive
Os doces riscos da poesia

 

Meus versos não amadurecem

Apenas apaixonam-me à fantasia



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Porto Seguro / Ba, 25/02/2025

👁️ 10

SULCOS

 

Há um solo que sangra sob os pés descalços
Rente aos homens de enxadas em riste
Porquanto o sol esturrica a lida
Não há pecado maior que o assédio do mato 
Estirado viçoso nas eiras e leiras
Enquanto o ventre ronca e o céu testemunha
A terra clamar faminta pelo grão que inexiste

A terra preclara desdém daquele que a tem
Ela fala pelos dedos do errante que a teria
Na coragem do que traz consigo
Um fogo antigo de alma lavradia 
Em plantar raízes em covas que não cabem 
Entre a enxada o suor e as bênçãos da fartura

Ela anseia pelos profetas do chão
Que não escrevem nem leem entrelinhas
Mas abrem sulcos e louvam criador e criatura
Às margens da lavoura na utopia
Da colheita de um futuro que não vem



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Porto Seguro / Ba, 19/02/2025

👁️ 7

Comentários (2)

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ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2026-01-02

Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques
2017-11-27

quantas verdades com perfeição!