Lista de Poemas
A minha aldeia
Memórias
pintadas de fresco,
Visões
apocalípticas,
Lufadas
de ar fresco,
Prisões
paleolíticas.
Ventos
sopram augurantes,
Sussurram-me
aos ouvidos,
Trazem
novas extravagantes,
Usurpam-me
os sentidos.
Contemplo
o horizonte embevecido,
Esquadrinho
todos os cantos,
O
Mar espraia-se enraivecido,
Pela
Lua namorar os campos.
Céu
e Terra tocam-se nos cumes,
Névoa
gerada ladeia as encostas,
Nas
casas ardem os lumes,
E
as mesas já estão postas,
O
pão abençoado,
Pelo
meio mais um trago,
O
mal exorcizado,
Ainda
longe de estar pago.
O
cão ladra para as pedras da calçada,
As
ladainhas já fecharam a Igreja,
Guarda-se
uma ovelha tresmalhada,
O
sino dobra e o mocho pestaneja,
A
aldeia dorme sossegada,
Que
Deus a proteja.
LX, 13-4-2000
Alma Gémea
Vagueias
por aí,
Eu
no fundo sei,
Olhas-me
daí,
A
minha Alma te dei.
Sinto
no ar a tua presença,
A
tua dor veio com o vento,
Porque
estás tão tensa,
Não
ouves o meu lamento.
Não
chores mais,
Por
favor não,
Soltaram
os chacais,
E
já não comem à mão.
Não
te conheço o nome,
Não
sei quem serás,
Bastará
um olhar,
Um
terno sorriso,
Num
dia singular,
De
tempo conciso,
Nunca
saberás,
Sequer
que existo.
LX,
15-8-2003
Vales Encantados
A
Luz pavoneando-se espairece pelos vales como a beleza preenche todo o espaço
válido da estética, excepto o incorruptível vale das tormentas, sombrio e
soturno, somente à espera, de ser digno de ser atingido ou contemplado, por um
raio de luminosidade.
Mas
porque não se torna então essa reunião plausível e realista?
Essa
Luz tão contempladora, abrangente e resignante, a desejada por todos, mas tão
selectiva na sua longitude.
Pobres
almas daltónicas insensíveis a esse espectro de luz que exasperam nas
profundezas da escuridão eterna e irresoluta, antimatéria da Luz.
Porque
não só a Luz é bela ou é vida, as trevas e a escuridão são tão ou mais
inebriantes e enternecedoras que a mais profunda e doce Luz matriarcal.
Salvé
a penumbra absoluta, porque dela renasce a Luz ofuscante e genuinamente
verdadeira. Pois Ela nasceu do crepúsculo de toda a luminosidade profícua e
indulgente.
Tal
como na magnitude total da luminosidade precoce e envolvente, ou na escuridão
obscura e insalubre, o que ressalta da sua incompatibilidade e não sobreposição
são laivos de esperança, de liberdade, de negação e anticonformismo tal e qual genes
alterados e mutáveis.
Apóstolos
da diferença e do contraditório dialéctico, guerreiros anarquistas contra a
frivolidade ignóbil reinante.
Pois
deles depende a evolução Humana, tanto biológica como culturalmente.
LX,
17-6-2001
O Vazio perdurou em Silêncio
Sonhos
enevoados,
Com
música delicada,
Sentidos
extenuados,
Com
luz apagada.
Ecos
uivam loucos,
Ressuscitam
o Passado,
A
Razão duns poucos,
Num
triste Fado.
Dolorosa
existência,
Pasma
aberração,
Traída
aparência,
Insolúvel
tentação.
Alma
dorida,
Coração
em pranto,
Estou
de partida,
Aqui
num canto.
Silêncio
companheiro,
Conforto
indagável,
Destino
matreiro,
Morte
imutável.
Projecções
futuras,
Contemplam
o Além,
O
outrora esconjuras,
O
esquecimento também.
Perdido
em profundo,
Mente
angustiada,
Navego
pelo fundo,
Fuga
abençoada.
Tormentos
em redor,
Obscuridade
translúcida,
Alertas
em temor,
Saudade
enternecida.
Arte
idolatrada,
O
Belo intocável,
Toca-se
a entrada,
Jamais
influenciável.
Fundou
a essência,
Universo
coerente,
Espasmo
à tangencia,
Unidos
em torrente.
Espaço
incomensurável,
Lamentosa
consciência,
Eternidade
implacável,
Amargosa
existência.
Chamamento
apelativo,
Ordem
eloquente,
O
caos imperativo,
O
vazio inconsequente.
Forças
indulgentes,
Esbatem
ao lado,
Perceptíveis
antes,
Hoje
inundado.
Força
invisível,
Acção
passiva,
Ser
sensível,
Dor
lasciva.
As
lágrimas secaram,
A
névoa levantou,
Os
anjos morreram,
A
Vida findou
O
nada vingou.
LX,
17-9-2002
Felicidade
Felizes os ignorantes,
Pois Eles,
Encarnaram o Mundo.
Lx, 20-7-2000
A Longa Caminhada
Unir-me-ei a todos vós um dia,
A brisa trouxe a pestilência,
Fétida e nauseabunda,
Aos meus sonhos de menino,
Arruinando a minha inocência,
Que trucidada nas trevas jaz.
Unir-me-ei a todos vós um dia,
O tempo reclama em voz alta,
Em gritos lancinantes de dor,
Pela carne outrora emprestada,
E doravante mil vezes reclamada,
Os seus uivos ecoam trespassantes.
Unir-me-ei a todos vós um dia,
Lacaios do destino atroz,
Proscritos à minha simpatia,
Na última e longa caminhada,
A grande marcha da liberdade,
A caminho do abismo inviável.
Unir-me-ei a todos vós um dia,
Na podridão dos corpos exauridos,
Acompanhando vossas mentes vis,
Perniciosas almas esquecidas,
Perdidas errantes no vácuo denso,
Hoje e para todo o sempre.
Unir-me-ei a todos vós um dia,
Tal como lampejos de luz saboreamos,
Ao longo dos laivos de consciência,
Verdadeiras encarnações do Cosmos,
Que se reconheceram ao espelho,
Nas nossas próprias imagens mortas,
No reflexo incoerente das nossas vidas.
Unir-me-ei a todos vós um dia,
A beleza extrema das percepções sentidas,
Sensorialmente embriagadas de esplendor,
Alquimistas da moral etilizada e petulante,
De ética bacoca e presunçosa,
Enforcados em mimetismos sem fim,
Expiramos cativos em tédios virulentos.
Unir-me-ei a todos vós um dia,
Corpos desalmados correrão nus,
Repetidos e iguais todos juntos,
Largaremos os grilhões no caminho,
Tombaremos levemente nas valas,
Caídos de espíritos amortalhados,
Virão todos ininterruptamente ali finar.
Unir-me-ei a todos vós um dia,
Resignados sem esperança no destino,
Na linha de montagem inimaginável,
Onde os sonhos se extinguirão,
Preteridos ao esquecimento eterno,
Somos todos peças prescindíveis,
Oleamos a engrenagem da máquina.
A infernal máquina Universal,
Que nasceu infinitesimal,
Empolou exponencialmente,
E um dia implodirá em escuridão,
Em treva total e absoluta,
Anulando-se no zero,
Infinitamente vazio.
Lx, 10-6-2012
Filhos Enjeitados
Meus filhos enjeitados,
Doentes terminais,
Desfigurados e feios,
Pobres de espírito e de razão,
Amputados do Bem,
Ignorantes ignóbeis,
Rastejantes pederastas,
Rejeitados por todos,
Vinde a mim meus pobres filhos.
Vocês que anseiam formosura,
Vocês que anseiam fortuna,
Vocês que anseiam sensibilidade,
Vocês que invejam o próximo,
Vinde a mim meus rejeitados filhos.
Não chorareis nunca mais,
Deixai as feridas purulentas,
Serem lambidas pelos chacais,
Eu reconfortarei as vossas almas,
Até ficarem distantes do fogo infernal.
Cantai comigo todos cantai,
O hino libertário da dor inglória,
O términos chegou em pranto,
O absurdo do ocaso vingou,
Ficareis para sempre perdidos em mim.
Lx, 18-6-2012
A Falência Do Amor
Quando deixas de ser tu próprio,
E só finges para agradares,
Na rendição do Eu pensante,
No contrato de mútuo acordo,
De bajulações e hipocrisias,
Para somente satisfazermos Egos.
Egos narcisistas insaciáveis,
Que pela celebrada união de facto,
Projectam o seu narcisismo,
Para todo o sempre possível,
Alimentando o nosso egocentrismo.
Eu diria o que tu gostarias de ouvir,
Tu dirias o que eu sonharia em ouvir,
Eu veria em ti o que eu desejaria ver,
Tu verias em mim o que tu ansiarias ver,
Eu faria o que tu planearias que eu fizesse,
Tu farias o que eu aspiraria que tu viesses a fazer.
Diz-me quem é a mais bela?
E eu respondo - Tu meu amor.
Eu ouço as suas juras de amor,
Coro e durmo descansado e feliz,
Uma verdadeira simbiose idiossincrática.
Acordas um dia e não reconheces quem és,
Nem tão pouco quem dorme contigo ao teu lado,
O teu ente amado é só e apenas só,
Uma projecção idílica da tua própria mente,
Um fantasma com máscara do teu reflexo.
Lx, 23-6-2012
A Morte Bateu À Porta
Senti um arrepio na espinha,
Pressenti algo familiar,
Entrei em casa e logo a vi.
Instalada paciente e fria,
Sorriu-me pela escuridão,
E o sofrimento atroz dela brotou,
Em rodos inundando o silêncio.
Eu vi-a enredada no meu seio,
Embalando meu ente querido.
Eu conheço-a desde sempre,
Por mim há muito idolatrada,
Ela chegou com as trevas,
E o sol recolheu-se nas sombras.
Eu olhei-a nos olhos vazios,
E ela cobriu com o seu manto,
Os seus escolhidos de negro,
Como pertences inalienáveis,
Presos pela dor constante.
Eu hoje vi-a brincando às vidas,
Soltou os anjos negros à noite,
Os condenados dão-lhes guarida,
E suspirando todos vão de partida.
Donde imperam tristeza e solidão,
Vem lamentosa a Morte amiga,
Dar-vos a mão de fugida.
Lx, 21-1-2011
Não-Humanos
Escoam os impropérios,
Pelos interstícios das suas vidas.
O boçal vil poluto,
Procria incessantemente,
Funestas crias,
Anti Darwinistas,
Mediático-dependentes,
Mentecaptos insalubres.
A verdade absoluta,
Encarnada nas suas cabeças,
Absortas e indigentes,
Desalmadas,
Imberbes de razão,
Pululam subservientes,
Afogadas na sua frugalidade primária.
Despidos de Arte e Beleza,
Desprovidos de consciência,
Subjugados pelos impulsos primitivos,
Incomodam o outrem,
Incessantemente e exaustivamente.
Um contágio de morte,
Subsiste na cidade.
Lx, 6-8-2010
Comentários (1)
Escreveu no jornal ou revista Alma Nova de Espinho em 1919 e 1920 com José Maria dos Reis Pereira que depois iria adoptar o pseudónimo José Régio.
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“ Poesia Eterna Parte I”
Registado em www.safecreative.org sob o nº 1208142122416
A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.
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