Escritas

Lista de Poemas

A minha aldeia

Memórias pintadas de fresco,

Visões apocalípticas,

Lufadas de ar fresco,

Prisões paleolíticas.

Ventos sopram augurantes,

Sussurram-me aos ouvidos,

Trazem novas extravagantes,

Usurpam-me os sentidos.

Contemplo o horizonte embevecido,

Esquadrinho todos os cantos,

O Mar espraia-se enraivecido,

Pela Lua namorar os campos.

Céu e Terra tocam-se nos cumes,

Névoa gerada ladeia as encostas,

Nas casas ardem os lumes,

E as mesas já estão postas,

O pão abençoado,

Pelo meio mais um trago,

O mal exorcizado,

Ainda longe de estar pago.

O cão ladra para as pedras da calçada,

As ladainhas já fecharam a Igreja,

Guarda-se uma ovelha tresmalhada,

O sino dobra e o mocho pestaneja,

A aldeia dorme sossegada,

Que Deus a proteja.

LX, 13-4-2000

👁️ 848

Alma Gémea

Vagueias por aí,

Eu no fundo sei,

Olhas-me daí,

A minha Alma te dei.

Sinto no ar a tua presença,

A tua dor veio com o vento,

Porque estás tão tensa,

Não ouves o meu lamento.

Não chores mais,

Por favor não,

Soltaram os chacais,

E já não comem à mão.

Não te conheço o nome,

Não sei quem serás,

Bastará um olhar,

Um terno sorriso,

Num dia singular,

De tempo conciso,

Nunca saberás,

Sequer que existo.

LX, 15-8-2003

👁️ 946

Vales Encantados

A Luz pavoneando-se espairece pelos vales como a beleza preenche todo o espaço válido da estética, excepto o incorruptível vale das tormentas, sombrio e soturno, somente à espera, de ser digno de ser atingido ou contemplado, por um raio de luminosidade.

Mas porque não se torna então essa reunião plausível e realista?

Essa Luz tão contempladora, abrangente e resignante, a desejada por todos, mas tão selectiva na sua longitude.

Pobres almas daltónicas insensíveis a esse espectro de luz que exasperam nas profundezas da escuridão eterna e irresoluta, antimatéria da Luz.

Porque não só a Luz é bela ou é vida, as trevas e a escuridão são tão ou mais inebriantes e enternecedoras que a mais profunda e doce Luz matriarcal.

Salvé a penumbra absoluta, porque dela renasce a Luz ofuscante e genuinamente verdadeira. Pois Ela nasceu do crepúsculo de toda a luminosidade profícua e indulgente.

Tal como na magnitude total da luminosidade precoce e envolvente, ou na escuridão obscura e insalubre, o que ressalta da sua incompatibilidade e não sobreposição são laivos de esperança, de liberdade, de negação e anticonformismo tal e qual genes alterados e mutáveis.

Apóstolos da diferença e do contraditório dialéctico, guerreiros anarquistas contra a frivolidade ignóbil reinante.

Pois deles depende a evolução Humana, tanto biológica como culturalmente.

LX, 17-6-2001

👁️ 1 006

O Vazio perdurou em Silêncio

Sonhos enevoados,

Com música delicada,

Sentidos extenuados,

Com luz apagada.

Ecos uivam loucos,

Ressuscitam o Passado,

A Razão duns poucos,

Num triste Fado.

Dolorosa existência,

Pasma aberração,

Traída aparência,

Insolúvel tentação.

Alma dorida,

Coração em pranto,

Estou de partida,

Aqui num canto.

Silêncio companheiro,

Conforto indagável,

Destino matreiro,

Morte imutável.

Projecções futuras,

Contemplam o Além,

O outrora esconjuras,

O esquecimento também.

Perdido em profundo,

Mente angustiada,

Navego pelo fundo,

Fuga abençoada.

Tormentos em redor,

Obscuridade translúcida,

Alertas em temor,

Saudade enternecida.

Arte idolatrada,

O Belo intocável,

Toca-se a entrada,

Jamais influenciável.

Fundou a essência,

Universo coerente,

Espasmo à tangencia,

Unidos em torrente.

Espaço incomensurável,

Lamentosa consciência,

Eternidade implacável,

Amargosa existência.

Chamamento apelativo,

Ordem eloquente,

O caos imperativo,

O vazio inconsequente.

Forças indulgentes,

Esbatem ao lado,

Perceptíveis antes,

Hoje inundado.

Força invisível,

Acção passiva,

Ser sensível,

Dor lasciva.

As lágrimas secaram,

A névoa levantou,

Os anjos morreram,

A Vida findou

O nada vingou.

LX, 17-9-2002

👁️ 1 011

Felicidade





Felizes os ignorantes,



Pois Eles,



Encarnaram o Mundo.





Lx, 20-7-2000

👁️ 933

A Longa Caminhada




Unir-me-ei a todos vós um dia,
A brisa trouxe a pestilência,
Fétida e nauseabunda,
Aos meus sonhos de menino,
Arruinando a minha inocência,
Que trucidada nas trevas jaz.


Unir-me-ei a todos vós um dia,
O tempo reclama em voz alta,
Em gritos lancinantes de dor,
Pela carne outrora emprestada,
E doravante mil vezes reclamada,
Os seus uivos ecoam trespassantes.


Unir-me-ei a todos vós um dia,
Lacaios do destino atroz,
Proscritos à minha simpatia,
Na última e longa caminhada,
A grande marcha da liberdade,
A caminho do abismo inviável.


Unir-me-ei a todos vós um dia,
Na podridão dos corpos exauridos,
Acompanhando vossas mentes vis,
Perniciosas almas esquecidas,
Perdidas errantes no vácuo denso,
Hoje e para todo o sempre.


Unir-me-ei a todos vós um dia,
Tal como lampejos de luz saboreamos,
Ao longo dos laivos de consciência,
Verdadeiras encarnações do Cosmos,
Que se reconheceram ao espelho,
Nas nossas próprias imagens mortas,
No reflexo incoerente das nossas vidas.


Unir-me-ei a todos vós um dia,
A beleza extrema das percepções sentidas,
Sensorialmente embriagadas de esplendor,
Alquimistas da moral etilizada e petulante,
De ética bacoca e presunçosa,
Enforcados em mimetismos sem fim,
Expiramos cativos em tédios virulentos.


Unir-me-ei a todos vós um dia,
Corpos desalmados correrão nus,
Repetidos e iguais todos juntos,
Largaremos os grilhões no caminho,
Tombaremos levemente nas valas,
Caídos de espíritos amortalhados,
Virão todos ininterruptamente ali finar.


Unir-me-ei a todos vós um dia,
Resignados sem esperança no destino,
Na linha de montagem inimaginável,
Onde os sonhos se extinguirão,
Preteridos ao esquecimento eterno,
Somos todos peças prescindíveis,
Oleamos a engrenagem da máquina.


A infernal máquina Universal,
Que nasceu infinitesimal,
Empolou exponencialmente,
E um dia implodirá em escuridão,
Em treva total e absoluta,
Anulando-se no zero,
Infinitamente vazio.

Lx, 10-6-2012
👁️ 807

Filhos Enjeitados




Meus filhos enjeitados,
Doentes terminais,
Desfigurados e feios,
Pobres de espírito e de razão,
Amputados do Bem,
Ignorantes ignóbeis,
Rastejantes pederastas,
Rejeitados por todos,
Vinde a mim meus pobres filhos.


Vocês que anseiam formosura,
Vocês que anseiam fortuna,
Vocês que anseiam sensibilidade,
Vocês que invejam o próximo,
Vinde a mim meus rejeitados filhos.


Não chorareis nunca mais,
Deixai as feridas purulentas,
Serem lambidas pelos chacais,
Eu reconfortarei as vossas almas,
Até ficarem distantes do fogo infernal.


Cantai comigo todos cantai,
O hino libertário da dor inglória,
O términos chegou em pranto,
O absurdo do ocaso vingou,
Ficareis para sempre perdidos em mim.


Lx, 18-6-2012


👁️ 647

A Falência Do Amor




Quando deixas de ser tu próprio,
E só finges para agradares,
Na rendição do Eu pensante,
No contrato de mútuo acordo,
De bajulações e hipocrisias,
Para somente satisfazermos Egos.

Egos narcisistas insaciáveis,
Que pela celebrada união de facto,
Projectam o seu narcisismo,
Para todo o sempre possível,
Alimentando o nosso egocentrismo.

Eu diria o que tu gostarias de ouvir,
Tu dirias o que eu sonharia em ouvir,
Eu veria em ti o que eu desejaria ver,
Tu verias em mim o que tu ansiarias ver,
Eu faria o que tu planearias que eu fizesse,
Tu farias o que eu aspiraria que tu viesses a fazer.

Diz-me quem é a mais bela?
E eu respondo - Tu meu amor.
Eu ouço as suas juras de amor,
Coro e durmo descansado e feliz,
Uma verdadeira simbiose idiossincrática.

Acordas um dia e não reconheces quem és,
Nem tão pouco quem dorme contigo ao teu lado,
O teu ente amado é só e apenas só,
Uma projecção idílica da tua própria mente,
Um fantasma com máscara do teu reflexo.


Lx, 23-6-2012
👁️ 706

A Morte Bateu À Porta



Senti um arrepio na espinha,
Pressenti algo familiar,
Entrei em casa e logo a vi.
Instalada paciente e fria,
Sorriu-me pela escuridão,
E o sofrimento atroz dela brotou,
Em rodos inundando o silêncio.
Eu vi-a enredada no meu seio,
Embalando meu ente querido.
Eu conheço-a desde sempre,
Por mim há muito idolatrada,
Ela chegou com as trevas,
E o sol recolheu-se nas sombras.
Eu olhei-a nos olhos vazios,
E ela cobriu com o seu manto,
Os seus escolhidos de negro,
Como pertences inalienáveis,
Presos pela dor constante.
Eu hoje vi-a brincando às vidas,
Soltou os anjos negros à noite,
Os condenados dão-lhes guarida,
E suspirando todos vão de partida.
Donde imperam tristeza e solidão,
Vem lamentosa a Morte amiga,
Dar-vos a mão de fugida.

Lx, 21-1-2011
👁️ 704

Não-Humanos



Escoam os impropérios,
Pelos interstícios das suas vidas.
O boçal vil poluto,
Procria incessantemente,
Funestas crias,
Anti Darwinistas,
Mediático-dependentes,
Mentecaptos insalubres.
A verdade absoluta,
Encarnada nas suas cabeças,
Absortas e indigentes,
Desalmadas,
Imberbes de razão,
Pululam subservientes,
Afogadas na sua frugalidade primária.
Despidos de Arte e Beleza,
Desprovidos de consciência,
Subjugados pelos impulsos primitivos,
Incomodam o outrem,
Incessantemente e exaustivamente.
Um contágio de morte,
Subsiste na cidade.

Lx, 6-8-2010
👁️ 660

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António Azevedo - Vila do Conde
António Azevedo - Vila do Conde
2024-05-28

Escreveu no jornal ou revista Alma Nova de Espinho em 1919 e 1920 com José Maria dos Reis Pereira que depois iria adoptar o pseudónimo José Régio.