Escritas

Lista de Poemas

Rapaziadas

Porque te deram consciência um dia,

Não seria para teres noção de ti mesmo,

Porque te encharcas de perfume,

O mau cheiro que exalas não alivia,

Porque olhas de soslaio tão pasmo,

Não tens a escola toda dos energúmenos.

Continuas a ver novelas baratas,

E a tua vida já vai no enésimo episódio,

Continuas a defecar nas matas,

Não o levas contigo por lhe teres ódio,

Continuas a cantar-lhes serenatas,

Não vês que já todos chegaram ao pódio.

Conduzes-te de carro até ao café,

Mas não vês da tua casa,

Que ainda não fizeram Drive in,

Levei-te comigo ao pontapé,

Fiz-te uma cova abrigada,

Acreditaste idiota ser o Holiday in.

LX, 19-3-2002

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Encerrado



Fechem as fábricas,

E as escolas também,

Fechem as bocas,

Tudo muito bem.

Fechem os corações,

Aos sentimentos,

Fechem as prisões,

Aos comportamentos.

Fechem as igrejas,

À moralidade,

Fechem as invejas,

Na obscuridade.

Fechem o caixão,

Duma vez por todas,

Não deixem tostão,

Esqueçam as bodas.

LX, 19-10-2001

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Empatia







Só Eu verdadeiramente te conheço,

Como um Anjo da Guarda te protejo,

Vou e venho com a brisa do Tejo,

Vou contigo e em Ti permaneço.

As lágrimas e os soluços sufocantes,

Decifraram o enigma da Vida,

Nas ondas do mar consolantes,

Vim com a maré e o luar convida.

Partilhaste a tua dor comigo,

Numa noite fria e soturna,

Cheguei com a luz da aurora amigo,

E iluminei-te a face taciturna.

Desfizeram-se os teus sonhos de mulher,

Simplesmente porque já cresceste,

Sorveste o último laivo à colher,

Vim com a chuva e a rua desceste.

Se a tristeza não te abandonar,

Vai de manhã logo de madrugada,

Deixar a tua alma liberta voar,

Eu logo virei com a Morte abrigada.

Se andas sozinha no Mundo,

Vem com o vento levemente,

Vem comigo lá bem ao fundo,

Onde as sombras inebriante a mente.

Fecha a porta à imaginação,

Deixa irem embora os sentimentos,

Larga os teus sentidos à extinção,

Ao vazio deixa os desalentos.

Porque a Noite é reconfortante,

Meiga e companheira fiel,

Deixa-a embalar-te bastante,

Adoçar-te a alma neste Mundo fel.

Porque ela é incolor também,

É a paz infinita com certeza,

Eterna para além de todo o bem,

O silêncio impera sem música nem tristeza.

Eu te reconfortarei à noitinha,

Porque eu não existo como tal,

Eu nada sou e não és minha,

Deixa de ser comigo e dá a vida como aval.

LX, 17-7-2001

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Ser ou não Ser

Inquietude que me tormentas,

Dia e noite, de manhã, à noitinha,

Sob o peso da consciência lamentas,

Invocaram-me numa ladainha.

Alma enclausurada e escondida,

Com medo da luz das trevas,

Insultada, ultrajada e perdida,

Diluiu-se numa aurora em névoa.

Fui à sua procura um dia,

Demorei tempos afim, uma vida,

Procurei em vales onde me perdia,

Só, chorei a perda sofrida.

Deixaste-me para sempre só,

Não levaste contigo o pensar,

Ele vai-me consumir até ser pó,

Pensamentos o Fim hão-de lembrar.

A cambalear o caminho prossigo,

Não sei o destino, ao que vou,

Implorei ao vento um abrigo,

Sussurrou e as folhas com ele levou.

Continuo a minha busca incessante,

Subo montes, procuro-te no céu,

Os passos conduzem-me avante,

O vento cessou, só a chuva permaneceu.

O corpo envelheceu devagar,

Coberto de sofrimento atroz,

Cansado de tanto procurar,

Ousou um dia ser um albatroz.

Para poder voar sobre o Mar,

Vaguear por entre as nuvens,

Eternamente sustentado pelo ar,

Apelei à Lua por ti, mas não vens.

Por fim o pavio esfumou-se,

Por fim o trilho esgotou-se,

Por fim a alma esgueirou-se,

Por fim a resposta materializou-se.

Afinal a Alma era Eu próprio,

Final era Eu a sombra existencial,

Afinal era Eu poeira sideral,

Afinal Deus era Eu próprio.

LX, 7-9-2001

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António Azevedo - Vila do Conde
António Azevedo - Vila do Conde
2024-05-28

Escreveu no jornal ou revista Alma Nova de Espinho em 1919 e 1920 com José Maria dos Reis Pereira que depois iria adoptar o pseudónimo José Régio.