Escritas

Lista de Poemas

Condição Humana



A peste desceu à cidade,
Insalubre e coberta de esterco,
Negra de cheiros nauseabundos,
Asfixia-nos o ar fétido fedorento.
Pragas de insectos corroem tudo,
Roedores pejados de pulgas,
Pululam nos despojos.
O fedor dos dejectos,
O urinol a correr,
Pela grande via abaixo,
O lixo omnipresente,
Em todo o lado, vaza das casas.
Consumir desregradamente,
Exponencialmente em vão.
Ainda ontem violavam,
Matavam e canibalizavam,
Hoje pavoneiam-se em frente,
Do espelho narcisista,
E esperam pelo paraíso,
à tardinha no ocaso da vida.
O prazo de validade expirou,
Há muito na ilha da Páscoa,
A praga humana instalou-se,
Nesta jangada de pedra,
Tal qual um formigueiro acéfalo.

Lx, 9-8-2010
👁️ 735

Ao Longe



Estou tão longe,
E cada vez mais longe.

Estou longe da dúvida,
Estou tão longe,
Estou submerso nas profundezas,
Do mar calmo e silencioso,
Cada vez mais longe.

Estou longe da luz,
Estou tão longe,
Estou longe do Alfa,
Da razão existencial,
Cada vez mais longe.

Estou longe do berço estelar,
Estou tão longe,
Estou longe da realidade,
Mecânica e promiscua,
Cada vez mais longe.

Estou longe do próximo,
Reflexo da minha intolerância,
Estou tão longe,
Longe dos sorrisos,
Há tanto esquecidos,
Cada vez mais longe.

Estou longe do paraíso,
Estou tão longe,
Cada vez mais longe,
Do sonho um dia,
Idealizado e terno,
Tão longínquo Eu Sou.

Lx, 12-6-2010

👁️ 753

O Encontro



Despe-te duma vez por todas,
Deixa a carteira em casa,
Esvazia a mente,
Silencia-te agora,
Resguarda-te do próximo.
Desiste dos sonhos,
Esquece o passado,
Larga a família,
Não enalteças o Sagrado,
Desampara-te de ti.
Agora ouve sem nada ter para escutar,
Vê a noite escura esperar,
Percepciona o existir relativo,
Deixa-o diluir no cosmos absoluto.
Sente a insustentável leveza do ser,
A esvair-se lentamente no tempo,
Esse espaço-tempo que ocupas,
Erraticamente numa vida,
Num enxame de elementos,
Primordiais e perenes.
Encarnas-te a consciência do universo,
Anseias partir no seu âmago,
No encontro do Eu com o Todo,
Tão natural e simplista afinal,
O tão diabolizado encontro final.

Lx, 14-11-2010
👁️ 745

Relatividades



Branco ou preto,
Verde ou vermelho,
Tanto faz para mim.
Só o azul do mar infinito,
Me acalma os sentidos.
Só os horizontes longínquos,
Me enchem a alma.
Esta ou aquela,
Loira ou morena,
Tanto faz para mim.
São adorno de festa,
À porta da minha ermida.
Só as loucas proscritas,
Me cativam o coração,
Nostálgico do seu olhar,
Perdido e vago tardio.
Deuses à escolha,
Árbitro ou vilão sádico,
Tanto faz para mim,
Só a perenidade da morte,
E a estética inusitada,
Me envolvem o ser,
No todo existencialista.
Só a bonança da irrelevância,
Me inunda de paz o discernimento.

Lx, 19-6-2010
👁️ 642

O Medo



Não tenhas medo pequeno,
é só o perfume das flores do campo,
Não temas,
São um jardim de cores apenas.

Não tenhas medo pequeno,
é só a chuva a cair lá fora,
Não temas,
São gotas de água apenas.

Não tenhas medo pequeno,
é só o céu estrelado,
Não temas,
São pirilampos celestiais apenas.

Não tenhas medo pequeno,
é só um choro abafado,
Não temas,
São fados ancestrais apenas.

Não tenhas medo pequeno,
é só uma andorinha a voar,
Não temas,
São suspiros de liberdade apenas.

Não tenhas medo pequeno,
é só uma cova aberta,
Não temas,
São saudades tuas apenas.

Lx, 9-5-2010
👁️ 711

Simplicidades Minimalistas



Onde se encontra o subtil?
Na subtileza do desabrochar.
Onde mora a beleza?
No coração carente.
Onde fica o Paraíso?
No tempo pendente.
Onde está a omnisciência?
No âmago do ser.
Onde nasce o amor?
No cuidar sentido.
Onde brota a razão?
No nosso ressentimento.
Onde para o bom senso?
No correr do tempo.
Onde anda a luz?
Na gota do orvalho.
Onde ensina o mestre?
No cume da montanha.
Onde se fixa o olhar?
No infinito do mar.
Onde paira a música?
No sopro do vento.
Onde estávamos todos?
Nas estrelas a brilhar.

Lx, 6-12-2009
👁️ 603

Pesadelos



O Cosmos ousou sonhar,
Encarnou o Homem,
Em pesadelo se tornou,
à consciência largada.
Eu cidadão do Mundo,
Feito de Estrelas a estrear,
Percorro o caminho,
Esbatido ao luar,
Onde as sombras,
Abordam o meu passar,
Largando estridentes uivos,
De pesar.
Ladeiam-me constantes,
Vomitam jactos de fogo,
Das entranhas infernais,
O caminho em ponto de fuga,
A estrada da vida empinada.
Noite cerrada e escura,
As cores perdidas em parte incerta,
Ofegante percorro desalmado,
Este labirinto malfadado.
Ansioso pelo acordar,
Luminoso dum raio de Sol,
Por mim encarnado.

Lx, 7-3-2010
👁️ 637

Anseio Primaveril




O frenesim dos pardais,
Perfeito.
O desabrochar das flores,
Perfeito.
As andorinhas ao alto,
Perfeito.
O bafo quente do Sol,
Perfeito.
Os odores exalados do campo,
Perfeito.
O vestir das árvores tão verde,
Perfeito.
A brisa fresca ao fim do dia,
Perfeito.
A Primavera chegou uma vez mais,
Perfeita, desejada e bela.
Tocou indelével no meu coração,
E ele chorou de alegria,
Ao abrir a janela à vida,
Inundando de aura luz,
A alma perdida,
De comoção.

Lx, 23-3-2009

👁️ 647

Cansado



Cansado ao acordar,
À noite cansado de estar,
Cansado de mim,
E de vós acima de tudo.
Cansado do tempo a passar,
E do senhor sisudo,
Cansado da bonança,
Dos dias correntes,
E dos meus membros dormentes.
Cansado do fiel da balança,
E da consoada,
Cansado de fazer anos,
Em desalmada.
Cansado de sorrir,
Amestrado,
Cansado tão cansado,
De lamúrias suplicantes.
Cansado de choros e prantos,
Desencantos ofegantes,
Cansado de desencontros,
Oníricos latentes.
Cansado do passado,
Insipiente,
E do futuro poluente,
Cansado do sim e do não,
De ser testemunho vidente.

Lx, 19-4-2009
👁️ 663

A Doença Do Corpo – A Morte



Quando a força se esvai,
Aos poucos e poucos,
Lentamente, devagar.
Quando ainda ontem podia andar,
Enérgico, esbelto e assaz,
Egocêntrico, egoísta e jovem,
Inteligente, equilibrado e mordaz,
Atlético, imortal e feliz.
Hoje jaz deitado e entrevado,
Impotente, enfezado e sujo,
Indesejado, insalubre e dorido,
Introvertido, Infeliz e mortal.
Desiste ingloriamente resignado,
Desmiolado, rejeitado e esquecido,
Desonrado, desconhecido e cansado,
Autómato não autónomo,
Monótono de olhar estarrecido,
Vazio, baço e sem claridade.
A carne já em chaga,
Purulenta e decomposta,
Exposta aos elementos finais,
Putrefacta,
Pela terra a arfar,
E o cheiro Deus meu,
E o cheiro que exala!

Lx, 8-9-2009
👁️ 699

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António Azevedo - Vila do Conde
António Azevedo - Vila do Conde
2024-05-28

Escreveu no jornal ou revista Alma Nova de Espinho em 1919 e 1920 com José Maria dos Reis Pereira que depois iria adoptar o pseudónimo José Régio.